Cuba

Cuba abre portas cheias de cicatrizes. Por Aylê-Salassié Quintão

Em 2016, Cuba ficou em 68° lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Na América Latina ficou abaixo do Chile, Argentina, Barbados, Uruguai, Bahamas, Panamá, Antígua e Barbuda, Trinidade e Tobago e Costa Rica. Cuba não se dobrou a Donald Trump. Sejamos realistas.

Cuba

Depois de 63 anos sob a égide da Revolução de 1959, o Parlamento de Cuba aprovou um conjunto de 176 medidas políticas e economicamente liberalizantes, escancarando as portas da sua economia para o capital estrangeiro e para o empreendedorismo privado. Trata-se, em primeiro lugar, de resgatar o que foi perdido. Cuba chegou a registrar o quinto menor índice de pobreza entre os 102 países em desenvolvimento, um desemprego abaixo de 4% e o 7.o PIB per capita entre os 21 países da América Latina, conforme dados do Pnud -Programas das Nações Unidas (ONU) para o Desenvolvimento. O desenlace melancólico da insurreição iniciada com o assalto ao Quartel Moncada, na bela cidade Santiago de Cuba (1953), afeta pouco mais de 20% da população cubana remanescente.

A abertura de Miguel Diaz-Canel, Presidente de Cuba, traz outro desafio: a sociedade renovou-se em quase todas as direções e duas gerações. De 1959 para cá, surgiram os satélites espaciais, o homem foi a Lua (1969), andou pelo espaço, viajou entre planetas, surgiram as grandes plataformas digitais, os robôs, os drones afloraram, a inteligência artificial contaminou as narrativas ideológicas e o conhecimento analógico vem caindo em desuso diante da economia digital. O sistema produtivo passou por uma mudança estrutural e o mundo do trabalho sofreu uma profunda alteração de demanda e de qualificação.

Localizada a 140 quilômetros da costa dos Estados Unidos, a revolução cubana fechou-se num regime autoritário, tornando o monopólio estatal e o sistema produtivo, amarrado em um planejamento utópico centralizado. O modelo adotado pelos revolucionários de Sierra Maestra envolvia uma reforma agrária com a desapropriação de fazendas produtivas, de indústrias e serviços estrangeiros, cujo valor foram estimados, na época, em US$ 25 bilhões. Instituiu-se uma justiça sumária, que chegou a vitimar os próprios companheiros.

Ao assumir a chefia do estado, Fidel Castro havia criado uma milícia própria, com o fim de fortalecer a base do Governo, já que não confiava no Exército contra o qual havia lutado. Instituiu os Comités de Defensa de la Revolución – CDR incumbidos de manter uma “vigilância ativa contra a atividade contrarrevolucionária”. Era uma rede de informantes que operava clandestina no seio da sociedade. Esqueceu da economia. Sua política externa concentrou-se em propagar e apoiar movimentos rebeldes similares pela América Latina e na África. No Brasil, nós, militantes estudantis, impregnamo-nos da romântica ideia da revolução popular (Pelar, pero com ternura). Contestávamos as notícias das agências internacionais: “É tudo mentira!!!“O ingênuo desmentido levou muitos colegas ao sacrifício.

Assustou os norte-americanos que viviam na Flórida, a 140 quilômetros distantes da Ilha. Cuba teve congelado seus ativos depositados em instituições financeiras nos EUA e, sob sua influência, isolada no continente americano e reduzida sua relação comercial no mercado. O PIB per capita de Cuba já ficara em 7º lugar entre 47 economias latino-americanas. Contudo, difundia-se que 75% daquela riqueza estava sob domínio de estrangeiros, que chegaram a fazer da Ilha um cassino.

Na tentativa de amenizar a indignação, Fidel Castro desembarcou nos EUA para explicar a sua revolução. Falou com o Presidente, falou na ONU, entrevistou-se com parlamentares, concedeu entrevista à mídia, afirmando: “… tenho dito muito claramente que não somos comunistas.” Logo depois, já na Guerra Fria, entre os EUA e a União Soviética, fez, entretanto, sua opção pela URSS, anunciando a criação do Partido Comunista Cubano, chegando a abrigar uma plataforma de foguetes soviéticos de destruição apontada para o território norte-americano e a ser acusada da conspiração que assassinou o Presidente dos EUA, John Kennedy.

Foi quando começou, de fato, a receber o apoio financeiro e a assessoria da União Soviética. O capital humano de Cuba veio a ser um dos principais pilares da indústria do país, com a maior taxa de alfabetização do Caribe. Na área da educação e da saúde, o maior gasto do mundo chegou a pertencer a Cuba (8,96% do PIB). No período de 1953 a 1959, o PIB per capita de Cuba situava-se entre os maiores entre os países latino-americanas.

O estrangulamento revolucionário interno gerou problemas graves para o frágil aparelho tecnocrático que assumiu o Governo. Tivemos brasileiros participando da confusa reorganização de Cuba como Estado empreendedor. Com a ajuda financeira, administrativa, fornecimento de máquinas e insumos pelos russos, o modelo imaginado foi se instalando aos trancos e barrancos, conseguindo sobreviver, apoiando-se no carisma de Fidel Castro, na disposição de Camilo Cienfuegos e nos sonhos de Che Guevara.

Este último projetava ainda mobilizar camponeses no centro da América do Sul para uma revolução continental. Não aconteceu. Morreram todos, até que a própria URSS se desintegrou (1991), suspendendo o apoio que dava sustentação a economia cubana, representado por recursos financeiros e insumos com encargos mínimos. Vagarosamente, as principais indústrias minerais, têxteis, fertilizantes, alimentos, açúcar, níquel, tabaco, peixe, fármacos e equipamentos médicos, cítricos, café e turismo foram desaparecendo. O petróleo de Hugo Chavez e até o BNDES de Lula ajudaram a adiar o afloramento das carências da população cubana. Não se conseguiu mais estancar as crises do abastecimento, da energia, dos transportes, da ausência de renda: os salários desapareceram. As poupanças familiares mudaram-se para Miami (Little Havana). A “intelligenza””, os atletas e trabalhadores mesmo também emigraram para os países vizinhos.

Sem capital, tecnologia, sem mercado e um aparato gestor e administrativo incompetente. A economia cubana entrou em colapso, com as exportações resumidas praticamente aos charutos, tabacos e runs. Em 2016, Cuba ficou em 68° lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Na América Latina ficou abaixo do Chile, Argentina, Barbados, Uruguai, Bahamas, Panamá, Antígua e Barbuda, Trinidade e Tobago e Costa Rica. Cuba não se dobrou a Donald Trump. Sejamos realistas. A pressão que recebeu de fora veio facilitar a decisão interna de abrir a economia, iniciativa que todos tinham receio de adotar. China e Rússia, paradigmas de regimes socialistas, já haviam feito isso.

Entretanto, o retorno de Cuba ao universo das transações econômicas e financeiras correntes e de mercado vai exigir um esforço muito grande para recompor uma tecnocracia de gestão de políticas públicas, todas debilitadas. As competências exigidas são outras. Vem do mundo digital, cujos “expertises” estão entre as gerações cubanas que se sucederam, sem muitos compromissos com os revolucionários. Muitos estudantes foram presos em manifestações públicas. As dimensões, as oportunidades analógicas, o interesse dos investidores e as tradições vão ter de ser vencidas.

Está difícil gerar uma nova narrativa ideológica e, nos sistemas financeiros conta muito a “folha corrida”. Ao longo desses anos, Cuba foi um mau pagador.

________________________

Aylê-Salassié F. Quintão –  Consultor de projetos sociais | Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais. Jornalista, professor, doutor em História Cultural, ex-guarda florestal do Parque Nacional de Brasília. Vive em Brasília. Autor de  “AMERICANIDADE”, “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018
Autor, entre outros, de Lanternas Flutuantes:
Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
novo livro de Aylê-Salassiê: TERRITÓRIO LIVRE!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine a nossa newsletter