ESQUERDA

Sinto-me à vontade para fazer essa crítica porque sou de esquerda e não entendo porque companheiros de esquerda, que deram destaque a pirataria do ditador Trump, decidem fechar aos olhos à ditadura teocrática islâmica iraniana, não criticam o ditador aiatolá Khamenei e não dão apoio à revolta popular iraniana…

Mais de 300 pessoas morreram em dois meses de protestos no Irã | Jovem Pan

O governo iraniano dirigido pelo aiatolá Khamenei cortou ontem o acesso à Internet em todo país, diante da rebelião do povo iraniano contra a ditadura teocrática islâmica. Quase ao mesmo tempo, os chamados canais progressistas ou de esquerda deixaram de fazer comentários sobre essa situação de revolta popular.

Sinto-me à vontade para fazer essa crítica porque sou de esquerda e não entendo porque companheiros de esquerda, que deram destaque a pirataria do ditador Trump, decidem fechar aos olhos à ditadura teocrática islâmica iraniana, não criticam o ditador aiatolá Khamenei e não dão apoio à revolta popular iraniana.

Em 1979, eu era um dos exilados em Paris contra a ditadura militar brasileira. Vivia no Quartier Latin, mais precisamente na rue de la Sorbonne, e acompanhava os movimentos da esquerda em Paris contra o Xá Reza Pahlevi, movimentos liderados pelo aiatolá Khomeini, com o apoio de Jean Paul Sartre e Michel Foucault.

A queda do Xá foi comemorada por todos, mas a alegria durou pouco porque o aiatolá, logo transformado em Guia Supremo, instaurou um regime religioso islâmico extremamente severo baseado na Charia.

As  mulheres, consideradas cidadãs de segunda classe, se revoltaram e criaram recentemente o movimento Mulher Vida e Liberdade, depois de muita repressão e mortes.

Houve grande agitação depois do assassinato pelos chamados guardiães da revolução ou policiais da fé islâmica, da jovem curda Mahsa Amini por não ter colocado corretamente o véu na cabeça.

O que me levou a gravar um short no YouTube e escrever este texto foi ter visto e ouvido, agora há pouco, numa entrevista ao canal Opera Mundi, por um companheiro de esquerda, a versão de que não foram os policiais que mataram a jovem curda Mahsa Amini, adotando a versão da ditadura iraniana.

Levei um susto porque isso me lembrou que, durante a ditadura militar no Brasil, também o Doi Codi sempre tinha uma outra versão para seus assassinatos, como aconteceu com Vladimir Herzog e Rubens Paiva. Não faz muito tempo, alguém no Canal GGN, tinha qualificado o ex-presidente iraniano, logo depois de sua morte num acidente de helicóptero, como um humanista! Ora Ebrahim Raisi, autor da condenação à morte na forca de mais de 8 mil pessoas, era conhecido como açougueiro!

Tenho acompanhado e publicado o processo de islamização da esquerda não só no Brasil como na França. Não se pode fazer seleção de ditadores, condenando uns e aceitando outros. Trump é um proto ditador perigoso, Maduro era também um ditador. Não se pode condenar o ato de pirataria na Venezuela sem condenar a invasão da Ucrânia e a ameaça de tomada de Taiwan.

Não se pode ser de esquerda e fechar os olhos às denúncias mostradas em filmes contra a ditadura teocrática islâmica, cujos diretores são presos e proibidos de ir aos festivais. Entrevistei alguns deles nos Festivais de Berlim e Locarno. O realizador do filme A Semente do Figo Sagrado, Mohammad Rasoulof, teve de fugir do Irã pelas montanhas para não ser preso. Jafar Panahi, premiado em Cannes, passou anos na prisão.

Para o 247 não existe uma revolução popular, mas uma situação criada por pressões e sanções econômicas. Ditadura teocrática islâmica? O que é isso?

Basta um trecho: “o colapso  econômico iraniano precisa ser lido, portanto, como crise induzida. Uma crise fabricada de fora para dentro”. Num longo artigo, nenhuma menção à estrutura ditatorial religiosa do país.

Vamos ficar com o povo iraniano e sua revolução contra o “evangelismo” iraniano e contra sua ditadura teocracia islâmica.

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  • Rui Martins também está em versão sonora no Youtube, em seu canal –

https://www.youtube.com/@rpertins


Rui Martins – Direto da Suiça – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI

 

 

3 thoughts on “Revolução iraniana sem apoio da esquerda. Por Rui Martins

  1. Prezado Rui.

    No segundo parágrafo do teu excelente artigo, muitas das nossas dúvidas de esquerdistas (ou social-democratas… Meu luto é outro, e nem um pouco mais consolável.) encontram uma resposta : ao não entender por que a esquerda se volta contra a rapinagem de Trump ao mesmo tempo em que abriga sob o manto de suas desculpas morais criminosamente relativistas a barbárie islâmica aos aiatolás, você foi ao ponto ! Nem precisa ir além. De certa forma, apoiar islâmicos radicais criminosos, financiadores de atos terroristas no mundo inteiro, carniceiros de seu próprio povo, é o ato simétrico da condenação não apenas do « Grande Satã », Uncle Sam, mas igualmente da condenação unilateral cega, imune à razão, do Estado de Israel. E como a esquerda gosta de fazer isso ! Não é só na Europa. Aqui, no Canadá, particularmente no Quebec francófono, é igualzinho.

    Sim, claro, Israel comete suas próprias barbaridades em escala industrial, mas não se deve esquecer como esta atual guerra cruenta começou, nem que Israel sempre foi atacado pelo mundo islâmico, e mesmo pelo ocidental, muito antes de ser (des)governado por Netanyahu – e que Judeus sempre foram atacados, mesmo quando o Estado de Israel nem passava pela imaginação do Século XX. Será que a esquerda de hoje se lembra do caso Dreyfus e de por que ocorreu… ? Esqueceram tudo que a grande filósofa e historiadora Hannah Arendt nos ensinou sobre como o Antissemitismo se tornou o estofo e a alma de terríveis regimes de exceção, chamados Totalitarismos… ? O Nazismo nada mais diz a essa esquerda ? É isso, meu caro : enquanto os EUA – o grande « Mal da Humanidade », como amigos « gauchistes » diziam 30 ou 40 anos atrás – estiverem vivos, a esquerda ainda terá desculpas e relativismos morais em estoque para gastar conforme o baile. Imperialismo americano nunca mais ! Se for russo… Bem, este, quem sabe… Afinal, devemos tanto aos bolcheviques que ajudaram a tirar Hitler da área ! Mas, estou certo, do Stalinismo que matou e matou e matou a rodo, a memória não lembra mais nada. Pra quê ?
     
    Em suma, meu caro, é preciso escolher inimigos, e a esquerda, há mais de 60 anos, tem os mesmos ! Não se pode acusá-la de infidelidade, e, afinal, pra que mudar justo agora ? Está tudo tão confortável do jeito que está, não é mesmo… ? As desculpas, e as pedras, já estão bem às mãos. Não sei se os aiatolás e o atual Irã — outro exemplo que Arendt, mais intelectualmente honesta que Sartre, não hesitaria em reconhecer como exemplo de Totalitarismo — vão sucumbir à resistência popular, mas uma coisa é certa : a esquerda não se rende ! Enquanto houver uma sombra de EUA (Democratas ou Republicanos no poder, pouco importa) ou de Israel (Avodá ou Meretz ou Yesh Atid, pouco importa) no radar das guerras santas, a luta contra todos os opressores do mundo haverá de continuar… E nada melhor que um opressor bem treinado de língua afiada para bem poder combater outro ! Relativismo moral, ou imoral… ?

    Lula não entende por que até hoje é considerado em Israel persona-non-grata… Não sabe dizer o que foi exatamente aquele tal de o Holocausto, mas, afinal, na esquerda brasileira, alguém sabe… ?

    Forte abraço.
    Continue escrevendo. Sempre que posso, leio.

    1. Caro Raposa Vermelha,
      repetindo e adaptando um comentário que recebi “assisto do alto da montanha o fim do nosso mundo judáico-cristão ocidental”, esperando um milagre de última hora.
      Seu longo texto me traz um certo conforto (me rassure) por não ser fácil remar só contra a maré.
      Vivemos um momento de perigoso retrocesso.
      Grande abraço,
      Rui Martins.

    2. ” a esquerda não se rende ! Enquanto houver uma sombra de EUA (Democratas ou Republicanos no poder, pouco importa) ou de Israel (Avodá ou Meretz ou Yesh Atid, pouco importa) no radar das guerras santas, a luta contra todos os opressores do mundo haverá de continuar…”
      Você e o Rui Martins são parte de uma ínfima minoria na esquerda.

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