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Tolerância e paz, utopias? Por Antonio Cláudio Mariz de Oliveira

… O individualismo, a cobiça, o protagonismo social e político, a perda do senso do bem comum estão afastando o homem do homem, e ele está ficando distante do Estado…

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PUBLICADO ORIGINALMENTE NO ESTADÃO, OPINIÃO,
 EDIÇÃO DE 30 DE MARÇO DE 2026

A intranquilidade que se abate sobre todos nós tem dupla fonte: uma universal, que são os confrontos entre países específicos, e outra que atinge os indivíduos entre si.

No Brasil, o desassossego generalizado é causado não só pela criminalidade, como também pela crescente desarmonia reinante no relacionamento interpessoal e entre grupos específicos.

Houve época, e não distante, em que imperavam a cordialidade, a paciência, a bonomia nas relações. Estas, hoje, são marcadas, em regra, por interesses individuais, vendo-se o outro como instrumento para o alcance de objetivos próprios. A solidariedade, o afeto e a amizade estão rareando.

A barbárie praticada nos lares ou fora deles, entre parentes e amigos, é estarrecedora. As agressões contra as mulheres; as que atingem as crianças; os assédios sexuais praticados em todas as camadas sociais; os parricídios e filicídios; os homicídios por motivações banais ou até sem nenhuma motivação mostram que a humanidade está perdendo o humanismo, vale dizer, o amor pelo próximo.

O individualismo, a cobiça, o protagonismo social e político, a perda do senso do bem comum estão afastando o homem do homem, e ele está ficando distante do Estado. Este não o protege como cidadão e o abandona à própria sorte. Deixa os desvalidos e a coletividade sofrerem os percalços impostos por uma série de circunstâncias, desde as impostas pela natureza até as sociais, provocadas pela negligência estatal.

Os integrantes dos Três Poderes não enxergam acima dos seus umbigos. Esquecem-se de que a razão primeira da organização do Estado é o cidadão a quem devem servir. O Poder Judiciário é um exemplo elucidativo dessa incúria. Cada vez mais, afasta-se do jurisdicionado, que é o motivo da sua existência.

Em face deste quadro, impressionou-me uma entrevista recente a O Estado de S. Paulo dada pelo cientista brasileiro Marcelo Gleiser sobre o lançamento de um novo livro, intitulado Mentes Brilhantes Não Pensam Igual, e sobre a sua atividade intelectual.

Nascido no Rio de Janeiro, Gleiser hoje reside nos Estados Unidos, onde dá aulas de Física e Astronomia. Em 2019, foi o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Templeton, concedido a quem contribui para o diálogo entre ciência e espiritualidade.

A sua trajetória intelectual é marcada pela pregação da imperiosa necessidade de haver diálogo entre os contrários, e não um monocórdio e infrutífero silêncio, dando a falsa impressão de uma concordância ou submissão ao outro.

Os focos da entrevista foram o citado novo livro e seu interessante empreendimento cultural voltado para a criação de diálogos entre contrários. Gleiser criou um instituto para a promoção dessas conversas, marcadas por uma “divergência civilizada”. Denominou-o de “Ilha do Conhecimento”, com encontros para debates e discussões entre portadores de ideias divergentes. Segundo ele, precisamos resgatar a nossa humanidade e evitar a “visão monolítica da realidade”.

A abordagem sobre generosidade emocional, indispensável para os diálogos entre os opostos, impressionou-me. Para ele, devemos nos colocar no lugar do outro. Respeitá-lo, pois ele também tem uma história de vida, uma trajetória que o levou a pensar de forma diversa. Encerra essa parte afirmando que, “antes de se bater a cabeça, é importante lembrar que todo mundo quer ser amado, quer viver com dignidade, quer ser respeitado”.

Todo o seu trabalho é uma conclamação à tolerância, à compreensão e à generosidade entre aqueles que divergem. Esse desiderato, se aplicado às relações entre nações e no âmbito pessoal, serviria de instrumento para o encontro da harmonia, com a diminuição das divergências internacionais e internas que hoje levam à incompreensível intolerância e à violência entre nações e pessoas.

É claro que ramos do conhecimento como a Psicologia, a Psiquiatria e a Sociologia exploram o interior do homem e as suas relações com o mundo exterior. No entanto, Marcelo Gleiser, com um enfoque que vai da inteligência artificial à imortalidade, passando pela análise da fé, do tempo, da realidade, apresenta uma abordagem – pelo menos por mim desconhecida – da adoção de medidas teóricas e práticas para, no plano dos debates de ideias, colocar na mesma arena os contrários, não para se enfrentarem, e sim para que encontrem a harmonia dentro da divergência.

Já há no campo da elisão dos conflitos de interesses um amplo movimento de mediação e conciliação. Trata-se de caminhos que evitam a ida dos contendores ao Judiciário. As divergências giram em torno de patrimônio, família, propriedade, liberdade, direitos trabalhistas, basicamente em torno da aplicação da lei. Busca-se a solução dos conflitos por meio do entendimento entre as partes. O que Marcelo Gleiser prega é a pacificação entre os que pensam diferente, independentemente de interesses materiais de quaisquer naturezas.

Veio-me à mente, após a leitura da entrevista, que os ensinamentos de Marcelo Gleiser poderiam ser aplicados nas relações sociais. A restauração da tolerância e da paz individuais por meio de apelos verbais ou escritos pode parecer uma utopia. Mesmo que seja, necessitamos do querer utópico para atingirmos um sonho e, deste, chegarmos à realidade.

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__*Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado criminalista, da Advocacia Mariz de Oliveira. Mestre em Direito Processual pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Conselheiro no Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), membro da Comissão de Direito Penal do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) e atuou como Secretário de Justiça e Secretário de Segurança Pública de São Paulo nos anos 1990. Foi presidente da AASP e da OAB-SP por duas gestões. 

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