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A volta da Rádio Eldorado e o financiamento das coisas. Por Adilson Roberto Gonçalves

… A morte da rádio e sua volta ao mundo dos vivos trouxe também o questionamento acerca do financiamento do entretenimento, da notícia, do esporte e da cultura de forma geral. Quem paga a conta para manter a arte funcionando e a bola rolando?

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            Foi muito acertada a decisão do grupo Estado na retomada da Rádio Eldorado. Sabemos que a viabilidade comercial de qualquer empreendimento jornalístico e cultural é importante, mas é o público que determina a sobrevivência de meios e instrumentos de comunicação que fogem do lugar comum reinante hoje em dia em que tudo é cópia e vendido como “conteúdo”. Os milhões de cliques e seguidores podem se transformar no equivalente em reais, mas estão fora da realidade de continuar construindo uma marca cultural própria, como a Eldorado vinha fazendo em seus quase 70 anos de existência. Que a nova fase possibilite também o resgate desse amplo arquivo histórico nas plataformas digitais que possa ser disponibilizado para o deleite dos antigos ouvintes e (re)descoberta para os novos.

            A morte da rádio e sua volta ao mundo dos vivos trouxe também o questionamento acerca do financiamento do entretenimento, da notícia, do esporte e da cultura de forma geral. Quem paga a conta para manter a arte funcionando e a bola rolando? Em certa dimensão republicana, aceitamos o financiamento público e contestamos o privado para tais atividades, mas onde fica o limite? Somado à origem geral dos recursos, temos o advento das bets, onipresentes no mundo real e virtual de hoje em um ambiente nada saudável.

            A relação já é tóxica pelo fato dos sites de apostas patrocinarem a maioria dos esportes, não apenas o futebol. Isso fica notório quando envolve também as redes sociais, em que o atleta as enaltece quando lhe são favoráveis ou quando fatura com maior engajamento nelas. No entanto, os que focam no desempenho e conquistas dentro do campo, da quadra ou das pistas, ignoram os chamamentos da internet. Assim deveria ser.

            A relação espúria não é novidade, apenas atingiu uma dimensão inexistente até então. Por muito tempo, as escolas de samba eram financiadas pelo jogo do bicho. Talvez ainda sejam: avoco minha ignorância pueril e inocente para não cravar a afirmação.

            Os mecenas do passado usavam as fortunas para aplacar um pouco a consciência da exploração, fonte de suas riquezas, e os beneméritos assistencialistas de hoje não toleram a igualdade de condições para todos conquistarem benefícios, não apenas que a boa vontade desses privilegiados determinem quem será assistido.

            Vai longe o tempo em que podíamos ouvir uma boa rádio pelo prazer da música e das boas histórias lá contadas sem pensar no fluxo financeiro das coisas que as faziam acontecer.

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Perfil ambiental e político – Adilson Roberto Gonçalves –  pesquisador da  Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista.  Vive em Campinas.


 

 

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