O encontro. Por Antonio Contente
… Enquanto esperavam pelo instante propício é natural que navegassem em dúvidas. Ela, por exemplo, chegou a imaginar que, no dia do encontro, a caminho do local, ele pudesse arrebentar algum ossinho do pé em rústica topada, que o levaria para um Pronto Socorro, frustrando o contato…

E foi assim que ele e ela, já antigos pelos caminhos do mundo, concluíram, após alguns breves papos pelas chamadas redes sociais, que deviam se conhecer em carne e osso. Como tudo começara pelo meio de um tórrido verão, acharam que seria melhor, até porque o outono não estava longe, esperar a estação para o primeiro olhos nos olhos. Resolveram que o ideal morava em fim de tarde, num café, cobertos por céu de nuvens baixas; e ventos já quase frios a dobrar esquinas na placidez dos silêncios.
Enquanto esperavam pelo instante propício é natural que navegassem em dúvidas. Ela, por exemplo, chegou a imaginar que, no dia do encontro, a caminho do local, ele pudesse arrebentar algum ossinho do pé em rústica topada, que o levaria para um Pronto Socorro, frustrando o contato. Ele, na sua antiguidade anterior, talvez, ao próprio big-bang, temia que ela, ao ver aquele homem de cabelos mais brancos do que as neves do Kilimanjaro e andar de quem já perdera as agilidades vitais, faltando apenas uma sólida bengala, simplesmente se retraísse; preferindo pegar alguma porta lateral para se esgueirar pelas brumas da hora.
Porém, apesar de tudo, o Outono, afinal, chegou. Isso posto, num dos papos permitidos pelos computadores ele a ela garantiu que estaria, a partir de então, de olhos presos no céu. “Eu espero”, ela respondeu; e os dias acabaram se alongando com a demora de que o tempo e os ventos fossem favoráveis. Mas, lá um dia, ao abrir, manhã cedo, no exato primeiro brilho da aurora na janela da sua casa, o camarada sorriu de satisfação a murmurar, para si mesmo, um “é hoje”! As nuvens tinham finalmente pintado, indesmentivelmente outonais.
Assim foi que, com as mãos até um pouco trêmulas, ele batucou, nas teclas, o recado: “Os deuses ajudaram ao desenhar, lá em cima, um céu propício. O sol está longe e as brisas, em todas as horas do dia, serão amanhecentes; estarei te esperando, no fim da tarde, naquele lugar”.
Agora ali estava o homem, sentado. Diante de uma taça de vinho e, na cabeça, a tentativa de racionalizar o que poderia dizer à moça. Certamente, a catar assuntos, talvez a ela narrasse uma aventura vivida entre pedras e neves do Monte Matterhorn, na fronteira da Suíça com Itália. É que, estando na vila de Zermatt, próxima à montanha, foi convidado, por um grupo de alpinistas paulistas, para brincar de escalar um pedacinho da elevação com mais de 4.000 metros. E haveria razão para falar disso à pessoa esperada. Pois, no decorrer da prova, quando já estavam a uma boa altura, se viram diante de medonha avalanche. Conseguiram, porém, se refugiar numa caverna; onde os esperava enorme surpresa uma vez que, naquele buraco, morava um ermitão que os acolheu com calor de fogueira e sopa fervente.
— Pois foi ali – ele detalharia – que ao dormir tive um sonho no qual me aparecia uma moça linda que eu nunca tinha visto. Porém faz uns dias, depois de ter admirado foto sua da época da juventude, postada no Face, que descobri: a criatura do anelo era você; quando eu nem sabia da sua existência.
E poderia, até, concluir, com barroca observação no feitio da sua idade: “Vai ver que eu estava sendo preparado pelo destino que, segundo os ingleses, é o caçador; para achar e louvar o relvado chão onde sempre vicejou tua cálida presença”.
Assim, no café, ele esperava. Como chegara o tempo em que as tardes são mais curtas, percebeu que a noite não tardava. E começou a cair insistente garoa. Convenceu-se, afinal, que a moça demorava, o que o fazia olhar a todo instante para o relógio; e fincava a vista na direção que imaginava ser aquela por onde ela viria. De repente, ouviu a voz, às suas costas:
—Alô.
Volta-se e ali estava ela, de pé, com a chuvinha já cessada. Levantando, ele diz:
— Você é mesmo igual à foto que vi no Face.
— Se foi uma em que apareço mais nova, nem tanto…
— Ah – ele responde – as fotos, de qualquer época, revelam sempre verdades fisionômicas que são eternas.
Dito isso, ele se apruma. Indicando o chão da rua, molhado, murmura:
— Veja, as calçadas, pós-chuva, sempre ficam revestidas de pequenos restos de estrelas quase de ouro que as luzes dos postes nelas depositam, ao se refletir.
Ela olha e ele prossegue, esticando a mão:
— Venha, vamos dar uma andada sobre esta pequena beleza.
Ela segura nos dedos dele e, sem dizer mais nada, começam a caminhar. Em poucos instantes seus passos se desprendem do chão, e eles sobem. Para em mais alguns instantes, na noite que se formara, se dissolverem no ar. Como um sonho, um suspiro ou uma canção.
__________
ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
