mundo pequeno

Este pequeno mundo. Por Antonio Contente

Mundo pequeno… Meu amigo se vira para ir embora; porém, lembrando da empregada, ainda teve tempo de perguntar para o vizinho: — E esse teu terreno que invadiram, aonde é?  — No Jardim Ipaussurama – o fulano responde, enquanto sai, a ranger os pneus.

 

mundo pequeno

         Ele é sozinho. Divorciou-se há uns cinco anos, porém mora num enorme apartamento em prédio “um por andar” num dos melhores bairros de classe média alta. Mesmo comendo pouco em casa tem cozinheira, dona Jacy, que conheço de longa data. Dia desses, ao entrar na copa para o café da manhã, meu amigo foi envolvido por uma situação inédita: a serviçal cantava enquanto fazia o suco. Afinal, em tantos anos de atividades, a fulana sempre foi seca, parca em palavras. Diante do inusitado, o patrão brincou:

         — O que foi? Ganhou sozinha na mega?

         — Não, doutor, aconteceu algo talvez até melhor.

         — Do que ganhar na loteria?

         — É. Com muito dinheiro eu nem saberia o que fazer com ele. Mas agora tenho lugar para construir minha casinha!

         O resto da informação pintou rapidamente e de forma didática: dona Jacy, junto com outras pessoas, invadira uns terrenos na periferia.

         — Bom – o patrão suspirou – você não acha que isso é meio perigoso?

         — Não – ela continuava animada – porque agora nós estamos garantidos.

         — Garantidos por quem? Esse negócio de invadir terrenos em geral dá rolo.

         — Isso era antigamente, doutor. Agora o MST, a CUT e o PT estão com a gente.

         — Ótimo – o camarada junta as mãos – mas você não me disse que iria votar no governador Alkmin?

         — Pois é, doutor, estou mudando…

         Pouco depois meu amigo saiu pro trabalho em sua indústria e talvez, pela vida agitada que tem, nunca mais pensasse no caso da empregada. Aconteceu, porém, que, dois dias depois encontrou, na garagem do prédio em que morava, com seu Edmilson, o vizinho do andar de baixo. Bastaram algumas palavras para o patrão de Jacy ficar sabendo que o sujeito estava uma fera com os grupos ligados ao ex-presidente e ex-preso Lula.

         — Sabe o que esses veados do PT fizeram comigo?

         Lança a pergunta, porém não espera resposta:

         — Ajudaram a invadir uns terrenos meus, na periferia. É possível um troço desses? Me diz, é possível um troço desses?

         — Bom, pra te falar a verdade…

         — Não há – o outro interrompe – não há condição! Esses comunistas vão levar o país à garra ou à guerra! Onde já se viu invadir, assim sem mais nem menos, a propriedade dos outros?

         — Um caso sério, seu dúvida…

         — Posso te falar uma coisa? Eu não vou lá na invasão, tá certo, meus advogados cuidarão de tudo. Mas se pego um dos que entraram no meu terreno… Se pego…

         — Se você pegasse faria o que?

         — Matava, sabia? Não sou assassino, não sou não! Todavia, se pego um desses pilantras, mataria com a maior tranquilidade.

         — Cuidado, calma, olha o coração.

         — Não tem coração nenhum, meu. Se eu tivesse que enfartar, já tinha enfartado.

         Meu amigo se vira para ir embora; porém, lembrando da empregada, ainda teve tempo de perguntar para o vizinho:

         — E esse teu terreno que invadiram, aonde é?

         — No Jardim Ipaussurama – o fulano responde, enquanto sai, a ranger os pneus.

         Foi no dia seguinte, quando novamente dona Jacy espremia as laranjas, que o dono da casa chegou, com jeito. Quis saber se a invasão prosseguia numa boa, se a PM ainda não aparecera para retomar etc. Por fim, indaga em que local era:

         — No Jardim Ipaussurama – veio a resposta.

         Ouvindo aquilo nosso herói sentiu um friozinho na barriga. Entretanto, controla-se; e indaga:

         — Você conhece o nosso vizinho do apartamento aí de baixo?

         — O seu Edmilson? Claro, que homem bom, doutor.

         — É mesmo? É um cara legal?

         — Puxa, ponha legal nisso. Ainda no ano passado, na época do Natal, sabe o que ele me deu?

         — Um terreno no Jardim Ipaussurama?

         — Não – dona Jacy gargalha – me deu um panetone. Um panetone enorme, dentro de uma linda lata vermelha. Acho até que nem era coisa feita aqui no Brasil.

         Feliz, serviu o suco. E continuou a cantarolar, não sem antes garantir:

         — Mas se o seu Edmilson tivesse um terreno no Jardim Ipaussurama, me dava. Juro, tenho certeza que me dava!

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Antonio ContenteANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

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