Coisas que mudam a vida. Por Antonio Contente
… foi algo que transformou bastante minha vida. Daí lembrou que, certa vez, despencou no famoso Cassino Fairmont le Manoir Richilieu, em Quebec, Canadá, que está, ainda hoje, entre os cinco ou dez mais estrelados do mundo. No segundo dia se posicionou diante da roleta e, na cadeira vaga à sua ilharga, aboletou-se uma alucinantemente linda moça….

Muitas pessoas têm manias, mas elas só se tornam desfrutáveis para os outros se capazes de mudar comportamentos, o que rende histórias. Experimentei isso dia desses quando, sem nada marcado, encontrei, num bar do Cambuí, meu amigo Bark, próspero homem de negócios que tem vida mais rica do que sua transbordante conta bancária. É que meses antes estivemos juntos no aeroporto, eu a caminho do meu refúgio da Ilha na foz do Rio Amazonas, ele com bilhete para Miami onde faria conexão para Las Vegas. Agora, ali diante de dois chopes, perguntei como tinha sido sua estada na capital mundial dos jogos.
— Ah – ele sorriu – eu adoro um cassino.
Antes, porém, que eu dissesse qualquer coisa, fez questão de acentuar não ser um apostador necessariamente compulsivo. Mas que, desde sempre, gostou de frequentar casas de jogos; inicialmente, nos anos mais, digamos, magros, aqui por perto mesmo, Punta del Este, Paraguai. Depois que os negócios prosperaram, passou a arriscar seu dinheirinho em sítios mais distantes, como o Casino Bellagio, em Las Vegas, ou o Atlantis Resort, em Nassau, nas Bahamas.
— Mas sabe?, — Bark me olha nos óculos – eu não era um jogador comum, pois tinha mania da qual não abria mão: nunca, jamais, em tempo algum, me colocava diante de uma roleta se tivesse algum jogador homem ao meu lado. Tinha que ser mulher.
— Bom – observei – você falou que não “era” um jogador comum, remetendo ao passado. O que mudou?
— Ah — ele sorri – foi algo que transformou bastante minha vida.
Daí lembrou que, certa vez, despencou no famoso Cassino Fairmont le Manoir Richilieu, em Quebec, Canadá, que está, ainda hoje, entre os cinco ou dez mais estrelados do mundo. No segundo dia se posicionou diante da roleta e, na cadeira vaga à sua ilharga, aboletou-se uma alucinantemente linda moça. Imediatamente meu amigo sentiu que a sorte mudaria, daí tascou bom número de fichas no “preto 15”. Em seguida, numa sucessão de três ou quatro rodadas, ganhou todas, enquanto a beldade do seu lado só perdia. De repente, talvez por causa disso, ela levantou para ir embora. Barkilli pensou em lhe oferecer algumas fichas para que ficasse, mas a timidez o tolheu. Daí, enquanto pensava o que iria fazer viu, estarrecido, sentar na cadeira agora vaga um homem, alto e louro. A primeira reação do nosso apostador foi se preparar para debandar; porém o recém chegado, ao se dirigir a um funcionário do cassino, deu formidável desmunhecada, forte indicação de que seria gay. Barkilli coçou a pontinha do nariz, ajeitou o montão (fichas) do que já ganhara e, após gole no uísque, caiu na indagação silenciosamente íntima: “Bom, também não posso dizer que está um machão ao meu lado”. Desta forma, como se estivesse num filme do agente 007, pegou todas as fichas e cravou no “vermelho 17”. Que, espantosamente, deu em cima, fazendo com que ganhasse uma bela fortuna. Imediatamente, para o desgosto da gerência da casa, saiu.
No dia seguinte, com a montanha do dinheiro ganho já na conta bancária, Bark desceu para o barzinho térreo do hotel em que estava hospedado. Foi quando avistou, no lobby, o camarada que na noite anterior sentara ao seu lado no cassino. Rápido, convidou-o para um uísque:
— Acho que foi você que me deu sorte, ontem.
O rapaz prontamente aceitou, mas pediu para ser aguardado no próprio bar, iria pegar uma pessoa e voltaria. O que de fato ocorreu diante do espanto de Bark, pois o capitulado como gay apareceu com estonteante mulher que apresentou como sua esposa, a se derreter em beijos sobre ele. E que outra não era senão a dona que ao lado do apostador brasileiro estivera, na véspera, e se fora.
— Acabou sendo assim – o jogador terminou de me contar, na tarde do Cambuí – que eu atirei para o alto essa história de ter sempre uma mulher a meu lado nos cassinos.
— E tornou a ganhar alguma bolada? – Eu quis saber.
— Não, mas com a grana daquela noite fiz bela expansão nos meus negócios, que quadruplicaram.
Ficamos em silêncio alguns instantes; por fim, eu quis saber: no caso de algum dia sentar a seu lado um gay de verdade se ele jogará todas as fichas no “vermelho 17”.
— Eu? – Respondeu – Nem morta…
Daí, pagou a conta. E se foi.
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ANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

O mundo é pleno de aventuras. Na jogatina sofisticada só frequenta quem tem grana para rasgar , quem vive de ilusão e gosta ou sofre do ganha/perde . Nessa triangulação , o jogador topa tudo , não importando o resultado . Nada abala o aventureiro, as emoções pasteurizadas são o retrato de um vazio sem fim . Mas há sempre quem goste de abismo ….
Uma crônica sem defeito !