A feminista na zona. Por Lula Vieira
Durante um seminário de propaganda no interior do Brasil, o pessoal descobriu que na cidade onde ocorria o evento existia um dos melhores e mais bonitos bordéis da América Latina. Um luxo, frequentado pelas mulheres mais gostosas, elegantes e simpáticas…

Estou jurado de morte. Todos os participantes desta história fizeram pacto de que se um só nome fosse revelado, um só indício de quando, quem e onde aconteceu, eu seria punido. Por isso vou contar uma história sem os nomes dos envolvidos.
Durante um seminário de propaganda no interior do Brasil, o pessoal descobriu que na cidade onde ocorria o evento existia um dos melhores e mais bonitos bordéis da América Latina. Um luxo, frequentado pelas mulheres mais gostosas, elegantes e simpáticas. Qualidade de botar o lendário Café Photo de São Paulo num chinelo.
Uma expedição foi montada para, à socapa, conhecer o estabelecimento, sob a organização de um famoso produtor de jingles daqui do Rio de Janeiro. Parte significativa do PIB da propaganda brasileira decidiu participar da expedição erótica. Que para alguns mais cínicos era apenas por curiosidade sociológica.
Os casados que tinham levado as respectivas senhoras ao congresso fingiram horrorizar-se com a ideia e – como tinham que ficar – marcaram um jantar no hotel, para comer uns pratos típicos da região. Entre eles, rabo de jacaré. Como disse um diretor de contas solteiro e sem vergonha, cada um naquela noite comeria o rabo que pudesse.
Na hora de organizar a expedição, uma colunista de propaganda, conhecidíssima, alinhou-se na equipe que iria ao bordel. Moça moderna, engraçada e boa companheira, acabou sendo aceita, embora não fosse do espírito do programa levar profissionais de outra área. Mas também ninguém quis levar a fama de preconceituoso ou machista. Sendo assim, rumaram para a tal boate uns oito ou nove homens e a garota, para espanto dos choferes de táxi.
Do jantar dos que ficaram no hotel nada conto. Nem rabo de jacaré salvou a tristeza. Sabe-se que um dos participantes amarrou um porre de juntar curumim.
O grande acontecimento, porém, foi no bordel. Corta para lá. O local era na verdade um imenso galpão, com decoração de cassino de Las Vegas, estilo brega-luxo. Nas mesas, manguaça rolando aos borbotões. Cada um dos varões acabou ganhando a companhia de uma das moçoilas da casa, com exceção, é claro, de nossa jornalista, que tomava seu uísque com água achando tudo aquilo um horror. Tempo passava e a animação foi aumentando, até começar a tradicional discussão sobre cachê.
– Quanto é o negócio, meu amor?
– Cem reais, tesão. Mais cinquentinha pelo apartamento…
Nesse momento a jornalista ficou puta. Da vida.
– O quêêê?! Só isso? Você é maluca, minha filha! Você passa a noite trabalhando, dança, canta, namora, oferece um prazer que estes babacas não costumam ter, só por cem reais? Um idiota destes ganha muito dinheiro! O gordo ali cobra dois, três mil reais para compor uma musiquinha escrota de trinta segundos! O outro bota umas fotinhos e uns textinhos na tela de um computador e cobra outros cinco mil reais. Você vai fazer a porcaria do pau desses velhos ficar duro, fingir tesão, deixar eles acreditarem que são o máximo só por cem reais? Nunca! Pode cobrar uns mil reais e ainda é pouco.
Resultado. Quem comeu alguém naquela noite morreu em quase dois mil reais. Na volta, rememorando a noitada no bar do hotel, ouvi de um deles a promessa:
– É a última vez que eu levo feminista para um puteiro!

– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
