A trilha e a onça. Por Antonio Contente
… Fazia agora mais de meia hora que eu caminhava e me vi diante de um impasse: a trilha se bifurcava. Indeciso entre tomar a esquerda ou a direita, optei decidir na base do cara ou coroa. Fui pela direita.

Naquela época eu ia muito à praia do Camaburú, no litoral do Pará, quase divisa com o Maranhão. É um recanto de pescadores, muito lindo, sem hotéis, luz elétrica, pousadas ou algo do gênero, sempre me alojei na casinha de um velho amigo que se isolou naqueles ermos. Mas o que queria contar é que, nos fundos do tugúrio de madeira, chalezinho formoso, existia uma trilha que tomava o rumo da floresta. Na verdade, em tantas passagens por ali sempre tive ímpetos de me enfiar nela. A imaginar, talvez, que pudesse levar a algum lugar especial, daqueles que a gente sabe que não existem. Mas que lá estão, à nossa espera.
Bom, houve um dia em que minha curiosidade pelo mal traçado caminho aumentou. É que vi chegando através dele até alcançar o, digamos, quintal, nada menos do que dois robustos macacos. Subiram a cerca, alcançaram o fundo da casa, receberam algumas bananas da moça que estava cozinhando e, do mesmo jeito que chegaram, foram embora, saltando para o arvoredo denso.
O lúcido, naturalmente, seria eu chegar pro meu hospedeiro e perguntar sobre a trilha. O que poderia encontrar ao longo dela e se, além dos macacos, outros animais morariam por ali. Só que não fiz nada disso e, após observar uns tucanos, resolvi que na manhã seguinte faria a exploração por conta própria, sem dizer nada a ninguém.
Assim, na hora marcada, tratei de me armar de algumas coisas que julguei indispensáveis. No bolso da camisa, coloquei uma pequena bússola. Na cintura, enfiei belo Smith-Wesson 38, que eu já tinha fazia muitos. Ao lado da pistola, uma faca tipo Rambo.
Ora, amigos, em “Out of Africa”, filme baseado no livro “A Fazenda Africana”, de Karen Blixen, o na época bonitão Robert Redford fazia o papel do caçador inglês Denys Finch-Hatton, a bem namorar com Meryl Streep, na película. Confesso que, ao colocar os pés no misterioso traçado, me senti um pouco como ele. Por uma dessas coincidências, antes mesmo de dar a vigésima passada, uma ágil cotia atravessou meu caminho, ao mesmo tempo em que escutei barulho de um bando de papagaios nos açaizeiros à minha direita.
— Santo Deus – pensei – quando contar esta aventura pro pessoal do Café Regina, lá em Campinas, ninguém vai acreditar.
Súbito a trilha, que já era estreita, se estreitou mais ainda. Como se não bastasse, a vegetação, inicialmente baixa, me cercou por todos os lados, inclusive por cima.
Quando escutei o barulho da água, já estava com os pés dentro dela. Era um igarapé, claro, com dois troncos colocados sobre ele para a passagem. Nessa altura dos acontecimentos, as árvores em torno eram imensas. No entrelaçado dos cipós e galhos, toda, absolutamente toda uma constelação de passarinhos.
Fazia agora mais de meia hora que eu caminhava e me vi diante de um impasse: a trilha se bifurcava. Indeciso entre tomar a esquerda ou a direita, optei decidir na base do cara ou coroa. Fui pela direita.
Em mais 15 minutos de andança, me congratulava por ter escolhido o rumo certo, no instante em que, sobre nesga de terra num chão de folhas, avistei aquelas marcas. De patas, quero dizer. Olhei, examinei, e, ao invés de concluir que haviam sido feitas por algum cachorro, optei por concluir que eram de onça. Um frio me percorreu a espinha. E, imediatamente, voltei.
Quem já se perdeu em florestas sabe como a coisa ocorre. Você tenta retornar a um lugar pelo qual já passou e, francamente, não o encontra, pois é tudo igual. Para agravar meu estado de espírito, nem sequer a encruzilhada na qual estivera antes voltou a pintar. Descobri, então, duas coisas de suma importância: primeira, não sabia, absolutamente, usar a bússola; segunda, meu imponente Smith-Wesson se encontrava sem uma única ou remota bala. Vislumbrei, num relance, o título neste Chumbo Gordo, dias depois: “Nosso cronista é devorado por onça na Amazônia”. E me emocionei com a cara de tristeza da Marli Gonçalves.
Novamente aceso, concluí que apavorar seria pior. Só que as malditas marcas das patas da provável onça voltaram a aparecer. O que me restava, então, era enfrentar a situação. Peguei a enorme faca do Rambo e fui em frente. Súbito, a trilha some. Começo a afastar a vegetação na base do braço. Me considerava totalmente perdido, no instante em que sinto cheiro de fumaça de café sendo torrado. Corro, com tudo, na direção dela, e desemboco diante dos fundos de uma casa. Para não passar pelo vexame de pedir socorro, até porque nenhum imenso felino mordia meu calcanhar, apenas balancei a mão. Surpresa, o homem que vinha em minha direção era o dono da biboca-bar no Porto dos Pescadores, pertinho do lugar onde me hospedava.
— O que o amigo faz aí? – Ele pergunta.
— Ora – respondi – estava à sua procura. É que quero uma, estupidamente gelada!…
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ANTONIO CONTENTE –
Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
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