CIDADÃO ABESTADO

… O cidadão “abestado” não tem explicações coerentes para o que acontece. Desfeito o sonho do “penta”, o cidadão vai encarar uma eleição para escolha de um novo gestor de toda essa desarrumação administrativa…

Cidadão abestado.

A edição de 2026 da Copa do Mundo de Futebol vai chegando ao fim… Não interessa ao brasileiro quem chegou às Quartas de Final, quem é ou será o campeão. O Brasil está fora…Para a Fifa foi um grande negócio: coisa de dezenas de bilhões de dólares. Ninguém fala nisso, mas é provável que tenha sido o maior faturamento entre as Copas já realizadas ao longo da história do futebol no mundo. Alguns dos principais realizadores saem financeiramente com as “burras” cheias de dinheiro e alguns jogadores com “passes” supervalorizados. Tornam-se definitivamente milionários.

Por outro lado, como sempre, deixa um rastilho de perdas irreparáveis: acusações de roubo de resultados, juízes omissos, atletas lesionados, frustrações nacionais e pessoais, entre jogadores e torcedores. Um prejuízo enorme na área dos comércios internos de produtos iconográficos que alimentavam esperanças de vitórias entre colombianos, paraguaios, marroquinos, tunisianos, iranianos, sauditas, ganeses, sul-africanos, egípcios e brasileiros. A Europa venceu mais uma vez.

“Foi para isso que nos chamaram para vir aqui!”, lamentou o técnico do Marrocos, ao analisar os resultados e as arbitragens dos jogos de 2026 nos EUA. A nota dissonante coube ao Presidente dos EUA, Donald Trump, ao tentar intervir na Fifa para proteger a seleção do seu país.

Enfim, trata-se de um evento privado que mobiliza cidadãos no mundo todo, indiferente às ideologias representadas. Serve, entretanto, para encobrir crises internas, guerras, como na Ucrânia, no Irã, no Líbano e em alguns países da África central. A Copa de 1970, no México, vencida pelo Brasil, me faz lembrar o jornalista Fernando Gabeira, preso e torturado pelo regime militar, e que, no Jornal do Brasil, criara a “contextualização histórica da notícia”. Conta ele que nos dias de jogos do Brasil, eles os assistiam e torciam juntos com os guardas do presídio. Logo depois, Gabeira seria banido do País. Fazia parte de um grupo de 40 presos políticos trocados pela liberdade do embaixador sequestrado da Alemanha, Ehrenfried von Holleben.

A Copa do Mundo de Futebol é um evento esportivo que nada tem de inocente. Envolve política, negócios, medicina, esportes e muita violência. Na Colômbia, o zagueiro Andrés Escobar, autor do gol contra que desclassificaria a sua seleção foi assassinado no meio da rua quando saía de um restaurante. No Camarões, o ex-goleiro Antoine Bell, em 1994, teve queimada a casa onde morava com sua velha mãe, sob a acusação de culpa pela goleada sofrida na Copa. Em 2010, torcedores ganeses ameaçaram queimar a casa do pai de Asamoah Gyan, após o jogador perder um pênalti decisivo. No Iraque de Sadam Hussein, seu filho, Uday Hussein, presidente da Federação Esportiva, controlava o esporte submetendo atletas a torturas e humilhações severas como lição de cidadania. Torcidas como os “hooligans” da Grã Bretanha ou a do Corinthians no Brasil são temidas. O futebol é cheio de tensões, paixões internas e, como se vê, até de terror.

Para um país que está sempre reivindicando uma supremacia futebolística no planeta, a Copa do Rio de Janeiro, que resultou na derrota do Brasil por 7×1 contra os alemães, deixou o País emudecido por vários meses. Ninguém falava no assunto. Creio mesmo que ajudou a contribuir para o “impeachment” da presidente Dilma. Na Copa na Alemanha, unificada, de 2006, a seleção brasileira era composta por atletas com sucessivos títulos de “melhor jogador do mundo”. Alimentava um ufanismo extremado prévio, projetado como pronto para a conquista do pentacampeonato. O Brasil foi eliminado por Portugal ainda nas oitavas. . .

Após o jogo ninguém conseguia falar com os jogadores. Desapareceram envergonhados, e até camuflados, depois da batalha entre irmãos. Cada um tomou um rumo diferente.

Cobri duas Copas (Alemanha, 2006; África do Sul, 2010) e três Olimpíadas (Atenas, 2004; Pequim, 2008; e Londres, 2012). São competições realizadas de quatro em quatro anos e referenciadas pela imprensa brasileira como momentos de tensão, e até há mídias que insistem tratar-se de uma “guerra”. Amenizava-se nos Jogos Olímpicos, nos quais os atletas buscam superar os maiores índices alcançados até então pelo ser humano em cada modalidade esportiva. O tratamento é bem mais moderado, mas mesmo assim, insiste-se em dizer que aqueles que alcançavam ou superavam os índices olímpicos são, ainda, chamados de “super-homens” ou “deuses do Olimpo” (Grécia). E ainda cobri dois Jogos dos Povos Indígenas (Palmas, 2006 e Recife, 2008). Neles, o que o branco chama, nas Copas de Futebol, de “guerra”, “disputa”, “competição” e a imprensa olímpica batiza de “super-humanos”, os povos originários veem nos eventos uma “celebração”: o encontro de vários povos originários, de todos os estados, que ainda não se conhecem.

... Foi para isso que nos chamaram para vir aqui! lamentou o técnico do Marrocos...

Cada edição termina com a comemoração entre os que conseguiram melhores resultados e os que não chegaram lá. De uma forma ou de outra, cada um reconhece os méritos individuais, e cada povo procura ajudar e revelar para os companheiros como consegue aquelas marcas. Neles, os patrocinadores privados são inexistentes.

O futebol é hoje o esporte mais conhecido no mundo. Ajuda a promover uma confiança coletiva, desqualifica preconceitos, as teorias racistas e discriminatórias. Tira, de fato, muitas famílias da pobreza e fortalece o caráter identitário dos países. Saltou, entretanto, dos campos de “peladas” no interior para as grandes transações comerciais entre clubes e atletas. Gerou um mercado de jogadores no mundo, transformando humanos em “commodities”. Criou milhares de empregos e introduziu produtos de uso pessoal vendidos no mundo inteiro. Tornou-se um negócio como outro qualquer.

Existe uma “Bolsa de Atletas”. A carreira é curta – entre 15 e 20 anos – e o final da vida de um jogador de futebol, sem outra qualificação profissional ou uma frágil formação escolar, é quase melancólica. Vive de favor, alguns até abandonados nas ruas.

Com pouco a oferecer na área da política, o Brasil, ao contrário, super valoriza-o como instrumento de atração, filiação e entretenimento do cidadão. É o “circo” dos romanos. Agrega a mobilização de milhões de torcedores. Fornece uma plataforma capaz de movimentar milhares de pessoas em campanhas políticas e enterrar fatos delituosos em todos os níveis da sociedade. Praticamente ninguém abre mão de ser torcedor de algum time de futebol no Brasil. É um esporte popular: os cidadãos calçam as chuteiras junto com os jogadores, segundo o escritor Nelson Rodrigues. Durante muito tempo foi mantido pelos chamados “bicheiros”, donos do “Jogo do Bicho” e protagonistas de transgressões sociais, que mantinham sob seu controle clubes, juízes e atletas. Vários políticos em atividade vieram dos campos de futebol.

Pelo encanto que provoca, o futebol é usado demagogicamente para realizar eventos caritativos, comemorar feitos governamentais, desviar a atenção da corrupção explícita, fazer a população esquecer a inflação, os juros, o desemprego, os “penduricalhos” dos ministros do Judiciário. Esconde e ameniza a culpa de protagonistas reincidentes no campo da política envolvidos no caso Master, a gastança pré-eleitoral dos 30 partidos políticos existentes no País e seus dirigentes, as “bondades” seletivas com dinheiro público, tudo amparado por narrativas e estatísticas voltadas para configurar um cenário populista pré-eleitoral e amparar um modelo polarizado num segundo turno do pleito.

A conivente presunção de um pentacampeonato mundial acomoda desconfianças políticas mútuas, e faz desaparecer os transgressores privados ativos e os passivos de “colarinho branco”. Nessa onda, o italiano, chamado pelos jogadores de “Mister” Ancelotti, promessa imaginária de “Salvação da Pátria de Chuteiras”, passa a navegar.

O futebol no Brasil dissolve tudo nas entranhas bolorentas da relação espúria entre trabalhadores e elites, protegida por cadeias invisíveis de Poder estruturadas política e economicamente por uma delinquência que corrompe as bases da institucionalidade, substituindo-as por práticas viciadas.

O cidadão “abestado” não tem explicações coerentes para o que acontece. Desfeito o sonho do “penta”, o cidadão vai encarar uma eleição para escolha de um novo gestor de toda essa desarrumação administrativa, para a falta de credibilidade das instituições, para a criminalidade sem fim, para a vulnerabilidade da segurança pública, para o descrédito das narrativas e narradores e dos próprios candidatos, esses mesmos responsáveis pelo estado de coisas que aí estão.

Não basta, querem voltar. As projeções de futuro não oferecem nenhuma consistência para a governança pós-eleitoral. Nosso planejamento de Governo não deixou espaço para elas. Sábio é o técnico marroquino. Expressando o sentimento das seleções africanas que participaram da Copa do Mundo de Futebol de 2026 indagou o porquê de terem sido induzidos a participar. O mesmo pode ser perguntado em relação às nossas eleições de outubro.

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Aylê-Salassié F. Quintão –  Consultor de projetos sociais | Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais. Jornalista, professor, doutor em História Cultural, ex-guarda florestal do Parque Nacional de Brasília. Vive em Brasília. Autor de  “AMERICANIDADE”, “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018
Autor, entre outros, de Lanternas Flutuantes:
Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
novo livro de Aylê-Salassiê: TERRITÓRIO LIVRE!

 

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