James Baldwin e eu. Por Wladimir Weltman
… Nesse depoimento emocionante, transmitido ao vivo pela televisão americana em 1968, Baldwin desabafava diante de um público majoritariamente branco sobre a dor de sentir-se um pária em seu próprio país. A dolorosa consciência de ser um proscrito apenas por causa da cor de sua pele…

Hoje assisti a um vídeo antigo do escritor negro americano James Baldwin participando do programa The Dick Cavett Show, em 13 de junho de 1968. Nele, Baldwin explicava, de forma apaixonada, os sentimentos que o levaram a deixar os Estados Unidos, em 1948, para viver na França.
“Quando deixei este país em 1948, parti por apenas uma razão, uma única razão… Não me importava para onde ia. Poderia ter ido para Hong Kong, poderia ter ido para Timbucu. Acabei em Paris, nas ruas de Paris, com 40 dólares no bolso e a teoria de que nada pior poderia me acontecer lá do que já havia me acontecido aqui. Quando se fala em vencer como escritor por conta própria, é preciso ser capaz de ativar todas as antenas pelas quais se vive, pois, uma vez que se vira as costas para esta sociedade, pode-se morrer. Pode-se morrer. E é muito difícil sentar-se diante de uma máquina de escrever e concentrar-se nisso se você tem medo do mundo ao seu redor. Os anos que vivi em Paris fizeram algo por mim: libertaram-me daquele terror social específico – que não era uma paranoia da minha própria mente, mas um perigo social real, visível no rosto de cada policial, de cada patrão, de todas as pessoas. Não sei o que a maioria dos brancos neste país sente. Mas só posso inferir o que sentem a partir da situação de suas instituições. Não sei se os cristãos brancos odeiam os negros ou não… Sei que não posso me dar ao luxo de confiar na maioria dos cristãos brancos e, certamente, não posso confiar na igreja cristã. Não sei se os sindicatos e seus líderes realmente me odeiam. Isso não importa, mas sei que não faço parte de seus sindicatos. Não sei se o lobby imobiliário tem algo contra os negros, mas sei que o lobby imobiliário me mantém no gueto. Não sei se o conselho de educação odeia os negros, mas conheço os livros didáticos que dão aos meus filhos para ler e as escolas que somos obrigados a frequentar. Ora, essas são as evidências. Você quer que eu faça um ato de fé, arriscando a mim mesmo, minha esposa, minha mulher, minha irmã, meus filhos, em nome de um certo idealismo que você me garante existir na América – algo que eu nunca vi.”
(https://vimeo.com/349281820)
Nesse depoimento emocionante, transmitido ao vivo pela televisão americana em 1968, Baldwin desabafava diante de um público majoritariamente branco sobre a dor de sentir-se um pária em seu próprio país. A dolorosa consciência de ser um proscrito apenas por causa da cor de sua pele.
Ao ouvi-lo, senti algo se mover profundamente dentro de mim.
Nos últimos anos, desde o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, um sentimento semelhante tem me acompanhado. Ao ler manifestações de amigos, conhecidos e celebridades nas redes sociais sobre Israel, Gaza, o Oriente Médio, o sionismo e os judeus em geral, frequentemente me reconheço em parte da angústia descrita por Baldwin – evidentemente, em um contexto histórico e social diferente.
Quando tento explicar a amigos não judeus o que significa ser judeu em muitos ambientes, costumo recorrer a uma imagem que me ocorreu há muitos anos: ser judeu entre não judeus é, muitas vezes, como ser um negro de pele branca.
Quero dizer: carregar uma condição que desperta preconceitos que nem sempre são percebidos por quem os manifesta. Ser julgado ou tratado de maneira diferente sem que o outro sequer tenha consciência disso.
Quantas vezes, no Brasil, ao descobrirem minha origem judaica, ouvi alguém comentar, com a maior naturalidade:
– “Você é judeu? Mas nem parece.”
Sempre tive vontade de responder:
– “Por quê? Você esperava que eu tivesse chifres ou rabo?”

Poderia enumerar inúmeras ocasiões em que senti na pele manifestações de antissemitismo – algumas explícitas, outras sutis. E confesso que, hoje, essa sensação de vulnerabilidade voltou a crescer.
Curiosamente, acabei me exilando não em Paris, como Baldwin, mas justamente na mesma América que lhe causava tanto sofrimento.
Paradoxalmente, a Califórnia ainda me parece um dos lugares mais seguros para um judeu viver, talvez pela presença histórica e expressiva da comunidade judaica em Los Angeles. Ainda assim, essa sensação de segurança está longe de ser absoluta e não basta para me deixar tranquilo. Afinal, depois de Israel a cidade do mundo com o maior numero de judeus é Nova York, e hoje reina sobre ela o prefeito mais antissemita da história da cidade – Zohran Mamdani.
Durma-se com esse barulho…
Mas escrevo estas linhas na esperança de que amigos e colegas consigam compreender um pouco melhor como muitos judeus têm vivido este momento. Independentemente das posições políticas de cada um sobre Israel ou sobre o conflito no Oriente Médio, há um sentimento crescente, entre muitos de nós, de insegurança e de isolamento diante do aumento de manifestações antissemitas.
É esse sentimento – mais do que qualquer debate político – que me fez lembrar das palavras de James Baldwin.
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WLADIMIR WELTMAN – é jornalista, roteirista de cinema e TV e diretor de TV. Cobre Hollywood, de onde informa tudo para o Chumbo Gordo.
_________________________(DIRETO DE LOS ANGELES)

Wladimir, antes de proferir afirmativas duvidosas seria bom comparar 3 fortes definições de antisemitismo. IHRA , JDA , NEXUS .
Digo isso no âmbito social, a ênfase na minha sensação individual é menor, talvez pelo lugar em que vivo , onde também há outras manifestações de intolerância presentes , como racismo , religião, gênero e mais…
Querido Henrique,
Respeito seu comentario, mas acho que voce esta muito isolado no seu paraiso baiano para entender do que falo. Mesmo assim obrigado por comentar. E como diz um certo comico – as vezes o paranaico esta realmente sendo perseguido…
WW
Concordo com tudo o que você disse, mas gostaria de acrescentar algo.
O inacreditável, assustador, inexplicável, inédito, é hoje haver judeus APOIANDO os que nos odeiam!!!!!
“Pesquisas e análises pós-eleitorais mostraram que aproximadamente 33% dos eleitores judeus de Nova York votaram em Zohran Mamdani nas eleições”
Isso para falar em Bernie Sanders, Filkenstein, Noam Chomsky e muitos outros.
Eu sempre digo que são piores do que os Kapos, esses citados não correm risco de vida.
Concordo com tudo o que você disse, mas gostaria de acrescentar algo.
O inacreditável, assustador, inexplicável, inédito, é hoje haver judeus APOIANDO os que nos odeiam!!!!!
“Pesquisas e análises pós-eleitorais mostraram que aproximadamente 33% dos eleitores judeus de Nova York votaram em Zohran Mamdani nas eleições”
Isso para falar em Bernie Sanders, Filkenstein, Noam Chomsky e muitos outros.
Eu sempre digo que são piores do que os Kapos, esses citados não correm risco de vida.
acho insuportavel ver gente armada matando e massacrando gente desrmada velhos mulheres e criancas em pleno seculoXX e XXI . sempre me lembra o inicio da humanidade com assirios e babilonios . Todos os mandamentos indicam quao sedentos de sangue sao esta especie maldita , nao matar ,nao roubar , nao cobicar e o pior amar a deus sobre todas as coisas.