Palavras ao vento. Por Antonio Contente
Palavras… rumo do bar da rua de cima, quando vi, no pé de uma sibipiruna, pequena folha de papel almaço, dos que se usava antigamente, manuscrita. Só de colocar os olhos sobre me passou rapidamente pela cabeça que poderia se tratar de um bilhete de amor…

Era de manhã, manhã fria, de céu baixo. Eu subia a rua Maria Encarnação Duarte no rumo do bar da rua de cima, quando vi, no pé de uma sibipiruna, pequena folha de papel almaço, dos que se usava antigamente, manuscrita. Só de colocar os olhos sobre me passou rapidamente pela cabeça que poderia se tratar de um bilhete de amor. Abaixei, juntei, dobrei e, sem ler uma única ou escassa palavra, coloquei no bolso.
Devo dizer que exercitei uma espécie de ritual para decodificar o achado. Uma vez no barzinho peguei uma cerveja, catei algo para salgar a boca, e só então coloquei o papel, ainda dobrado, sobre a mesa. Fiz conjecturas sobre o teor da mensagem. Nenhuma, porém, chegou pelo menos perto do que estava prestes a ler. Pois sobre cada linha da folha, como já disse de almaço, li o seguinte: “Amada J, não me conformo. Ao me abandonar você praticamente aniquilou com a minha vida. Você não atende meus telefonemas, não me dá bola, me trata como se eu fosse um cão sarnento. Voltar sei que é impossível, mas, pelo menos, fale comigo, pois sinto, inclusive, saudades da sua voz. Eternamente seu, A”.
Li e reli, sem exagero, dezenas de vezes. E devo dizer que desde logo me solidarizei com o sofrido A. Uma letra apenas que poderia ser de Alberto, Asdrúbal, Anastácio, Alberico, ou, até, Antonio, como eu.
Sobre como a mensagem foi parar no pé da sibipiruna, levantei algumas hipóteses. A primeira que talvez J, moradora da rua, simplesmente recebera o escrito e o descartara. Que razões teve para fazer isso sem picar o papel, ou simplesmente amassá-lo antes de jogar fora, não atinei. Talvez quisesse que alguém achasse e lesse. Ou, ao perceber que o remetente era o apaixonado A, jogou o escrito ao vento, sem ler. Afinal as lufadas que dobram esquinas se, como a água, não lavam, pelo menos espalham para lugares incertos e não sabidos o que a elas atiram. Caso eu descobrisse o endereço da provavelmente lindíssima J, iria até sua casa com o manuscrito na mão.
— Sabe? – diria – Quaisquer que tenham sido suas razões, nada justifica submeter uma criatura que a ama tanto a tão duro sofrimento. Fale com o A.
De outro lado caso o contato que me fosse permitido ter levasse ao fulano, diria:
— Cuidado, rapaz, não deixe documentos escritos sobre suas penas, suas magoas, pois eles podem acabar junto a um tronco de sibipiruna…
Já se passara mais de uma hora desde que fizera o achado, no instante em que um rapaz sentou em mesa encostada ao murinho que dá para a rua. Súbito, nem quinze minutos depois, encosta um carro azul diante do moço. Dele salta bela guria de olhar cintilante. Diz:
— Você queria falar comigo?
— Claro, estou aqui porque sabia que você ia passar.
Daí pagou, saiu e entrou no veículo. Que subiu no rumo do Shopping Center Iguatemi.
Ora, amigos, vamos falar a verdade, aquele simples acontecimento em uma fria manhã de final de Inverno me inundou com o calor da alegria. Pois tive certeza absoluta que a moça era a J, destinatária do bilhete que ainda permanecia em meu bolso; e ele A, o autor do comovente apelo.
Bom, isso tudo aconteceu faz pouco mais de um ano, com os frios a passar pela Chácara da Barra. Quando foi ontem, sempre no meu horário matinal, despenquei no bar. Desta vez veio sentar comigo o bom Camilo Seixas, freqüentador assíduo do local. Conversávamos; subitamente tomei baita susto ao avistar, na calçada do outro lado da rua, casal a empurrar um carrinho de criança. Como imediatamente reconheci as figuras de mais de 12 meses passados, não pude deixar de perguntar ao meu amigo de quem se tratava, uma vez que a dupla o cumprimentou.
— Ah – ele respondeu – é o Norberto e a Claudinha. Acabam de ter um filho.
Ouvindo os nomes naturalmente percebi que não se tratava da J e do A da mensagem que encontrei no pé da sibipiruna. Tomou-me logo uma sensação de fundo desalento. Pois com certeza a moça de um ano antes continua na sua, a exercer a crueldade própria das mulheres lindas. Enquanto o ex-namorado poderá estar, sempre abatido irremediavelmente pela paixão impossível, jogado em algum canto de sombria rua do centro, quem sabe uma das travessas da Treze de Maio.
Sem outra alternativa, dei um gole. E cocei a ponta do nariz.
__________
ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
