A quem a autoajuda ajuda. Por Lula Vieira
Há um universo maravilhoso à disposição de nós todos escondido nos sábios ensinamentos dos livros de autoajuda. E, como em tudo, o mercado editorial tem seus modismos, estamos, ao que me parece, entrando na era da antiautoajuda, o que seria uma espécie de negação dessa literatura que promete a felicidade para quem conseguir vencer suas limitações.

No meu trabalho como editor de livros devo ter contribuído para a existência de pelo menos uns 50 títulos de autoajuda no mercado brasileiro. Tenho a sensação de que por minhas mãos passaram todas as soluções para os males do mundo. Seguindo os ensinamentos desses livros as pessoas não sofreriam, não seriam pobres, nem gordas nem feias nem tristes. Empresas não teriam dificuldades e seriam maravilhosos lugares para se trabalhar.
Lendo os livros que editei todos descobririam seus talentos ocultos ou, pelo menos, viveriam em paz com sua absoluta mediocridade. Há um universo maravilhoso à disposição de nós todos escondido nos sábios ensinamentos dos livros de autoajuda. E, como em tudo, o mercado editorial tem seus modismos, estamos, ao que me parece, entrando na era da antiautoajuda, o que seria uma espécie de negação dessa literatura que promete a felicidade para quem conseguir vencer suas limitações.
Estão chegando no mercado livros de pessoas que relatam seus fracassos, admitem fraquezas e – sobretudo – ensinam as pessoas a perceber o quanto há de humano na nossa pequenez, nosso egoísmo e nossos medos. Desses eu tenho gostado muito.
Está em confecção (outro dia entro em detalhes) um livro que se chamará “A pior mãe do mundo” que relata o desespero de uma jovem que percebe que seu filho é imune a todos os ensinamentos das dezenas de livros sobre comportamento infantil que ela leu. O diabinho do filho não reage como está nos alfarrábios e parece que veio ao mundo para desmoralizar os autores. de livros sobre comportamento infantil. E as burras das mães que acreditaram neles.
Um dos momentos mais bacanas do livro é quando a mãe se esvai em lágrimas depois que seu pimpolho afirmar solenemente: “mãe, eu te odeio”. Em estado de choque ela vai para o quarto, senta-se na cama, vê seu universo destruído, sente-se a pior mãe do mundo, uma megera fracassada, uma inútil e também uma injustiçada, uma perseguida pelo azar.
Neste momento dramático ela vê no espelho uma figura desgrenhada e com o rosto manchado de maquiagem. Vem-lhe à mente a dolorosa verdade e a torturante pergunta: o que fiz de minha vida? Então, ouviu uma voz, sua própria voz, gritando do fundo de sua torturada alma: se esse merdinha me odeia…foda-se!
Minutos depois mãe e filho rolavam felizes pelo tapete da sala, ele já esquecido do ódio, ela totalmente envolvida pelo clima extasiante de ternura que em alguns momentos acontecem entre um garoto e sua mãe.
Vou propor um desdobramento do livro que se chamará “A terapia do foda-se”, que tem tudo para ajudar as pessoas a enfrentarem seus problemas e eu a ganhar um bom dinheiro.
Outro livro que eu queria lançar seria um que narrasse os métodos gerenciais de alguns dos maiores líderes empresariais do país. Através de histórias curtas eu mostraria como se construíram impérios. Um exemplo? Assis Chateaubriand. Certa vez ele chamou um funcionário e o mandou para uma cidade do Nordeste para assumir a direção geral de uma emissora de rádio que ele tinha acabado de comprar. O novo diretor refez o guarda-roupa, avisou a família inteira e se mandou para o novo cargo, imaginando a imensa alegria de dirigir uma rádio, o poder que teria na cidade, a fama, a glória, a grana. Lá chegando, esperava-o uma imensa pilha de promissórias para assinar, como diretor estatutário. Era o valor da rádio inteira (Chateaubriand não colocou um único tostão na transação) dividido em centenas de “letras”. Desesperado ele ligou para o patrão: “doutor Assis, como é que eu vou pagar isso tudo?”
O Velho Capitão respondeu na bucha: “com o dinheiro da rádio, meu filho, com o faturamento dela, afinal quem é o porra do Diretor Geral dessa merda?”
A rádio foi paga, o dinheiro apareceu através dos métodos da casa. Doutor Assis Chateaubriand era um gênio das finanças.
– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
