Mais união. Precisamos falar sobre isso. Agora. Por Marli Gonçalves
É muita coisa errada. Lixo, destruição de árvores, calçadas sendo varridas com mangueiras, construções irregulares, perigos e perturbações de toda sorte, e pelo que praticamente todas as cidades passam. Você sai por aí, vê, sofre e se sente sozinho, amedrontado, incapaz, silenciado, impotente. Ameaçado quando reclama.

Quase uma conclamação: precisamos aprender a nos unir para tentar nos fazer ouvir, uma vez que pouco está adiantando solitariamente recorrer aos canais oficiais, e as barbaridades se aglomeram. Sou testemunha – tenho quase um “colar” de registros feitos, pedidos, à Prefeitura de São Paulo, que não deram em nada, no canal oficial Portal 156. Estão lá, todos até irritantemente marcados como atrasados, por exemplo, um, em 894 dias; outro, em 119 dias. Esse automático deles sabe contar, mas não resolver. As administrações regionais aqui da cidade tomadas como feudos eleitorais e partidários.
Semana passada, em uma exposição de arte – aliás, imperdível, de Alex Flemming no Palacetes da Sé, Centro velho de São Paulo, um espaço histórico – encontrei um amigo, e depois outro que passava se juntou à conversa; não se conheciam. Chamou a atenção a confluência de preocupações e a mesma descrença em obter atenção para o cotidiano. São Paulo tem sérios problemas de zeladoria, de desrespeito às regras mínimas, falta de fiscalização. Já era ruim, mas agora e além disso com a transformação imobiliária desmedida em todas as regiões, beira o insuportável.
Ah, claro, ouviremos que há fiscalização. O que parece apenas provar que – e de forma evidente – se há fiscais, a corrupção continua campeando, e que muitos comerciantes e empresários ainda preferem molhar mãos do que pagar multas ou resolver os problemas.
Acompanho há tempos, pelas redes sociais. Um desses amigos, morador no Centro, está até rouco de tanto reclamar do barulho, de festas madrugada adentro no seu vizinho Edifício Itália, as gigantescas concentrações e shows no Vale do Anhangabaú, da balbúrdia dos bares na praça Dom José Gaspar. Essa lista vai longe. Outro dia viu sendo cimentado o pé de uma árvore, e quando interviu, ouviu o que eu também estou cansada de escutar (e obviamente revidar, no tom merecido), “o que é que ele tinha a ver com isso?”.
É assim sempre. Com o perigoso sabão jogado no passeio, como se todos gostassem de cair ou ficar com pés molhados pelas mangueiras, ser atropelados ao seguir pela rua. O desaforo dos motoqueiros, ciclistas e etc. na contramão, furando faixas. O absurdo dos bueiros tampados pelo cimento despejado das obras. O lixo espalhado e em árvores. A privatização dos espaços públicos com parklets, cada vez maiores e que viraram extensão de mesas de bares e restaurantes. Desrespeitos à Lei Cidade Limpa. Ih, a lista é interminável. Tudo perto de nós, na porta de nossas casas.
Não devemos, acredito, sermos poucos a notar ou atingidos. A imprensa engole notas oficiais vazias quando instada a denunciar. Precisamos de mais, nos unir, nos juntar, fazer “barulho”. Aliás, para tudo. Lembrando que em tempos eleitorais “eles” não gostam de ser expostos – quem sabe consigamos soluções? Não custa tentar.
MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, com passagens por alguns dos principais veículos, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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