confesso

Confesso: anda bem difícil escrever com leveza, humor, otimismo. Sobre temas que passem longe da amargura do momento não só nacional, como mundial, de tantos medos e obstáculos.

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Há pouco mais de um mês, uma grande amiga me instigou perguntando o que se passava por eu estar escrevendo por semanas crônicas sobre “animaizinhos”, embalagens, enquanto os dissabores políticos e institucionais incendeiam o país. Espero não ter sido rude, mas era a mais pura verdade sobre a fuga para outros temas. “Não posso escrever palavrões”. respondi. Pior, dias depois, os que vêm à mente poderiam ser classificados palavrões cabeludos.

Confesso. Estou atônita com o que acompanho. Nos noticiários. Nos comentários das longas discussões televisionadas, jornalistas largados em poltronas de suas salas de visita/estúdios. Nos chutes. Nas “fontes” que mandam recados ao vivo para os seus celulares. No indisfarçável um sabe mais que o outro. O emaranhado de pesquisas de tudo quanto é instituto, metodologias, amostras e técnicas de coleta diferentes e resultados, e com seus próprios diretores sem restrição aparecendo e chutando a um gol imaginário. Neymar deve estar com inveja. Memphis Depay devia estar pensando em um deles com a bola fora do pênalti cobrado no jogo do Corinthians.

Confesso. Pavor do retorno da barbárie ideológica que vivemos e agora vendo o mesmo sobrenome daqueles tempos aparecer de cara lavada insistindo na plataforma de horror que aparenta não estar sendo percebida em sua totalidade. Mulheres, especial atenção! Aliás, não há filme de horror maior do que o desfile de estranhos no horário eleitoral, repleto de policiais com cheiro de morte e pólvora nas mãos; crentes, gritando “Deus, família, pátria”. Toda a experiência de uma vida em campanhas políticas, confesso, repito, não lembro, de campanhas – todas, de todos os lados, tão ruins, malfeitas, primárias, caras, falsas, abusadas. Usam o sofrimento e a ignorância, a desinformação que aceita tudo quanto é mentira, “salvadores” – resolverão em poucos anos o impossível brotado do total desequilíbrio social no qual surfam? “Quanto mais a gente reza, mais assombração aparece“, o ditado popular parece feito sob medida.

Confesso ainda que bem sei o quanto as opções não são as melhores. Mas o que preocupa é nas ruas perceber que o lado à direita, sentados no próprio rabo, para ocultar ou se desviar de seus próprios malfeitos, vem se dando muito bem ao jogar todas as culpas nas costas do atual presidente candidato à reeleição (já ele cheio de culpas reais). Culpas extraordinárias, carimbos, que isentam até as mudanças climáticas, aliás negadas e renegadas.

Que deselegante. Que perigoso. Mas, enfim, porque essa mania que têm de cercarem-se apenas de quem os endeusam e os mantêm fora da realidade? Vamos ver no que dá.


confesso

MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, com passagens por alguns dos principais veículos, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br


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