BRASIL GRINGOS

Los Panchos.

Um Brasil para gringos. Por Antonio Contente

… eu dizia, o gringo me recebeu na porta da mansão e garantiu que a festa seria ótima, acentuando, imediatamente, a presença de muitas “señoritas” e “muchachos”. Como o cara era realmente simpático e estava animadíssimo, fiquei olhando os passos desajeitados que ele dava…

María Antonieta Pons
Maria Antonieta Pons

          Se existem poucos acontecimentos a nos remeter ao estranho universo do incrível, um deles são as festas que os americanos, à guisa de comemorar ou talvez enaltecer o Brasil, fazem de vez em quando. Só que o nosso país que pinta em tais acontecimentos é algo que apenas olhos de gringos enxergam, olhos estes que têm verdadeira obsessão pelo exótico. Daí que acabam criando enredos com coisas que só existem na imaginação deles; mas que propagam como se fossem grandes verdades.

         Não faz muito, por exemplo, fiquei sabendo, pelos jornais, que estava sendo organizado, em Nova York, um negócio chamado “Carnaval Stravaganzza: Trinindad-Tobago Meets Brazil”. Não tenham dúvidas em colocar extravagâncias nisso, com o incrível a pastorear a nossa incredulidade.

         Aliás, acabou sendo numa dessas festas, na mesma cidade de Nova York que vivi, em dias do século passado, uma experiência e tanto. A zueira se chamava “Samba in Copacabana” e recebeu, como sempre acontece, uma pá de gente aqui da terrinha, desde os costumeiros ricaços e starlets até mesmo alguns artistas que não deixavam de ter algum talento e que gostam de aproveitar bocas livres.

         Pois eu cheguei lá como jornalista convidado para a cobertura, tudo acontecia num casarão imenso. Ainda na porta fui saudado por robusto americano que abriu um riso de 138 dentes para me cumprimentar na base do “welcome, amigo”.

         Não sei se vocês já repararam, mas o pessoal acima do rio Grande adora pronunciar palavras latinas, e o “amigo”, dito por eles, tem um sabor muito mais especial do que o da famosa música de Roberto Carlos, tão pichada por muitos mas que, ao fim e ao cabo, até que acho legal. “Pizza”, por exemplo. Vocês já repararam como os americanos adoram pronunciar essa palavra? E se o que há a dizer tem um pouco mais de vocábulos, como “galeto al primo canto”, aí está situação que leva os irmãos do norte a um quase orgasmo.

         Mas, eu dizia, o gringo me recebeu na porta da mansão e garantiu que a festa seria ótima, acentuando, imediatamente, a presença de muitas “señoritas” e “muchachos”. Como o cara era realmente simpático e estava animadíssimo, fiquei olhando os passos desajeitados que ele dava. Isso enquanto pintou, vindo de dentro da festa, sons de atabaques. O que fez o sujeito erguer os braços, a bradar:

         — Samba! Wonderful! Voodoo!

         Agora, o negócio começou a esquentar mesmo no instante em que pintaram as primeiras castanholas. Até porque, logo depois, um grupo de crioulos seminus, batendo uns negócios parecidos com tambores, conseguiu fazer a mistura mais estranha que já ouvi de marcha militar com flamenco e pontos de macumba.

         Finalmente, sentado numa grande mesa sobre gramado no qual havia também majestosa piscina, me vi na companhia de uma então famosa colunista social de São Paulo, entre outras pessoas. Foi quando de repente observei, com estes olhos que a terra não há se comer, a entrada, triunfal, de uma rumbeira. Por um momento, por um instante, tive certeza de que, viajando em alguma incrível máquina do tempo, acabara de pousar sobre o tablado a maravilhosa Maria Antonieta Pons, que atuou em algumas memoráveis, esplêndidas chanchadas dos velhos e luminosos tempos da Atlântida.

         — Samba, amigo, samba! – Nesse instante retorna o enorme americano que tinha me recebido à porta com seus cento e trinta e tantos dentes.

         No palco a dançarina exibe uns estranhos passos e, numa outra, começo a ter a impressão de que, do fundo do terrenão vinham os acordes da “Aquarela do Brasil”.

         — Voodoo!!! – Berra o gringo ao meu ouvido, atracado a uma dose enorme de Bourbon.

         No mesmo minuto muda o som, desaparece a Maria Antonieta Pons, e entra um trio bastante parecido com o Los Panchos. Mais atrás um grupo de pelo menos uns seis mariachis cerca o conjunto, quando então sopro para a cronista social que estava na mesa:

         — No mínimo eles vão tocar “La Paloma”…

         No que acabo de falar, porém, pinta a surpresa, pois somos tomados pela melodia, total e absoluta, de “A Garota de Ipanema”. No instante em que termina, não havia mais dúvidas de que a orquestra começara a atacar de “Aquarela do Brasil”. Isso enquanto o tal gringo, completamente de fogo, volta a surgir trazendo, numa das mãos, o mesmo copo pleno de Bourbon; e, na outra, um indesmentível sombrero que colocou na minha cabeça.

         — Samba! Rio de Janeiro! – Torna a berrar.

         Foi neste instante que, impulsionado por um belo scotch, também levantei. Pegando rapidamente duas maracas, berro:

         —Voodoo!

         — Samba, samba! – Gesticulava o gringo.

         A orquestra, agora, atacava de “Cielito Lindo”. E até hoje, passados algo como quarenta anos e lá vai fumaça, ainda faço esforço para descobrir o que aquilo tudo tinha a ver com o Brasil.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

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