A importância de falar húngaro. Por Antonio Contente
… — O problema – ele suspira – é que minha mulher fala a língua de Shakespeare, e não húngaro. Preciso de alguém que domine este idioma. Daí explicou que recebera exemplar de uma importante revista, editada em Budapeste, contendo longa análise da obra de Flávio de Carvalho…

J. Toledo, jornalista, escritor, escultor, pintor, fotógrafo, semiólogo, cronista do quase centenário jornal “Correio Popular”, de Campinas, durante muitos anos, morreu no dia 11 de setembro de 2011. De lá para cá nunca mais recebi telefonemas às 3 da madrugada, hora em que ele gostava de me chamar; entretanto sempre emergem, em minha cabeça, lembranças do amigo. Que fortes marcas deixou na vida cultural campineira.
Dia desses, por exemplo, recordei um caso ocorrido na época em que Jota escrevia a biografia, com cerca de 1.000 páginas, do arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho. Que exigiu tremendo trabalho de pesquisa, tão envolvente e minucioso que, com a computação ainda engatinhando entre nós, o escritor arranjou um micro pioneiro na época para ordenar o material que colhia.
Certa madrugada, eu ainda morava no Cambui, toca o telefone e já sabia que era ele. A murmurar, a voz algo cansada, um “preciso de você”.
— Algum problema? – Arrisco.
— Bem, depende. Pra mim, está sendo. Pois preciso de um tradutor.
— Ora – estalo gargalhada – você é casado com uma americana que fala português melhor do que eu. Qual é o problema?
— O problema – ele suspira – é que minha mulher fala a língua de Shakespeare, e não húngaro. Preciso de alguém que domine este idioma.
Daí explicou que recebera exemplar de uma importante revista, editada em Budapeste, contendo longa análise da obra de Flávio de Carvalho.
— Mas, diabo – coço a cabeça – e onde você pensa que vou arranjar alguém que fale húngaro? Invocando o Conde Drácula, talvez…
Ainda trocamos meia dúzia de palavras, e prometi que tentaria resolver a coisa. O que de fato fiz, assim que acordei. Minha primeira providência: ligar para professora amiga que trabalhava na Unicamp. Joguei o drama sobre ela e, deslumbrado, ouvi a resposta:
— Ora, basta que você procure o Jarolawsky.
— E ele fala húngaro? – Murmuro, incrédulo.
— Não apenas fala como escreve.
— E onde acho esta maravilha?
Ela deu a indicação e, mais tarde, parti. Acrescentando, desde logo, que não foi fácil localizar o homem. Na verdade tratava-se de especialista em consertos de eletrodomésticos, possuía um ferro velho na periferia campineira. Na base do pergunta pra cá, pergunta pra lá, achei. Ao avistar o sujeito, louríssimo, ele estava debruçado sobre os restos de uma geladeira. Pensei: “Se este camarada não dominar a língua de Istvan Szabó, ninguém mais”.
Cheguei ao cara, me apresentei, falei da minha amiga da Unicamp e, finalmente, expus o que desejava. Só que a resposta foi uma porretada:
— Você vai me desculpar, mas não sou húngaro, sou polonês.
Solta a frase, logo em seguida entrefecha os olhos como a lembrar de algo. Murmura:
— Espera aí, acho que posso resolver o seu problema.
Entrou na casa e voltou com uma ensebada agenda. Molhando o dedo na língua, virou páginas. Por fim, brada:
— Aqui está, Dremuro Sziambou.
— Quem?
— Dremuro Sziambou – ele repete – é húngaro. Tem uma lanchonetezinha no centro, e é meu amigo.
Peguei o endereço e, rapidamente, parti no rumo da casa de Toledo para pegar as páginas que precisavam ser traduzidas. Acentuei:
— Nem quero que você vá comigo. Prometi que quebraria o teu galho e vou quebrar. Dentro de duas horas volto.
Rapidamente saí, transpirando otimismo. Porém, ao chegar à lanchonete de Dremuro, num esconso beco nas imediações do Mercadão, descobri, mais uma vez, que nada na vida é tão fácil. Pois o bom homem até que exalava simpatia; todavia me olhou, desconsolado, para dizer:
— Falar húngaro eu falo, mas, na minha língua, sou analfabeto, não consigo ler nada. Em português leio e escrevo. Já em húngaro…
Agastado diante do drama, mas como sacara um bom tema, escrevi crônica para o jornal paulistano “Folha da Tarde”, onde na época mantinha coluna diária, contando o sucedido. Entre telefonemas e cartas (ainda não existia internet) recebi umas 20 mensagens de pessoas que falavam o idioma do leste europeu. E, à tarde, quando o repórter José Maria Mendes saia para uma reportagem na região da Praça da Sé, pedi que procurasse o dono de uma joalheria em rua próxima à Catedral, que se ofereceu para fazer a tradução. O que realmente foi feito por um simpático senhor chamado Ignác Fazekas, nascido na cidade de Debrecen, condado de Hajdú-Bihar, que vim a conhecer depois e de quem fiquei amigo. Mas o curioso é que Mendes, o meu colega, conheceu na loja do húngaro a linda filha dele, Zsuzanna. Com quem casou, é felicíssimo, e pai de três filhos. Mas só uma, a mais velha, tem nome gringo. Chama-se Bogdarka. Em homenagem à avó materna.
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ANTONIO CONTENTE –
Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
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Como naquele tempo nao não havia internet, com certeza você tinha uma cadernetinga mágica para fazer suas notas. A não ser assim, como poderia hoje você escrever estas palavras onde abundam consoantes e quase nada de vogais? Que crônica deliciosa, que ginástica para resolver o problema de encontrar um tradutor do idioma húngaro. E afinal você serviu de cupido entre dois jovens que se casaram e tiveram uma linda filha de nome impronunciável! Antonio, voce me diverte!
Crônica deliciosa de ler . O que não se faz por um amigo ! Jotinha era um encanto e mereceu teu esforço e empenho .
Do começo ao fim fiquei presa na busca de solução à tua promessa . Finalmente deu certo entre suores e andanças . Abraço fraterno da amiga irmã .