O engano. Por Lula Vieira
Ao desembarcar, Pedro Paulo viu seu nome escrito num cartaz nas mãos de um inglês vestido a caráter, de impermeável e tudo, com tremenda cara de agente de turismo. Ou de membro do Serviço Secreto.

Parece coisa de ficção, digna de John Le Carré ou Frederick Forsyth. Mas foi verdade e tem gente que soube da história e pode atestar. Aconteceu com um grande amigo meu, Diretor da Thompson da Espanha, chamado Pedro Paulo de La Peña, de quando foi a Londres participar de uma reunião com a De Beers.
O caso se deu em fins dos anos setenta. Eram tempos mais amenos embora ainda se falasse em Guerra Fria. A Rússia ainda era uma potência e o comunismo uma ameaça real ao chamado “mundo livre”. Os serviços secretos jogavam seus jogos de guerra, havia espionagem e uma preocupação com o terrorismo e a segurança interna, mas nada que possa se comparar à histeria dos dias de hoje.
Pois bem, como a tal reunião seria no meio da tarde Pedro Paulo, marcou um almoço comigo e marcou voo para as 9 da manhã. Daria tranquilamente para chegar a tempo de deixar a mala no hotel e seguir para o restaurante. Ao desembarcar, Pedro Paulo viu seu nome escrito num cartaz nas mãos de um inglês vestido a caráter, de impermeável e tudo, com tremenda cara de agente de turismo. Ou de membro do Serviço Secreto.
Ainda que tivesse estranhado, pois não era normal nem a Thompson nem a De Beers oferecerem estas mordomias, apresentou-se ao cavalheiro e confirmou seu nome. Pedro Paulo de La Peña, sim, da Espanha. Soube, com surpresa ainda maior, que havia uma limusine à sua espera. E mais: a bagagem já tinha sido retirada e os trâmites alfandegários resolvidos.
Foi encaminhado, com toda gentileza, para uma enorme Mercedes estacionada num local proibido, logo à porta do aeroporto. Dentro do carro, além do motorista, dois elegantes seguranças. Pedro Paulo tentou perguntar porque razão mereceu tanta frescura. Responderam que eram ordens. (“De quem?” “De cima”).
Pedro perguntou por mim, se eu já tinha chegado. “Não sabemos” – foi a resposta. E o carro disparou pelas estradas. Ao chegar numa bifurcação, em vez de rumar para a City seguiu para os subúrbios. Daí Pedro Paulo começou a se apavorar. Passou a perguntar aos gritos para onde estavam indo e recebeu respostas evasivas: “Estamos cumprindo ordens”.
Compreensivelmente entrou no mais definitivo pânico. “Parem esta merda!” “Quero descer!” “Socorro!” “Caralhoooo!” Diante do esporro, um dos seguranças resolveu tomar alguma providência. Mandou o motorista parar na beira da estrada e examinou novamente os documentos do Pedro. Olhou, olhou, e disse no mais autêntico inglês algo como Putaqueopariu!
Desceu, expulsou Pedro Paulo do carro, jogou a mala na estrada, e disparou pelo caminho de volta. Aliviado por estar vivo, Pedro Paulo levou uns dois minutos para se descobrir muito puto da vida. Andou vários quilômetros num frio de rachar até encontrar um táxi. Imagine seu humor ao aparecer com quatro horas de atraso, morto de fome e cansaço, além do susto. Até hoje ninguém sabe com quem Pedro foi confundido, nem quem eram as pessoas que estavam no carro.
A única vingança dele foi imaginar que havia um outro espanhol mais puto ainda esperando um carro buscá-lo no aeroporto de Londres.
– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
