PÃO E CIRCO

Em tempos de Copa, a bola parece suspender o país. As conversas, as notícias, os bares, as famílias, os programas de televisão e as redes sociais passam a girar em torno dos jogos, das escalações, dos gols, das derrotas, das vitórias, dos memes e das apostas. Foi essa imagem que me levou de volta à antiga expressão romana: “pão e circo”.

PANEM ET CIRCENSES - Folha Gastronômica - Folha PE

Este artigo nasceu da proximidade da Copa Mundial de Futebol de 2026. Não contra a Copa, nem contra o futebol, que é festa legítima, alegria popular e encontro entre povos, mas pela inquietação diante da força dos grandes espetáculos sobre a atenção coletiva. Em tempos de Copa, a bola parece suspender o país. As conversas, as notícias, os bares, as famílias, os programas de televisão e as redes sociais passam a girar em torno dos jogos, das escalações, dos gols, das derrotas, das vitórias, dos memes e das apostas. Foi essa imagem que me levou de volta à antiga expressão romana: “pão e circo”.

A expressão vem do latim panem et circenses e é atribuída ao poeta Juvenal, que criticava a facilidade com que um povo podia trocar a liberdade por alimento e diversão. O pão acalmava a fome. O circo prendia os olhos. E a consciência, devagar, ia adormecendo. Na Roma antiga, o espetáculo acontecia nas arenas. Hoje, cabe na palma da mão. Está no celular, nos vídeos curtos, nas polêmicas passageiras, nos escândalos de poucas horas e nas notícias que mal chegam a ser pensadas. Com a inteligência artificial e os algoritmos, esse circo moderno tornou-se ainda mais refinado. As máquinas aprendem nossos gostos, irritações, medos e fraquezas. Sabem o que nos prende, nos comove, nos revolta e nos faz continuar olhando a tela. Assim, confundimos excesso de informação com conhecimento, agitação com participação e distração com liberdade.

O problema, portanto, não é a Copa. O perigo começa quando o espetáculo deixa de ser descanso e passa a ser anestesia. Quando ocupa tanto espaço que quase não sobra lugar para pensar no país real, aquele que continua existindo depois do apito final: o país da escola precária, da saúde insuficiente, da violência cotidiana, da pobreza, da injustiça e do abandono. Juvenal não condenava o pão nem o circo; advertia contra a manipulação de um povo satisfeito o bastante para não perguntar e distraído o suficiente para não reagir. Uma nação precisa de comida, descanso, esporte, festa e alegria. Mas precisa também de educação, dignidade, pensamento crítico e participação. O pão sustenta o corpo. O futebol alegra a alma. A tela ocupa o tempo.

Mas só a consciência sustenta uma nação livre.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

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