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O relógio e a Lei do Mar. Por Teresa Otondo

…No futuro, dizem, tudo será maravilhoso, como o meu relógio, mas fico pensando… de que é feito meu relógio? Cadeia produtiva, metais raros, pegada de carbono…

Acordo bem disposta. Amanhece. Um lindo dia depois da chuvarada da noite. Lanço um olhar  distraído para meu novo relógio de pulso, um presente da família do qual não devo mais me separar, avisam. Lindo, design moderno, cor de rosa.

 No mostrador não vejo números…. só quero  saber que horas são, e aperto o botão lateral.

Fico sabendo em gritantes números amarelos como bate meu coração, que horas são e qual o dia da semana… Onde será que deixei o manual?

Prefiro olhar para fora e contemplar a quaresmeira em flor que plantei há muitos anos e que, provavelmente – se o clima ajudar – sobreviverá a mais anos do que eu.

Onde, onde será mesmo que foi parar o manual do meu relógio? Procuro depois. Agora o que me preocupa é a saúde do planeta.

No futuro, dizem, tudo será maravilhoso, como o meu relógio, mas fico pensando… de que é feito meu relógio? Cadeia produtiva, metais raros, pegada de carbono…

O dia começou, mal começou, e lá vem o atual presidente dos Estados Unidos querendo tomar conta do mar da Groenlândia como se ali fosse o quintal de sua casa.

Esse brinquedo é meu, dizia meu implicante coleguinha do jardim de infância, tomando de minha pilha de bloquinhos as peças que construíam minha torre.

Hoje, para sustentar nosso conforto e ambições de futuro, precisamos dos tais bloquinhos, terras e metais raros. Já exploramos sem sucesso o potencial da Lua. As minas terrestres se esgotam ou complicam, a questão ambiental e social, entre outras, interfere no negócio.

Sobra o fundo do mar, lá onde ainda ninguém foi.

Como nos tempos da corrida do ouro em terras americanas, foi dada a largada. Quem chegar primeiro leva. Por que não começar pelas águas da Groenlândia? Afinal, o fundo do mar não é de ninguém, não é mesmo? É e não é.

A Lei do  Mar (Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar—UNCLOS) existe desde 1982, assim como o Tribunal Internacional do Direitos do Mar. Os Estados Unidos assinaram  o  Tratado da Convenção mas não ratificaram a lei decorrente.

Assim sendo o governo norte-americano incentiva empresas privadas a explorar em aguas internacionais os minerais essenciais para os  componentes eletrônicos de meu magnifico relógio de pulso que vai me socorrer se eu cair no chuveiro.


Teresa Montero Otondo – jornalista,  autora de “Rascunhos de Vida – entre livros e escritos”. (Editora Coerência, BP 2024.)

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