O santo dos telhados. Por Antonio Contente
O santo…Lembro de uma tarde, acho que nos anos setenta do século passado, em que, entrando com ele na igreja construída em mil seiscentos e qualquer coisa, me admirei com a beleza de um púlpito esculpido em mármore com algumas incrustações em mogno.
Mais do que água, é a essência do tempo que escorre sobre os telados antigos. Há em torno deles o solene silêncio que ficou marcado nas coberturas que perderam a cor sob incontáveis sóis e, em cada beiral, se renovam as marcas da contenção dos voos dos pássaros que chegam; e a liberdade dos que partem no rumo das ilhas. Vistos do alto, há nas coberturas uma simetria no assimétrico de cada uma para a oferenda das chuvas. E se fincaram na paisagem há tantas luas, como se tivessem nascido ali, brotados da própria terra por terem sido semeados. Grãos mágicos espalhados por mãos milagrosas.
Pairam bem acima de tudo, nas noites de luar intenso, os dois torreões da igreja barroca que se mantém de pé escorada pelos pulsos dos anjos. Nas frestas, nas rachaduras entre os capitéis, vicejam tufos de vegetação. Chegaram ao alto levados pelos passarinhos, talvez pelos bicos das gaivotas que se postam para observar a corrente do rio que busca o mar, ou, ainda, quem sabe, simplesmente pelos ventos, tão densos nas horas em que a maré sobe. Afinal, são sopros que passam antes pela floresta, que removem das samaumeiras os flocos de neve que contêm o sêmen da vida, que passam por acácias das quais pendem pepitas de ouro, e também sobre hibiscos que roubaram o vermelho das auroras.
Este é o cenário; agora, entra nele o personagem. Na primeira vez em que o vi, num tempo de horas plácidas, pensei que fosse um fantasma. Acompanhei seus passos entre as pequenas alamedas do jardim cercados de sacadas que viram o nascer de mais de três séculos. Era de madrugada e o homem, com uma tesoura de jardineiro na mão, parava junto das plantas para a poda, com carinho e método. Por instantes tive a impressão — mais do que acariciar folhas e flores, falava com elas. E, diante de um tronco esbelto, alto, apontava para cima, como se recomendasse aos galhos que deveriam proteger, com redobrado empenho, os ninhos dos sabiás, esta maravilhosa síntese do que seja conter melodias. Cinco horas da manhã, a primeira luz ainda nem navegou pela calha do rio, e eles já cantam. O que só fazem novamente, com intensidade, ao entardecer. Não, a gente quase nunca os vê; mas, uma tarde, vi. Pousado, solenemente, acima de um beiral. E cantou para mim, certamente por me ter confundido com algum santo. Não pela inexistente aura de ausência de pecados. Mas pela barba que me dá essa feição de apóstolo em férias. Sim, mas eu falava do personagem que entrou no cenário. Frei Haroldo da Beira. Nunca soube, até porque nunca perguntei, se o sobrenome se referia às barrancas do rio Tocantins. Ou à região de Portugal onde o sacerdote nasceu, e que é, também, o chão dos meus antepassados.
Nunca, durante muito tempo, deixei de estar com frei Haroldo pelo menos uma vez por ano, ocasionalmente mais. Afinal, cada um dos telhados que me encantam tanto, cada uma das paredes que resistem às umidades de incontáveis invernos (a estação das chuvas na Amazônia Profunda), cada folha, cada flor do verdadeiro Jardim do Éden que vicejava nos fundos da igreja, cada cantar dos sabiás que trazem nos bicos o milagre das manhãs, cada coisa linda que existe ali, não existiria se não fosse o empenho e o amor do nosso frade. Lembro de uma tarde, acho que nos anos setenta do século passado, em que, entrando com ele na igreja construída em mil seiscentos e qualquer coisa, me admirei com a beleza de um púlpito esculpido em mármore com algumas incrustações em mogno.
— Desse eu cuido de modo especial – o frei me disse – é meu filho do coração.
Depois explicou que ali, exatamente ali, pregara o padre Antonio Vieira em suas andanças pelo Brasil. Aliás, nosso sacerdote se tornou uma das maiores autoridades na obra do famoso pregador, produziu sobre ele um ensaio primoroso que, infelizmente, só foi publicado em Portugal, pela Universidade de Coimbra. Também escreveu sobre a fauna e a flora da Amazônia tocantina, além de um belo volume contando aquilo que chamou de “Reflexão Musical em Prosa”, sobre o sacro na obra de Bach. Como se não bastasse tocava órgão, piano, flauta e violino. Isso sem falar de ocarina. Santo Deus, quantas pessoas existem, no mundo, que tocam ocarina?
A última vez que estive com frei Haroldo já faz algum tempo, ele entrava nas 94 primaveras, ágil, vital, cuidando do seu mundo barroco. De tarde, tomando um bom refresco de tucumã na franciscana casinho dos fundos da matriz, onde morava, ouvimos Mozart, Albinoni e Corelli.
Assim foi que, meses depois, mal chegado de Campinas, lá fui em busca do meu frei e seus telhados. Não, não o encontrei, tinha morrido dias antes. Está sepultado no próprio templo que paroquiou, num nicho à direita da nave principal. Parei diante da lápide e fechei os olhos. Pensei que, naquele instante, um sabiá bem que poderia cantar. Eles sabem orar muito melhor do que eu.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
