Com a palavra, Shylock. Por Wladimir Weltman

…Em 1596, William Shakespeare colocou na boca de Shylock, personagem de O Mercador de Veneza, uma das mais poderosas reflexões já escritas sobre a condição judaica:“Acaso um judeu não tem olhos? Acaso um judeu não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? …

Shylock

Tem sido complicado viver os últimos tempos.

Tudo à nossa volta parece mais hostil. Refiro-me ao crescente antissemitismo que paira no ar. Notícias de ataques a judeus nos quatro cantos do mundo. Manifestações públicas de jovens, professores universitários, líderes políticos e celebridades contra Israel. E, cada vez mais frequentemente, contra os judeus em geral.

Independentemente de certas críticas ao Estado de Israel terem motivações humanitárias legítimas, chama atenção a disparidade com que Israel é julgado quando comparado a outros países envolvidos em conflitos igualmente sangrentos e controversos.

O que mais dói, porém, é ver pessoas por quem tenho respeito e afeto apontando dedos para todos nós, judeus, como se fôssemos coletivamente responsáveis por cada decisão tomada por um governo distante.

Não que isso me surpreenda. Grupos minoritários aprendem cedo que a aceitação costuma ser provisória. Negros, judeus, latinos, ciganos, homossexuais e tantas outras minorias sabem que basta uma mudança de ventos para que se tornem novamente alvo de preconceito.

Mas, como acontece com qualquer judeu em algum momento da vida, surge inevitavelmente a pergunta:

Por quê?

Em 1596, William Shakespeare colocou na boca de Shylock, personagem de O Mercador de Veneza, uma das mais poderosas reflexões já escritas sobre a condição judaica:

“Acaso um judeu não tem olhos? Acaso um judeu não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? Alimentado pela mesma comida, ferido pelas mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e resfriado pelo mesmo inverno e verão que um cristão? Se nos espetarem, não sangramos? Se nos fizerem cócegas, não rimos? Se nos envenenarem, não morremos?”

Mais de quatrocentos anos se passaram desde que Shakespeare escreveu essas palavras, mas elas continuam atuais.

Se somos seres humanos como quaisquer outros, por que continuamos sendo julgados de forma diferente?

O antissemitismo é um preconceito particularmente estranho. Diferentemente de outros tipos de discriminação, ele frequentemente se apresenta como racionalidade. É comum que seus defensores afirmem estar apenas criticando banqueiros, globalistas, sionistas, capitalistas, comunistas, intelectuais ou qualquer outra categoria à qual os judeus tenham sido associados ao longo dos séculos. Mas o resultado final costuma ser sempre o mesmo: a responsabilização coletiva de um povo inteiro por problemas complexos.

Parte dessa confusão talvez decorra da própria dificuldade de definir o que é um judeu.

Muitos imaginam que judaísmo seja apenas uma religião. Não é.

Os judeus são também um povo, uma cultura, uma tradição histórica e, para muitos, uma identidade nacional. Talvez por isso sejamos tão difíceis de encaixar nas categorias convencionais. Não somos apenas uma fé, uma etnia ou uma nacionalidade. Somos um pouco de tudo isso ao mesmo tempo.

Talvez seja justamente essa complexidade que gere tanta incompreensão.

Ontem participei, aqui em Los Angeles, de uma premiação dedicada à comunidade LGBTQ+, promovida pela Critics Choice Association, da qual faço parte.

Entre os homenageados estava a atriz Hannah Einbinder, premiada por seu trabalho na série Hacks. Hannah é judia e já manifestou publicamente apoio à causa palestina. Ao apresentá-la, uma colega fez questão de destacar seu ativismo político. Parte da plateia aplaudiu entusiasticamente.

Nada de errado com isso.

Mas, enquanto observava a cena, não pude evitar uma reflexão.

Estávamos reunidos para celebrar uma comunidade que, assim como os judeus, sofreu perseguições, discriminação e violência ao longo da história. E, ainda assim, naquele ambiente que deveria representar empatia para com grupos vulneráveis, percebia-se uma hostilidade latente dirigida justamente a outro grupo historicamente perseguido.

Enquanto bebericava uma taça de vinho branco, pensei em quantas vezes a história repete seus padrões.

Os judeus representam cerca de 16 milhões de pessoas em um planeta com mais de oito bilhões de habitantes. Somos aproximadamente 0,2% da população mundial. Um dos menores grupos humanos do mundo.

Ainda assim, parecemos ocupar um espaço desproporcional no imaginário coletivo.

Poucos povos são tão discutidos. Poucos são tão observados. Poucos são tão frequentemente responsabilizados pelos males do mundo.

Não estou dizendo que Israel esteja acima de críticas. Nenhum país está.

Também não estou dizendo que judeus sejam melhores que qualquer outro povo. Não somos.

Somos apenas seres humanos.

Com virtudes e defeitos.

Com acertos e erros.

Como todos os demais.

Por isso, talvez a pergunta de Shylock continue sendo a melhor forma de encerrar esta reflexão.

Se temos os mesmos olhos, as mesmas mãos, os mesmos sentimentos e as mesmas fragilidades que qualquer outra pessoa, por que continuamos sendo vistos como algo diferente?

Confesso que, depois de tantos anos observando o mundo, ainda não tenho uma resposta satisfatória.

Mas continuo fazendo a pergunta.

Shylock
Wladimir Weltman. na premiação dedicada à comunidade LGBTQ+, promovida pela Critics Choice Association

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WLADIMIR WELTMAN – é jornalista, roteirista de cinema e TV e diretor de TV. Cobre Hollywood, de onde informa tudo para o Chumbo Gordo.

_________________________(DIRETO DE LOS ANGELES)

 

2 thoughts on “Com a palavra, Shylock. Por Wladimir Weltman

  1. Hoje fiz comentário, censurado e não publicado, em site de notícias do Espírito Santo que, eventualmente, colaboro. O artigo foi escrito por Luís Manuel Arce e em espanhol, traduzido e publicado com autorização do autor. O artigo é sobre a participação do Irã e o mundo muçulmano na nova ordem geopolítica mundial e a perda da hegemonia dos USA em investidas a partir da guerra do Iraque os acontecimentos atuais com o Irã. E a liderança do atual Khamanei nessa nova ordem mundial.
    Fiz meu comentário a partir das leituras dos livros “Retorno à questão judaica “ e O Eu Soberano- estudo sobre as derivas identitárias “, ambos de Elizabeth Roudinesco, Zahar. A autora deixa claro que Pedófilos e Terroristas são insanos e não devem ser tolerados em nenhuma sociedade de nosso planeta. Li os livros porque era desinformada nesses assuntos e os acontecimentos de outubro de 2024 (?) em Israel me ocasionaram curiosidade. Aprendi o mínimo para não me alienar. Sou católica praticamente e assisti O Mercador de Veneza, com Al Pacino. Magnífico.

  2. O meu comentário no site de notícias do ES foi publicado, depois que reclamei com o editor. O único comentário. Quem cala consente. Ler que o atual Ayatolá é liderança positiva na região árabe, um país como o Irã que é uma Teocracia autoritária, ditadura que financia grupos terroristas? A China em domínio naquela região e Irã e Rússia seus vassalos?
    Ainda bem que li os dois livros de Elizabeth Roudinesco. Do contrário, não entenderia a inculcação, altamente ideológica, do ensaísta espanhol. A Humanidade e seus povos: os Incas, os Maias, os Astecas etc. Até hoje homenageamos os filósofos gregos, os primeiros romanos e assim em diante.

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