De virada é mais gostoso. Coluna Mário Marinho

De virada é mais gostoso

COLUNA MÁRIO MARINHO

A primeira vez que ouvi a frase do título acima, foi na possante voz do excelente narrador Osvaldo Maciel, de São Paulo.

Chegar à vitória revertendo um quadro negativo é sempre muito gratificante. Por isso, de virada é mesmo mais gostoso. E há na frase uma certa segunda intenção, um pouquinho de tempero, de maldade.

Na 24ª rodada do Brasileirão, disputada neste fim de tivemos algumas vitórias de virada.

Em Salvador, o Vitória saiu na frente com um gol de Zé Love, jogador que já fez razoável sucesso no Santos há alguns anos.

Mas o Flamengo não se deixou abater. Fernandinho empatou ainda aos 44 minutos do primeiro tempo e Gabriel fez o gol da vitória aos 14 do segundo. Assim, o Flamengo segue colado no líder Palmeiras com apenas um ponto de diferença, enquanto o Vitória continua na zona de rebaixamento.

Outra virada muito legal foi do Santos em cima do Corinthians. O clássico, na Vila Belmiro, teve a presença de apenas oito mil torcedores, metade da capacidade da Vila. O Corinthians jogou bem no primeiro tempo e fez 1 a 0 com Marlone, um belo gol em tabelinha com Rodriguinho.

Mesmo sem Lucas Lima, Ricardo Oliveira e o lateral Vitor Ferraz, todos titulares, o Santos virou para 2 a 1.

O gol da vitória foi de Renato, certamente o jogador mais regular de todo o time do Santos. Não tem o brilho de um Lucas Lima ou do Gabigol, mas é jogador de rara eficiência.

Por fim, a grande virada da rodada: Sport 5 x Santa Cruz 3 – jogo de oito gols, sendo que sete deles no segundo tempo.

O Santa Cruz tomou a iniciativa do jogo e aos 6 mintos fez 1 a 0, gol de Keno.

Vencendo por 1 a 0, o Santinha cometeu o pecado mortal do futebol: recuou e se contentou apenas em se defender.

O Sport gostou do jogo e partiu para cima do adversário. Nos 10 úlitmos minutos do primeiro tempo, criou três chances incríveis de gols que só não se concretizaram graças às defesas espetaculares do goleiro Tiago Cardoso.

As broncas do técnico Dorival, no vestiário, deram certo pois o Santa voltou com apetite e aos 6 minutos fez 2 a 0, gol de João Paulo. O mesmo João Paulo ainda mandaria uma bola na trave do Sport, tornando o jogo ainda mais eletrizante.

Porém, 2 minutos depois, Diego Souza cobrou falta na cabeça do zagueiro Durval: 2 a 1. E aos 24, Rodney Wallace deixa a torcida rubronegra em festa ao empatar: 2 a 2.

A loucura no estádio da Ilha do Retiro continuou.

Apenas 2 minutos após o empate, Bruno Moraes recebe de Keno e coloca o Santinha mais uma vez na frente: 3 a 2.

Não demorou para o Sport responder: Ruiz, de cabeça, 3 a 3.

O clássico quente acabou provocando as expulsões de Diego Souza e Derley.

Empate e jogo de seis gols pareciam estar de bom tamanho. Mas não para o Sport. Vinicius marcou o 4º gol e Everton Felipe, já nos acréscimos, fez o uinto e último: 5 a 3.

Jogo para ficar na história.

Veja os gols:

O maior vira-vira
de todos os tempos

Pelé aos 17
Pelé aos 17

Era um jogo sem maiores pretensões.

Uma quarta-feira à noite, no Pacaembu, no dia 6 de março de 1958.

Valia pelo Rio-São Paulo, torneio de muito prestígio na época, porém não era jogo decisivo.

De um lado, este time: Edgar (Vitor), Edson e Dema; Waldemar Carabina, Valdemar Fiúme e Formiga (Maurinho); Paulinho, Nardo (Caraballo), Mazzolla, Ivan e Urias. Esse era o Palmeiras dirigido por Osvaldo Brandão.

Do outro, este: Manga, Hélvio e Dalmo; Fioti, Ramiro (Urubatão) e Zito; Dorval, Jair, Pagão (Afonsinho), Pelé e Pepe.

O grande Santos dirigido pelo técnico Lula.

Estávamos no mês de março. Cerca de um mês depois, no dia 21 de abril, o Brasil venceria o Peru, no Maracanã, 1 a 0, com o célebre gol de folha seca de Didi, e se classificaria para a Copa da Suécia que seria disputada em julho.

Talvez, a vontade de estar naquela seleção que iria à Copa do Mundo explique o que aconteceu com o jogo a seguir.

O ponta-esquerda Urias (que na verdade se chamava Orias Alvez de Sousa e só vestiu a camisa do Palmeiras em seis jogos) marcou o primeiro gol aos 18 minutos.

Três minutos depois, um crioulinho esperto chamado Pelé, de apenas 17 anos, empatou: 1 a 1. Quaro minutos depois, o excelente e habilidoso centroavante Pagão colocou o Santos na frente: 2 a 1.

Passou-se apenas um minuto e, portanto, aos 26, Nardo empatou para o Palmeiras. Nardo foi um atacante perigoso que conseguiu o feito de jogar no Corinthians e em seguida no Palmeiras, nos anos 50-60. Nardo nasceu em 1930 e morreu em 2010. Jogou também na Portuguesa de Desportos e no Juventus, de Turim.

Mas, aos 32 minutos, o excelente ponta-direita do Santos, Dorval, colocou seu time na frente: 3 a 2.

Ainda havia mais: Pepe, aos 38, e Pagão, aos 46, decretaram a goleada do primeiro tempo de 5 a 2.

No vestiário do Santos, um eufórico Zito gritava com os companheiros: “Vamos arrebentar o Palmeiras. É hoje!”

No vestiário do Palmeiras, o goleiro Edgar entrou em crise. Edgar, que na verdade se chama José Silvério de Souza, foi revelado para o futebol profissional pelo América mineiro. Jogou no Botafogo, voltou ao América onde foi campeão mineiro em 1957 e no ano seguinte negociado com o Palmeiras.

Edgar teve uma crise nervosa e se recusou a voltar a campo no segundo tempo. O técnico Osvaldo Brandão entendeu a situação do goleiro e colocou Vitor em seu lugar.

Logo aos 16 minutos de jogo, Paulinho marca o terceiro gol do Palmeiras: 3 a 5. Mazzola, aos 19 e aos 27, e Urias aos 34 fazem o que parecia impossível: Palmeiras 6 x Santos 5.

Mas, o jogo ainda não havia acabado.

Aos 38, Pepe empatou: 6 a 6. E o mais incrível: três minutos depois o mesmo Pepe marcaria novamente: Santos 7, Palmeiras 6.

Foi noticiado na época que cinco pessoas morreram durante o jogo de ataque cardíaco.

Não há provas de que o fato tenha sido religiosamente verdadeiro.

Porém como ensinou John Ford em “O homem que matou o facínora”, faroeste de 1961 com John Wayne e James Stewart, “Quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda”

Veja reportagem sobre o jogo exibida pelo Esporte Espetacular da TV Globo.

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FOTO SOFIA MARINHO

Mario Marinho É jornalista. Especializado em jornalismo esportivo foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, nas rádios 9 de Julho, Atual e Capital. Foi duas vezes presidente da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo). Também é escritor. Tem publicados Velórios Inusitados e O Padre e a Partilha, além de participação em livros do setor esportivo

A COLUNA MÁRIO MARINHO É PUBLICADA TODAS AS SEGUNDAS E QUINTAS AQUI NO CHUMBO GORDO.

(E SEMPRE QUE TIVER NOVIDADE OU COISA BOA DE COMENTAR. )

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