ACASO - CIRCUNSTÂNCIAS

Acaso ou meras circunstâncias? Por Teresa Montero Otondo

…Ela se chama Rosa. Eu sou Teresa (com s). Ela é espanhola, eu argentina. Ela é jornalista, eu também. Escritora consagrada eu não… Seu sobrenome é Montero (sem i) e o meu também. Ela nasceu no dia 3 de janeiro e eu também. Ela escreve e eu também. Eu sou de 1944 e ela de 1951.

ACASO CIRCUNSTÂNCIAS
A vida tem dessas coisas que não se explicam… acaso ou meras circunstâncias? Um sinal, uma advertência, um aviso…? Que importa!

Ela se chama Rosa. Eu sou Teresa (com s). Ela é espanhola, eu argentina. Ela é jornalista, eu também. Escritora consagrada eu não… Seu sobrenome é Montero (sem i) e o meu também. Ela nasceu no dia 3 de janeiro e eu também. Ela escreve e eu também. Eu sou de 1944 e ela de 1951. Ela escreve sobre suas circunstâncias e eu sobre os livros que constroem as minhas circunstâncias – aqueles que constituem minha desordenada biblioteca e me acompanham pela vida. As coincidências param por aqui, me parece.

A espanhola Rosa Montero esteve em São Paulo para o lançamento do livro “A Louca da Casa”, com tradução de Paloma Vidal e edição da Todavia. É quase uma biografia de sua imaginação em permanente ebulição diria. Rosa fala como escreve. Ou escreve como fala? Mostra sem reparos sua arte e seus dramas com a verve de seu temperamento. E por isso adverte, citando Roland Barthes, que tudo o que escreveu sobre livros e os outros é verdade e verificável… “só não posso assegurar o mesmo sobre aquilo que toca minha própria vida”.

Para ela escrever é vital. “Escrevo porque é minha maneira de viver”, repete. Mas lembra que “toda autobiografia é ficcional e toda ficção é autobiográfica”. Lembra quando seu cérebro “secou”… foram quatro anos de bloqueio sem poder escrever uma palavra sequer… uma sensação de não viver a vida, não poder mais vê-la, não poder sentír a própria vida, afirma. Mas o jornalismo, profissão que exerce desde cedo, forma parte de seu outro eu, o “eu social” do qual eventualmente poderia prescindir, soe afirmar.

Cansada passeio distraidamente os olhos pela minha biblioteca. Alguns livros agora se espalharam e se empilham na mesinha de centro, como que para chamar minha atenção. Claro… ali está a outra Teresa Montero! A autora da monumental biografia literária sobre Clarice Lispector. Recebi indevidamente incontáveis elogios pelo livro. E perguntas sobre o enigmático título…

Teresa Montero, a professora, busca desvendar o enigma que envolve a personalidade criativa de Clarice Lispector. Publicou duas edições diferentes da mesma obra… A primeira em 1999 -“Eu sou uma pergunta: uma biografia de Clarice Lispector”, fruto de sua tese de mestrado e a segunda em 2021, edição revista e ampliada, com 749 páginas e material inédito : à procura da própria coisa Uma biografia de Clarice Lispector..

Duas linhas e dois títulos que revelam, se possível, a complexidade de uma biografia de vida e obra, a pessoa e a escritora – a Clarice, personagem de si mesma, em busca de uma pergunta germinal.
O livro de Teresa Montero se distingue pelo enfoque adotado no campo da pesquisa literária, biográfica, bibliográfica e a busca das perguntas que faltariam para definir, se possível, a peculiaridade de Clarice – seu tempo e lugar enquanto pessoa, autora e personagem de si mesma, em busca da pergunta que falta : a “da própria coisa”.

O trabalho de pesquisa e documentação realizado pela autora desta biografia literária traz à luz documentos inéditos e explora fontes primárias. Teresa também está em busca da pergunta, e foi o que motivou e sustentou tão alentada pesquisa, afirma sua professora e orientadora Rosiska Darcy de Oliveira no artigo “A resposta e a pergunta” do livro de Teresa.


Teresa Montero Otondo – jornalista,  autora de “Rascunhos de Vida – entre livros e escritos”. (Editora Coerência, BP 2024.)

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