Placa com bandeirinha. Por José Horta Manzano
…O senador Amin elaborou um projeto de lei que pede que se dê marcha à ré nas normas das placas de automóveis, embora estejam já em uso há anos e tenham entrado na rotina de todos. O projeto de lei prevê que se reintroduza o que foi banido há anos, ou seja, a menção do município e do estado, assim como a bandeirinha do estado.

Décadas atrás, uma resolução comum dos Estados do Mercosul estabeleceu a implantação das placas de automóvel ditas “Placas Mercosul”, uniformizadas para todos os países participantes, com formato idêntico e a menção da nação em caracteres pequenos.
De fato, os meios eletrônicos atuais dispensam a presença do guarda escondido à beira da estrada anotando num caderninho o número da placa dos infratores. Os radares, sozinhos, dão conta do recado. E já enviam os dados para uma central de processamento, mais rápido do que o guarda levaria pra chegar lá, mesmo viajando a 200 km/h montado em sua moto BMW.
No começo, houve muita reclamação, principalmente dos cidadãos simpatizantes da direita na política. É que sentiam arrepios só de pensar que estariam se dobrando a exigências do venezuelano Chávez, do argentino Kirchner e de outros detestáveis ‘comunistas’. Os cães ladraram, mas a caravana passou. A placa modelo Mercosul foi adotada nos países membros do agrupamento.
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O senhor Esperidião Amin, senador por Santa Catarina, completará 79 anos este ano. De espírito bastante conservador, está na política desde bem jovem. Começou a carreira na Arena, partido oficial de apoio aos militares da ditadura. Dessa agremiação, por assim dizer, ele nunca saiu. Quem mudou de nome foi o partido, que se tornou PDS, depois PPR e por fim PP. Curiosidade: é o partido de Paulo Maluf, senador cassado.
O senador Amin elaborou um projeto de lei que pede que se dê marcha à ré nas normas das placas de automóveis, embora estejam já em uso há anos e tenham entrado na rotina de todos. O projeto de lei prevê que se reintroduza o que foi banido há anos, ou seja, a menção do município e do estado, assim como a bandeirinha do estado.
O senador e o relator do projeto de lei argumentam que essa informação nas placas ajuda a polícia e as autoridades a “identificar com facilidade a origem de um veículo infrator”. Ora, não se tem notícia de que os modernos radares e aparelhos de identificação de placas tenham tido algum tipo de dificuldade em “identificar veículos infratores”.
Argumentam também que “a iniciativa resgatará o significado cultural e identitário das placas, reforçando o senso de pertencimento à região e o orgulho local e facilitando a percepção pelos locais quando se tratar de veículos ‘de fora’.”
Ora, essa ideia está de ponta-cabeça. A supressão de toda menção à origem do carro (e do motorista) foi pensada justamente para apagar essa impressão de que o veículo é “de fora”.
O desconhecimento da origem do carro evita discriminações no tráfego. Previne agressões suscitadas pela antipatia que alguém possa sentir por esta ou aquela origem. Evita furtos e roubos perpetrados por maus elementos sempre atentos a turistas desavisados. No grau elevado de polarização que atualmente vivemos, a não menção da origem do carro é um salvo conduto; sabendo-se que determinados estados têm simpatia pela esquerda (ou pela direita), os turistas poderão viajar tranquilos fora de sua região.
No ar, fica a questão: Por que razão o senador anseia por uma volta ao passado no sistema de emplacamento de veículos? Quando se pensa que o trabalho de um senador há de ser muito mais elevado que a mera preocupação com bandeirinhas nas placas, uma dúvida logo surge: seria o nobre parlamentar sócio de uma firma fabricante de placas veiculares?
Não, não acredito. Não se deve enxergar o diabo por toda parte. Cá pra mim, a razão é bem mais prosaica. Extremamente conservador, se é que me entendem, o senador, que é catarinense, apoia o antigo presidente Bolsonaro, hoje preso.
Fazendo coro à doutrina de seus companheiros, que separam a população entre “cidadãos de bem” (como ele, naturalmente) e “cidadãos de baixo” (os demais), gostaria de identificar forasteiros intrusos que, cobertos pelo anonimato de uma Placa Mercosul, ousam adentrar seu estado natal.
Se pudesse, talvez instalasse uma aduana nas divisas de seu estado a fim de impedir a entrada desses indesejados que vêm macular o que ele supõe ser a pureza de sua civilização.
Nossos sonolentos senadores já aprovaram o projeto de lei. Ele continua seguindo seu caminho. Qualquer dia, virá a notícia nas manchetes. Aí, será tarde demais.
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JOSÉ HORTA MANZANO – Escritor, analista e cronista. Mantém o blog Brasil de Longe. Analisa as coisas de nosso país em diversos ângulos, dependendo da inspiração do momento; pode tratar de política, línguas, história, música, geografia, atualidade e notícias do dia a dia. Colabora no caderno Opinião, do Correio Braziliense. Vive na Suíça, e há 45 anos mora no continente europeu. A comparação entre os fatos de lá e os daqui é uma de suas especialidades.
