O Invasor. Por Lula Vieira
… chega a turma do cliente. Vem um, vem outro, todos os que estavam trabalhando se dirigem à sala de reunião para a grande revisão. Junto entra um garoto de uns cinco ou seis anos, cara de jogador mirim do time do inferno…

Parece uma velha piada que todo mundo conhece. Mas aconteceu de verdade há alguns anos. Na véspera do lançamento de uma campanha, marcou-se uma reunião de revisão, com a presença de parte do time do cliente, num sábado à tarde. Aquele horário das 4 horas que inviabiliza o dia inteiro, pois não dá pra beber no almoço nem programar um belo jantar pois não se sabe a hora que a porcaria da revisão acaba.
Para quem tem família grande a coisa piora ainda mais, pois há que se negociar com mulher e filhos, principalmente estes. Estas reuniões têm uma outra característica que é a falta de infraestrutura no escritório, sem café, algumas vezes sem ar condicionado e sem aquelas pessoas que realmente são importantes para a existência de nossa indústria: telefonistas, boys, auxiliares, secretárias.
Sobra um bando de panacas, meio envergonhados em seus bermudões domésticos, tentando manter o clima profissional. Foi assim também neste dia que estou contando. Veio a diretora de arte com a filha que ficou brincando no computador, veio o mídia com a cachorra que ficou amarrada na recepção bebendo água no cinzeiro da mesa da diretoria, veio o planejador com a namorada que Meu Deus do Céu que mulherão!
A agência parecia uma grande cabeça de porco, com todo mundo de porta aberta, conversando, nossas roupas comuns penduradas, aquele leve ar de zona. Daí chega a turma do cliente. Vem um, vem outro, todos os que estavam trabalhando se dirigem à sala de reunião para a grande revisão. Junto entra um garoto de uns cinco ou seis anos, cara de jogador mirim do time do inferno, com um copo gigante de Coca-Cola na mão, um sanduíche melado na outra e senta-se numa cadeira. Sua primeira providência foi enfiar o dedo sujo de mostarda na lente do projetor. A segunda foi limpar a mão no estofado da cadeira.
Evidentemente todos acharam uma gracinha o pentelho abusado, tratando com aquela intimidade forçada que os adultos usam quando querem agradar pais de criança. E o garoto parecia estar com a macaca. Serviu-se da garrafa térmica de café, espalhando manchas pelo carpete inteiro. Depois foi até a recepção e soltou a cachorrinha pra fazer xixi no corredor, puxou o cabelo da filha da diretora de arte que, além de chamá-lo de “seu grande filho da puta”, para desespero da mãe, abriu um berreiro que inviabilizou o começo da reunião bem uns quinze minutos.
Todo mundo sorria amarelo pra todo mundo e o Eric, conforme o maucaraterzinho disse se chamar, brincou de pular no sofá da sala de espera da diretoria e derrubou o vaso de samambaia em cima do computador da secretária. Até que vem um segurança e avisa que tem um casal lá fora, desesperado, moradores da vizinhança, perguntando se alguém tinha visto o filho deles que havia desaparecido de uma festinha de aniversário.
Ou seja: o Eric não era filho de algum cliente, como a agência supunha, nem filho de alguém da agência, como pensava o cliente. O Eric não foi linchado por pouco.
– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

É sempre assim: pentelhos nascem de geração espontânea!
boa!!!