balança mas não cai

Aperta o cinto, se segura aí, tenta manter a calma. Todo dia um tremor, aqui, ali. Preocupantes e seguidos abalos justamente na nossa área de segurança, aquela do Poder no qual confiamos a estabilidade institucional. Mas não é o primeiro; certamente nem o último. O Brasil, acabamos acostumando, entorta, verga de um lado, de outro, mas não cai. O problema é que pode virar piada. Sem graça. Pior, religiosamente.

balança mas não cai
Animação de Guillaume Kurkdjian

No entanto, mantenha o cinto afivelado até que novos avisos sejam emitidos, porque a atual balançada é mesmo perigosa. Pode escalar ainda mais nesse momento eleitoral que tem um monte de gente querendo aproveitar e tirar uma lasquinha – para se dar bem ou se safar.

Crescemos – ou crescíamos – no ufanismo de que por aqui não tínhamos terremotos, furacões, etc., mas adianta?  De repente um mal estar, o medo e o receio (pelo menos de quem já viveu para ver durante duas décadas a escuridão) retornam. Desta vez cercando e arrastando a construção e as amizades de um bandido se declarando banqueiro e erigindo o que agora sabemos revelado como o maior rombo e escândalo da história recente do Brasil, envolvendo bilhões do meu, do seu, do nosso dinheiro. Do dinheiro público usado nesta construção que envolve toda a República, todos os Poderes, com tijolos de luxo e mordomias, telhados e janelas de vidro, amizades e caminhos insondáveis. Com piscinas para muita gente se afogar ainda, cercadas por jardins de corrupção. Pode sim não sobrar pedra sob pedra, o lamaçal avançar se não forem tomadas em tempo hábil as iniciativas para escorar esse “prédio”.

O milenar livro do I-Ching, em seu hexagrama 51 ensina com propriedade a diferença entre tremor e temor. O tremor, o abalo estrutural, a crise; o temor, a resposta interna diante do poder do que ainda é invisível. Nesse momento, vivemos os dois. É preciso ter noção e reverência diante das leis, as da natureza e as dos homens. O I-Ching, o Livro das Mutações, é um oráculo criado há mais de três mil anos como um guia para uma vida ética, manual para governantes e pessoas, orientador do futuro pessoal e do Estado, uma obra circular na qual 64 hexagramas, de guerra e paz, se movimentam continuamente, forças cósmicas do yin (a sombra) e do yang (a luz). Não é por menos que é bom lembrá-lo nesse momento em que temos tanta sede por soluções e lideranças hábeis, que infelizmente nos faltam. Sobram, contudo, meias medidas, explicações pouco convincentes das desonras à tona. Falação. Diante de nossos olhos. E ouvidos.

Assistimos, ainda, perplexos, ao filme de terror da campanha eleitoral, onde todos prometem “Mudar o Brasil”, e nos dá vontade é de arrumar mala e cuia. Nunca apareceu tanta gente como agora com propostas vazias defendendo as mulheres, enquanto elas continuam a morrer desprotegidas nas mãos de algozes. Cuidado. Ouvimos palavras como soberania gastas, ditas em frases bobas por quem nem ao menos sabe o seu real significado, evocando os dois patinhos na lagoa. Com cavalos azarões à solta, e no mesmo terreno da construção que balança.


 MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, com passagens por alguns dos principais veículos, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

______________________________________________________________________________________

Instagram: https://www.instagram.com/marligo/
Blog Marli Gonçalves: www.marligo.wordpress.com
No Facebook: https://www.facebook.com/marli.goncalves
No Threads: https://www.threads.net/@marligo
No Twitter@marligo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine a nossa newsletter