GUERRA - LÍNGUA

A guerra e os dizeres da língua. Por Adilson Roberto Gonçalves

Da Faixa de Gaza para um pouco mais a leste, a guerra mudou ligeiramente de geografia, mas não de protagonistas, de ambições e do vozerio que lhe é particular. Parece que a “nova” guerra no Oriente Médio está sem objetivo, o que a tornaria uma guerra sem fim.

GUERRA - LÍNGUA

Damos nome ao que existe e o filósofo diz que somente algo passa a existir quando pode ser nominado, que tenha uma palavra que o descreva. Não sei árabe, mas dizem que, superada a diferença na escrita, sua sonoridade e o vocabulário não são tão difíceis. Heranças linguísticas temos várias e houve uma conversa interessante nas páginas de jornal da capital paulista. Em edição no início do ano, Ruy Castro e Antonio Prata, ambos colunistas da Folha de S. Paulo, conversaram magistralmente entre si com suas colunas, claro que não de forma explícita.

Ruy, com seu “As tripas das palavras”. nos informou da abrangência da influência do árabe em nossa língua, desconhecida da maioria, ressaltando a controvérsia sobre a origem de mulato, por exemplo, que também seria árabe. O Pratinha, com seu “Trapo de língua”, reafirmou que as coisas devem ser chamadas pelo verdadeiro nome, sendo o principal argumento a matança que está acontecendo na Palestina (sim, a guerra ali não acabou), opressão a um povo de língua também árabe. Povos e línguas estripadas, ainda tentamos sobreviver sob precária democracia. E a guerra continua e é contínua.

Da Faixa de Gaza para um pouco mais a leste, a guerra mudou ligeiramente de geografia, mas não de protagonistas, de ambições e do vozerio que lhe é particular. Parece que a “nova” guerra no Oriente Médio está sem objetivo, o que a tornaria uma guerra sem fim. O cerne da questão é este: o que faz Donald Trump é um excelente roteiro de filme, que foi fartamente premiado no Oscar, mas longe de uma realidade a ser seguida por qualquer povo neste planeta. Porém, não foi por falta de aviso o que o presidente norte-americano se propôs a fazer desde o primeiro mandato, passando pela tentativa de golpe de Estado com a invasão do Capitólio, quatro anos antes, e o tarifaço em curso mundo afora. O discurso da mentira triunfou e o ditado de que ela tem pernas curtas já não mais condiz com os tempos modernos. Isso porque sabemos que, na guerra, as primeiras vítimas são a verdade e as crianças.

A título de triste ilustração, em artigo de opinião para o Estadão, o Major Rafael Rozenszajn disse que “Israel não começou a guerra” e, pelo jeito, também não a terminará. Nas palavras do militar sente-se a falta de duas expressões: “apoio dos Estados Unidos” e “crianças mortas por mísseis israelenses”. Paradoxalmente, o autor escreveu um livro sobre “A guerra de narrativas” e, pelo que se vê, uma dessas narrativas está sendo falseada para transformar tudo o que Israel faz e fez como legítimo. O vespeiro no Oriente Médio é intenso e não é de hoje. Não nos enganemos com as palavras, pois beligerar não é gerar o belo.

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Perfil ambiental e político – Adilson Roberto Gonçalves –  pesquisador da  Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista.  Vive em Campinas.

2 thoughts on “A guerra e os dizeres da língua. Por Adilson Roberto Gonçalves

  1. Prezado Adilson,

    Antes de opinar sobre o que ignora, recomendo estudar, ao menos, um pouco de história do Oriente Médio. Melhor ainda, deixe as palavras descansarem um pouco, peça um visto para visitar Israel, more por lá uns meses. Tenho certeza de que descobrirá imediatamente qual é o objetivo da defesa do país em relação ao Irã e países asseclas. E mais, constatará que Israel, em suas ações, procura agir com legitimidade, sem nunca ter ameaçado de destruição qualquer vizinho ou outro país da região. Claro que pode cometer erros, claro que pode tê-los cometido, afinal um país é dirigido por seres humanos, mas terá a possibilidade de aprender que é o país cujas condutas são as mais legítimas de toda a região.

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