André Mendonça

… Azevedo não fala, mas existe um ditado popular português bem conhecido, no qual se critica a auto estima -“elogio em boca própria é vitupério”. E a irritação do conhecido cronista político fica bem evidente no título do vídeo YouTube do Metrópoles, com a pergunta: Mendonça é imparcial?, pondo em dúvida essa imparcialidade…

ANDRÉ MENDONÇA

Foi o Reinaldo Azevedo quem levantou a lebre no canal Metrópoles e, seguindo seu raciocínio, é bom ficar de orelhas em pé. Azevedo estranhou a criação de um podcast pelo ministro André Mendonça, no canal do seu Instituto Iter S.A., canal inaugurado com uma longa entrevista do ministro, na qual Mendonça fala bem de si mesmo.

Azevedo não fala, mas existe um ditado popular português bem conhecido, no qual se critica a auto estima -“elogio em boca própria é vitupério”. E a irritação do conhecido cronista político fica bem evidente no título do vídeo YouTube do Metrópoles, com a pergunta: Mendonça é imparcial?, pondo em dúvida essa imparcialidade.

“Não é corriqueiro que um ministro tenha um Instituto como ele tem e crie um podcast, em que o entrevistado é ele próprio por alguém que ele mesmo escolheu”, comenta Azevedo, escolhendo um trecho especial da fala do ministro, no qual ele acentua “não vamos perseguir ninguém”, frase dando a entender que possa haver perseguição… Entretanto, assinala o mordaz Azevedo, nos inquéritos “só vaza coisa de um só lado e isso deve ser do interesse do ministro. Para que a apuração dos inquéritos seja isenta, não deve vazar de lado nenhum. E esses vazamentos são ilegais”.

Azevedo estranha também haver intervenção do STF na Polícia Federal, coisa que nunca antes aconteceu, ou seja, Mendonça se comporta como se fosse um delegado, sem se apoiar em nenhuma lei.

“Imaginem se o Alexandre, o Gilmar e o Dino fizessem seu próprio podcast?” pergunta Azevedo referindo-se à reação da grande imprensa se isso acontecesse!

Entretanto, para se entender o comportamento e o procedimento do ministro Mendonça dentro do STF, seria preciso – e isso faltou na análise de Azevedo – se retornar a um sermão pronunciado pelo também pastor André Mendonça, na Igreja Assembleia de Deus, Vitória em Cristo de Silas Malafaia, logo depois de confirmado ministro do STF, em 9 de dezembro de 2021.

Apesar de sua formação universitária, existe nele uma crença estranha, talvez motivada pelo dogmatismo do reformador Jean Calvino, cuja teologia defende a doutrina da Predestinação, segundo a qual Deus sempre soube, mesmo antes da criação do mundo, quais as pessoas que seriam salvas ou escolhidas.

Nessa pregação, diante dos devotos fiéis pentecostais, André Mendonça praticamente se comportou como um predestinado ou escolhido de Deus. Em outras condições e sem curso universitário, já houve muitos que se consideravam escolhidos por Deus pelo Brasil afora, o mais conhecido foi o líder popular do Arraial de Canudos, Antônio Conselheiro, que poderia ser considerado como um dos revolucionário messianista, morto em 1897 na Guerra de Canudos, na Bahia.

Sem considerar absurdo, piada, exagero ou caso de psiquiatra, a imprensa aceitou sem criticar a predestinação do ministro e sua pretensão de ser uma escolha divina. Por sua vez, André Mendonça, o ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça, declarou com toda seriedade que sua eleição para o cargo de ministro do STF “já estava determinada por Deus desde antes da fundação do mundo”. Para ele, “Deus já havia escrito a história“.

E com toda seriedade acrescentou: “Eu nunca tive dúvidas das promessas de Deus, do que Deus tinha me dito anos atrás. Não via como se realizaria, mas sabia que ele tinha prometido”.

Ao encerrar o culto, o ato religioso pentecostal, Silas Malafaia concordou com o testemunho feito durante a pregação e afirmou que Mendonça seria o instrumento de Deus no STF.

Imagino não ser majoritária essa opinião, mesmo porque, como acentua Azevedo, o ministro não compartilhava da opinião dos demais membros do STF sobre a tentativa de golpe de Estado no 8 de janeiro de 2023. Ou seria também essa a opinião de Deus?

O desenrolar dos casos Master e INSS talvez nos digam, com ou sem intervenção divina.



Algumas referências:

https://youtu.be/H2lQD4LVvAI?si=SjioYs9YyT3iwDk7

https://politicamacuxi.com.br/2025/11/11/instituto-de-mendonca-foi-contratado-por-mais-de-15-estados/

https://www.cartacapital.com.br/politica/instituto-de-andre-mendonca-lucra-com-municipio-que-tomou-prejuizo-no-banco-master/

André Mendonça fala aos evangélicos como pastor sobre sua escolha divina

https://youtu.be/EsgeUb3RBN8?si=VGW5OLOEqGIjiLBT

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/assista-andre-mendonca-e-alexandre-de-moraes-discutem-durante-sessao-do-stf-sobre-8-1/

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  • Rui Martins também está em versão sonora no Youtube, em seu canal –

https://www.youtube.com/@rpertins


Rui Martins – Direto da Suiça – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI

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