Nove jalecos vazios e um pedido de cuidado. Por Meraldo Zisman
… Esse tipo de decisão quase nunca nasce de um momento só: é o ponto final de uma história longa de exaustão, solidão e falta de escuta. E, quando alguém conhecido chega a esse limite, quem já está por um fio passa a olhar essa mesma saída com menos medo…
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Ao ler a notícia, não vejo apenas uma sequência de fatos. Vejo rostos cansados, escondidos atrás de máscaras de eficiência. Penso em médicos chegando em casa de madrugada, tirando o jaleco no escuro para não acordar ninguém, engolindo o choro no banho, respondendo “está tudo bem” quando, por dentro, tudo desaba. Em muitos países, o término voluntário da própria vida entre profissionais de saúde vem se espalhando como uma epidemia silenciosa.
Esse tipo de decisão quase nunca nasce de um momento só: é o ponto final de uma história longa de exaustão, solidão e falta de escuta. E, quando alguém conhecido chega a esse limite, quem já está por um fio passa a olhar essa mesma saída com menos medo. A eliminação da própria vida também pode ser contagiante — não por fraqueza de caráter, mas porque a esperança foi encolhendo até quase desaparecer.
Por isso me inquieta tanto a forma como essas notícias são contadas. Quando se juntam casos, se fala em “onda”, se descrevem detalhes, quase se desenha um roteiro do desespero. Quem está fragilizado lê e pensa: “talvez esse também seja o meu caminho”. Quando tudo vira número e manchete, somem os nomes, os abraços, as noites insones, o medo de ser julgado por não dar conta de tudo.
Precisamos de outro tom: menos espetáculo, mais respeito. Falar da sobrecarga, dos plantões desumanos, da cultura do “aguente firme”, do medo de pedir ajuda. Lembrar que existem serviços de apoio, colegas, redes de cuidado — e, sobretudo, que não é vergonha dizer “eu não estou bem”. Ser comedido ao noticiar não é esconder a realidade; é tratar as palavras como se trata uma ferida aberta: com calma, sem sensacionalismo, sem enfeitar o gesto extremo, sem repetir detalhes que só alimentam a dor.
Escrevo, então, não para negar o fato, mas para pedir delicadeza. Que cada reportagem lembre que essas não são apenas histórias de fim, e sim sinais de alerta de um sistema que adoece quem cuida. Que, ao informar, a imprensa também ofereça caminhos de ajuda, telefones, serviços, braços possíveis. E que nós, como sociedade, aprendamos a olhar além do título, além da função, além do jaleco. Porque, no fim das contas, é isso que não podemos esquecer: por trás do jaleco há um ser humano, com medo, cansaço, sonhos e lágrimas — alguém que precisa ser visto e acolhido antes que a dor o convença, em silêncio, de que não há mais saída.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu
