marca

A marca…Foi no segundo encontro. Estava o casal na pausa pro cigarro com as costas apoiadas nos travesseiros, quando ele viu a pequena cicatriz. Abaixo do ombro esquerdo, acima do seio. Olhou quase longamente a imaginar o que a poderia ter causado

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         Pode o amor atingir as pessoas como uma carga elétrica, como um raio? Certamente que sim, uma vez que foi justamente isso que aconteceu com Liconi. Estava ele num churrasco em Joaquim Egídio quando Jacyrene entrou. Bastou colocar os olhos sobre ela para que sentisse, nas entranhas, algo que mexeu com cada uma das peças que por lá existem. Com as mãos trêmulas apontou, perguntando de quem se tratava. Ouviu o nome, para logo fazer o pedido, com tom de apelo, de súplica:

         — Dá pra me apresentar?

         Isso de fato ocorreu, com efeito que superou todas as expectativas do rapaz. Pois a linda criatura não somente se desmanchou em sorrisos, para logo indicar, com sutileza que só as belas guardam, que a cantadinha seria bem recebida. Ao final da reunião de amigos à sombra das árvores, os dois já saíram de mãos dadas.

         O resto sucedeu como de praxe, como se seguisse roteiro previamente escrito. Certamente, logo diriam os mais afeitos às coisas do imponderável, tratava-se de redação feita pelo destino. Que, segundo um velho dito inglês, é, sempre, nesta vida, o caçador.

         Foi no segundo encontro. Estava o casal na pausa pro cigarro com as costas apoiadas nos travesseiros, quando ele viu a pequena cicatriz. Abaixo do ombro esquerdo, acima do seio. Olhou quase longamente a imaginar o que a poderia ter causado. Talvez, até, tivesse passado pela sua cabeça perguntar do que se tratava. Todavia, não o fez; sabe-se lá se por imposição de mais uma sutileza do destino. Que reservou nova surpresa em papo que teve dias depois com uma amiga de Jacyrene num ocasional encontro no Café Regina. Após se informar sobre o andamento do namoro, a fulana de repente diz:

         — Que bom que não ocorreram sequelas.

         — Sequelas? Do que?

         — Do tiro que a Jacyrene levou. Puxa, no peito, bem acima do coração…

         O susto foi tamanho que, caso estivesse de pé, Liconi teria precisado se apoiar em algo, para não cair. Mas como ali mesmo, no breve instante, se implantou na cabeça dele que a namorada fora personagem de um caso passional, abreviou o papo abruptamente. E sem perguntar mais nada saiu para ir sentar num banco no largo do Rosário.

         Lá, com os pombos a bicar o chão a seus pés, o rapaz caiu na real viagem da sua imaginação: Jacyrene, de fato, era uma criatura bonita. E a inesperada informação de que levara um tiro no peito fez com que se criasse na cabeça dele os contornos de “femme fatale” da moça com quem vinha saindo. Já a via a provocar tragédias alimentadas por ciúmes trágicos, ou até suicídios de pessoas que, não vendo correspondidos seus anseios amorosos, optaram por cometer os chamados tresloucados gestos aos pés da beldade.

         Ao se preparar para o encontro com a fulana, à noite, Liconi guardava no coração uma espécie de orgulho por ter conquistado alguém com capacidade de provocar reações extremas; mas também densa, espessa curiosidade por saber detalhes do sujeito que tentara matá-la, certamente naufragado diante da beleza que não conseguira domar; como ele mesmo, o nosso Liconi, parecia estar conseguindo. No fundo no fundo se sentia vitorioso, com a inesperada certeza de que amansara uma criatura que tinha todos os homens da cidade a seus pés.

         Quando Jacyrene entrou no apartamento do rapaz ele era só ânsia. Continha-se, pois seu desejo era arrancar de uma vez a roupa que cobria a fulana; não para satisfazer desejos ou ampliar prazeres, mas sim para cravar os olhos novamente na cicatriz acima do seio esquerdo, abaixo do ombro. Aquela marca a transformara, para Liconi, numa rainha, numa deusa que já o fazia sentir-se como conquistador de galáxias estelares ou terrenas. Alexandre, o Grande; Átila, o Rei dos Hunos; Cristóvão Colombo a desvirginar o solo americano!

         Ouviram músicas e tomaram drinques. Depois, caídas sobre o tapete as peças dos vestuários, Liconi, com a pontinha do dedo, tocou na pequena cicatriz; assim como não quer nada perguntou o que era aquilo:

         — Ih – ela baixou os olhos – nem te conto…

         A frase provocou calafrio que subiu da ponta dos artelhos do moço até o último fio dos seus cabelos. Com jeito, com tato, insiste que ela contasse, para ouvir de sua própria boca a história do apaixonado que, por amor, tentou matá-la para, provavelmente, enfiar, depois, um projétil na própria cabeça. Jacyrene suspira e, sentando na beira do colchão, cicia:

         — Você não leu no jornal a notícia daquele assalto que houve dentro de um ônibus, no Campo Grande, faz meses? Pois eu estava dentro dele; e uma bala perdida me pegou no peito…

         Ouvindo aquilo, ele baixa o copo na mesa de cabeceira. Uma bala perdida num ônibus lá nos confins – avalia – que coisa mais brega, mais comum, mais rasteira. Levantou e deu uns passos pra cá, outros pra lá. De repente, alega estar muito cansado, precisando ficar sozinho. Quase como se tivesse sido tocada, ela acabou indo embora, meio sem jeito.

          Foi a última vez que se viram.

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Antonio ContenteANTONIO CONTENTE

Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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