Amo as sereias, quem me conhece sabe que até as coleciono. Adoro suas lendas, mas sei bem e não me calo também sobre o que envolve a sua sedução, o canto de promessas e mentiras, dissertando sobre aventuras que levam os iludidos a naufragar, sem controle.

SEREIA

No momento esse imenso navio é o Brasil. Não é só uma sereia que nesse momento entoa o canto melodioso e confuso que enquanto fala em liberdade pode, ao invés disso, tomá-la de assalto; é um sobrenome cercado de gente estranha, de tubarões e outros seres saídos sabe-se lá de qual buraco sombrio, talvez digitais, muitos jovens. Não lembro de na vida ter ouvido tantas bobagens como a que sai dessas bocas que, aliadas, já nos infernizam abertamente antes até do fim desta viagem que pode acabar muito mal.

Não adiantará taparmos nossos ouvidos – essa “sereia”, da enorme e terrível familícia, mais os seus aliados, lembram a turma da bruxa Úrsula, mulher, sereia de tentáculos vorcarianos de polvo, da história de Ariel, A Pequena Sereia, e que dela rouba a voz com promessas. Maligna, envolvendo o povo com seus acordos perigosos em troca, sim, de suas almas e vozes.  O horror de um pulo ao desconhecido. Mais um salto na história que na realidade sabemos – já vivemos outras vezes – onde pode levar.

Na ânsia de muitos que seja alcançado um lugar seguro, diferente, trocando o certo (ok, mais ou menos certo, mas ao menos bem conhecido) pelo duvidoso, nossas pernas podem se trançar, trazendo muita dor como no conto (Hans Christian Andersen, 1837) da sereinha que, por um príncipe, trocou seu belo rabo.

As sensações e a angústia que vejo também em meus pares, que ainda acreditam obstinadamente na possibilidade de salvação tem feito nesses dias meu coração disparar como nunca. Dou graças a recentemente ter passado por um check-up total analisado pelo meu querido cardiologista Charles Mady. Senão, diria até que essa palpitação, essa verdadeira dor que sinto, ampliada essa semana, seria um problema. Tudo bem. O diagnóstico atual é de uma ansiedade enorme, baseada na intuição cultivada ao longo de décadas de vida, de jornalismo, de política, de campanhas, de detecção até espiritual que tantas vezes me salvou, me livrou do mal, alertando. Um radar que não para de apitar. Na verdade, gritar. Mas sozinho ninguém faz um verão. E nem todos verão, infelizmente, o que me parece tão transparente.

Ainda na   historinha infantil, baseada em fábula que desde menina me fascina, lembro dos alertas de perigo dados à sereinha, do desespero do Linguado, do caranguejo Sebastian. Vejo a gaivota Sabichão que, com conselhos errados, impulsiona Ariel a acreditar no tal reinado em terra firme.

Tudo muito errado, esquisito, lento e precipitado, nos dividindo ainda mais. Essa sereia terrível não canta, mas está produzindo uma espuma doce e pegajosa de atração ao tal poder, atraindo para si quem dele quer se lambuzar, como moscas, derrotados rancorosos em busca de pequenas vitórias que os mantenham. Vitórias de Pirro. Aquela, do sucesso inútil, que se equipara ao tamanho da imensa derrota, que só conhecerão de verdade quando traídos e jogados ao mar. Naufragarem. Virarão espuma, arrependidos.


MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, com passagem por alguns dos principais veículos, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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