Eldorado

A cidade de ouro nunca foi encontrada, mas a expressão ficou. É hoje usada em sentido metafórico, indicando um lugar onde se pode enriquecer depressa ou que oferece boas oportunidades a todos.

Eldorado

Os primeiros aventureiros europeus levavam grande vantagem em relação aos viajantes atuais: na falta de imagens gravadas e de testemunhas, podiam contar o que quisessem. Na volta da viagem, El-Rei e toda a corte estavam ávidos por conhecer as novidades das novas terras. E os viajantes contavam exatamente o que lhes interessava e o que lhes aumentasse o prestígio.

Houve relatos fantásticos de mulheres amazonas cavaleiras que decepavam o próprio seio para facilitar o porte de um escudo de ferro que as protegia durante a batalha. Essa história é uma mentira particularmente mal costurada. Sabe-se que, na América, não havia cavalos. Sabe-se também que os indígenas amazônicos não conheciam o trabalho do ferro. Por fim, essa coisa de decepar o próprio seio é o cúmulo da história mal ajambrada. Mas os cortesãos acreditavam, aplaudiam e pediam mais.

Um mito persistente, de autoria desconhecida, foi o do El Dorado. A historinha original era do rei de uma região da atual Colômbia, que se cobria inteirinho de ouro em pó e se limpava mergulhando na Laguna Guatavita, uma caldeira vulcânica (boca de vulcão extinto) que o tempo preencheu d’agua, formando um lago. De “homem coberto de ouro em pó”, o mito aos poucos se transformou e virou uma cidade de ouro. Era esse o El Dorado que diversos exploradores procuraram.

A cidade de ouro nunca foi encontrada, mas a expressão ficou. É hoje usada em sentido metafórico, indicando um lugar onde se pode enriquecer depressa ou que oferece boas oportunidades a todos.

As autoridades migratórias brasileiras informam que, nos últimos dez anos, mais de meio milhão de estrangeiros vindos em busca de um país que os acolhesse, que lhes permitisse se instalar e recomeçar a vida com a família. Boa parte desses imigrantes chegou sem grandes posses além da roupa do corpo. Ainda que mal preparadas para chegada tão maciça, nossas autoridades têm lidado bem com o problema. Os novos chegantes vêm recebendo acolhida humana e amável. Os brasileiros, em parte descendentes de imigrantes pobres, não se esqueceram de como a família aqui aportou.

Por seu lado, 4 mil brasileiros que viviam indocumentados nos EUA já foram deportados desde que Donald Trump assumiu a Presidência. A esse contingente, é preciso acrescentar outro maior ainda: 17 mil permanecem agrupados e detidos em centros especializados, à espera de serem deportados.

O objetivo de nossos compatriotas que buscaram fincar pé nos EUA não era delinquir, mas recomeçar a vida do nada, dando duro, a fim de dar melhor futuro à família. Se um ou outro descambou, o xerifado americano já deve ter cuidado de tirá-lo do convívio com a sociedade.

O objetivo dos novos imigrantes que chegam no Brasil é exatamente o mesmo. Não vieram de terras distantes para descambar aqui. Muitos deles, em especial os que já viveram uma guerra, querem sossego e paz.

O governo Trump, além de causar pasmo e temor ao redor do planeta, causou pânico em estrangeiros indocumentados que vivem nos EUA. Eram gente que trabalhava tranquila e honestamente, e que hoje se esgueira pelas esquinas e não ousa mais participar da vida em sociedade. O povo americano, que em grande maioria descende de imigrantes pobres, se esqueceu desse detalhe do passado. Caçam e expulsam hoje os estrangeiros pobres cujo único crime era estar dando seu quinhão à contínua construção daquele gigantesco país.

Felizmente, nosso povo é de outra índole. Talvez porque continua a viver cercado de pobreza, o brasileiro não se esquece de que um dia também foi pobre.

Pode até ser que esta minha conclusão seja otimista demais, mas prefiro acreditar que seja assim.

Nossos recém-chegados refugiados podem até, um dia, descobrir que o eldorado que imaginavam não está bem aqui. Sairão, se quiserem. Mas não serão expulsos.

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JOSÉ HORTA MANZANO – Escritor, analista e cronista. Mantém o blog Brasil de Longe. Analisa as coisas de nosso país em diversos ângulos,  dependendo da inspiração do momento; pode tratar de política, línguas, história, música, geografia, atualidade e notícias do dia a dia. Colabora no caderno Opinião, do Correio Braziliense. Vive na Suíça, e há 45 anos mora no continente europeu. A comparação entre os fatos de lá e os daqui é uma de suas especialidades.

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