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As pinturas da suavidade. Por Antonio Contente

Pinturas…pela primeira vez, me debrucei na janela à noite. Pois então vi que a excelência do horizonte distante que o sol comumente mostrava, era substituída por outra cena talvez mais plena do contorno irreal que o real propicia. Revelado pela suavidade da luz da lua, a me dar a impressão de que poderia tocar com as pontas dos dedos o que estava diante dos meus olhos.

Lua-Luar – Cora Coralina | Poesias Preferidas

Na abertura do seu livro “Contos do Nascer da Terra” o escritor moçambicano Mia Couto, num pequeno texto que é quase um pré-prefácio, lembra que não é da luz do sol que mais precisamos. Acentua que mesmo estando a nos iluminar faz tanto tempo, nem por isso o chamado “astro rei” nos ensina a ver. Daí que, na opinião do famoso autor, o mundo precisa ser visto à luz do luar. Que, clareando com mais suavidade, melhor revela as intimidades das nuances de belezas deste nosso planeta.

Ora, amigos, sempre foi inegável que luares não chegam só para revelações; chegam, principalmente, para a devolução. De umas tantas coisas presas em nossos corações à espera daquele instante de suavidade para emergir. As descobertas, quando o mundo está envolvido por aquilo que os poetas antigos chamavam de plenilúnio, são o melhor exemplo disso.

 Lembro de uma janela na qual pousava meus braços, faz muitos anos, no bairro da Cidade Velha na mui heroica e amada Belém do Pará dos meus tempos de movimentações corporais mais ágeis.  O peitoril ficava numa espécie de sótão, era alto. De dia o que me encantava das mostras que sua abertura permitia, era o passar do rio, da Baía de Guajará, com as tantas silhuetas de matas na linha do horizonte. Os menos avisados até poderiam pensar que aquilo era a margem oposta. Ledo engano, porém, pois se tratava, apenas, de ilhas. Uma ao lado da outra formando, para quem as via de longe, um paredão. Que, nas manhãs, batidas pela luz do sol, pareciam simplesmente navegar pelo universo líquido. Sobre o qual, de chamamento maior às razões de beleza, sobressaia o grasnar das gaivotas. A depositar, nos rastros dos voos tão belos no planar ao vento, o mais tocante do significado da vida.

Mas a revelação, que foi uma espécie de devolução que a vida me proporcionou foi quando, pela primeira vez, me debrucei na janela à noite. Pois então vi que a excelência do horizonte distante que o sol comumente mostrava, era substituída por outra cena talvez mais plena do contorno irreal que o real propicia. Revelado pela suavidade da luz da lua, a me dar a impressão de que poderia tocar com as pontas dos dedos o que estava diante dos meus olhos. O lado lindo do real é tanto maior quanto mais nos leva à indagação de como aquilo é possível. Telhados; no primeiro plano apenas telhados antigos, muitos mais antigos do que os tempos e as chuvas que por eles escorreram; e, no entanto, tão novos pela súbita oferta do atemporal da beleza. As telhas, batidas pelo luar, formatavam pequenos vales prateados, que se abriam nas laterais em planícies da mesma cor. A brancura da luz sobre o negro dos musgos que muitos pingos de umidades esculpiram, permitia a impressão de que um jardim estava a brotar no vinco branco das calhas tomadas por plantinhas adolescentes; tudo diante da contenção das paredes distantes. Simplesmente, plenas maravilhas que a luz do sol sempre escondeu…

Não posso deixar de pensar, também, na brancura dos luares com tonalidades de prata sobre o alvo ondular das dunas. As praias talvez sejam criação dos deuses para o sol, mas nas dunas é que se abre a partitura para as sonatas; como aquela que Ludwig escreveu quando o coração é que via o que não estava diante dos seus olhos.

Por fim, aqui no tugúrio onde nestes tempos medonhos guardo meus medos, quando o escuro começou a entrar pela janela, ontem, eu a fechei, pois veio acompanhado de vento frio,  gelado. Depois, passei a reler “Olho de Boto”, um dos mais instigantes livros do grande escritor paraense Salomão Laredo, no qual é contada a história do casamento entre dois homens, celebrado no interior do Pará profundo com pompa e circunstância, numa época em que as ligações homoafetivas eram apenas pecados. Percebo, então, ao virar uma página, luz tênue como a querer passar num vão da persiana. Levanto, abro a janela e dou de cara, esparramado sobre as heras do muro e os galhos férteis da goiabeira no jardim ao lado da garagem, com um derramado luar. Lembro então do que disse Mia Couto, e vou olhar a rua. Era outra, com as sibipirunas banhadas pela luz tênue que parecia se mover como se estivesse sendo levada pela brisa. Perpassava, pelo ar, o aroma de algo antigo, como se fosse a ressurreição de todos os sonhos adormecidos.

Dou a volta e busco o quintal. Aquilo sempre ali, santo Deus, e há quanto tempo eu não via! Em cada pétala das rosas pequeninas, o mínimo traço luminoso do meigo, do macio, a se derramar também pelo chão. Sento num pequeno banco junto do canteiro e só então olho para o alto. Lá estava ela sim, íntegra na sua plenitude de intimidades com o infinito. Penso, de repente, novamente, numa praia. Aquela mesma onde as pessoas se deitam para crestar os corpos em busca da beleza efêmera. E acabo redescobrindo que enquanto o sol muda a cor da nossa pele, queimando-a, posta sob o luar o que se tem é apenas a alma tomada pelo verdadeiro significado das carícias da luz. E dos sonhos…

PINTURAS

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Antonio ContenteANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 


 

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