JORNALISTAS

… Para ser jornalista, o curso de Comunicação é apenas um ponto de partida. Porque se propõe a transcender a própria notícia, fugindo dos fatos geradores do evento. Nesse sentido, é mais recomendável fazer pelo menos um curso de Filosofia, História, Sociologia, Economia ou Direito. Qualquer um desses agrega mais à profissão…

 

Independente das teorias do Jornalismo, que se tornaram apêndices das teorias de Comunicação, “algo fluído” e que só confunde o exercício da profissão, ser jornalista, graduado na universidade ou configurado, por osmose, nas redações e na prática cotidiana exige, em primeiro lugar, escrever corretamente, saber captar o fato e coordenar as ideias – e não saber imprimir jornal. Um colega da Bahia tornou-se jornalista vendendo jornais na Praça Castro Alves. Tornou-se editor.

As habilidades profissionais estão realmente ligadas a um cenário caótico, no qual o jornalista transita eticamente. O jornalista não tem realmente de fazer alarde no momento da cobertura. Jornalismo não é militância, não é literatura e muito menos instrumento de ação política, com quiseram os revolucionários franceses. O profissional necessita, sim, saber controlar sua indignação e dominar tecnicamente o exercício da atividade. O olhar distanciado do evento é uma das regras da profissão.

Mas para chegar a tudo isso é preciso, sim, ter “tesão” pela notícia. Disso não abro mão. Aprender jornalismo osmoticamente passa por aí. Mas, o que é ser jornalista? É ter sensibilidade para observar, selecionar, entender a “agenda setting” pautar, reportar, registrar, revisar, analisar, resumir (títulos), ilustrar, editar, divulgar e até interpretar, para ajudar o leitor ou o ouvinte a compreender a realidade cotidiana ou o ambiente em que está envolvido(a).

…Nosso combustível é a dúvida e a indignação. O espaço do trânsito profissional situa-se por aí. As “fakes news” conspurcam a profissão, a prática do diletantismo intelectual e do tempero da literatura ajudam na compreensão, embelezam o texto, mas acrescentam pouco…

MUTRETAPara ser jornalista, o curso de Comunicação é apenas um ponto de partida. Porque se propõe a transcender a própria notícia, fugindo dos fatos geradores do evento. Nesse sentido, é mais recomendável fazer pelo menos um curso de Filosofia, História, Sociologia, Economia ou Direito. Qualquer um desses agrega mais à profissão. Politização profissional situa-se em outra instância. Importa dizer que o jornalista é também um professor, tendo ou não cursado uma Licenciatura em “educação formal” (domesticadora: na escola, com currículo) ou Educação não-formal (complementar à formal).

Escrevi um ensaio jornalístico, não publicado (porque ainda pretendo revê-lo para adaptá-lo às tendências tecnológicas atuais) e o intitulei-o “O jornalismo como educação informal”. Quer significar que nossas atividades profissionais, para além do fundo informativo têm caráter, sobretudo, pedagógico. Em que pese as análises e os palpites de intelectuais diversos sobre o cenário e as motivações da guerra no Golfo Pérsico ou na Ucrânia, as matérias dos jornalistas experientes e com boa formação, independentes de serem factuais ou não, despertam mais rápido e mais profundamente (um título inesquecível….) as habilidades cognitivas do cérebro para aprender, incluindo atenção, a memória, o raciocínio lógico, o processamento visual e auditivo.

A linguagem jornalística facilita muito a memorização, a compreensão e a conexão com o conhecimento prévio. Política situa-se em outra instância filosófica, quando não polui a profissão com ideologias, militâncias e politicagens.

Nosso combustível é a dúvida e a indignação. O espaço do trânsito profissional situa-se por aí. As “fakes news” conspurcam a profissão, a prática do diletantismo intelectual e do tempero da literatura ajudam na compreensão, embelezam o texto, mas acrescentam pouco.

Que estejamos conscientes disso, e possamos descobrir, neste cenário caótico, o lugar que está reservado para cada um de nós enquanto jornalistas.

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Aylê-Salassié F. Quintão –  Consultor de projetos sociais | Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais. Jornalista, professor, doutor em História Cultural, ex-guarda florestal do Parque Nacional de Brasília. Vive em Brasília. Autor de  “AMERICANIDADE”, “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018
Autor, entre outros, de Lanternas Flutuantes:
Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
novo livro de Aylê-Salassiê: TERRITÓRIO LIVRE!

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