Para não desperdiçar. Por Antonio Contente
Desperdiçar? Foi ao sair do veículo para verificar o estrago que ela percebeu que se encontrava num lugar medonho, ao lado de descascadas paredes de uma grande fábrica desativada, num leito carroçável de paralelepípedos desalinhados, como se fosse cenário de um filme de vampiro ou lobisomem.

Era uma mulher belíssima, santo Deus, era mesmo uma mulher belíssima. Naturalmente, sabia disso, tinha consciência da coisa. Tanto que, mais de uma vez, se definiu como sendo alguém “bonita, cheirosa e gostosa”. Exatamente nessa ordem, bonita, cheirosa e gostosa.
Vamos, agora, encontrar a fantástica criatura dirigindo seu Volvo, quase novo, por uma rua nada movimentada na parte velha da cidade. O que ela fora fazer em local tão ermo? Ora, muito simples: consultar uma cartomante. Súbito, como um acontecimento que nem a advinha poderia prever nossa heroína escuta um estouro. Após, a folga na direção.
— PQP – rosna – estourou um pneu.
Foi ao sair do veículo para verificar o estrago que ela percebeu que se encontrava num lugar medonho, ao lado de descascadas paredes de uma grande fábrica desativada, num leito carroçável de paralelepípedos desalinhados, como se fosse cenário de um filme de vampiro ou lobisomem. Estação do ano? Inverno. Névoas se adensavam no ar de noite recém formada.
No que a moça bonita, cheirosa e gostosa se preparava para começar a sentir medo, encosta, ao lado, um belo veículo. Dele, salta um quarentão muito boa pinta.
— Pelo jeito você está precisando de socorro – ele murmura.
— Furou o pneu – ela aponta – e a única coisa que sei a respeito deles é que são de borracha e redondos.
— Ora—o galã sorri – não se preocupe. Eu sou expert.
— Em pneus? – Ela levanta as sobrancelhas.
— Também.
— Quer dizer que você vai trocar pra mim?
— Olha – ele mostrava segurança – para lhe dizer a verdade minha intenção é essa.
— Puxa, agradeço imensamente.
— Tudo bem, só que há outro detalhe: não vou colocar seu estepe sem mais nem menos. Quero algo em troca.
— Não seja por isso – ela ergue a bolsa – é mais do que natural que eu lhe dê algum dinheiro.
Ao terminar a frase a dona verifica que cometera um engano. Afinal, estava em sua frente um sujeito bem posto, que acabara de sair de um automóvel caro. Ela ia acrescentar algo. Só que o moço corta:
— Olha, não estou a fim do seu numerário. Quero alguma coisa em troca dos meus serviços, mas não é bufunfa.
— Santo Deus – a beldade se altera – não me diga que estou lidando com um cafajeste?
— Pode ser – ele não se move.
— Ora, faça-me o favor.
— Como quiser – ele exalava calma.
Rápido, o camarada entrou no carrão, e partiu, numa arrancada. Enquanto isso a noite parece que escurecia mais, a cada instante. A dona olha em volta achando que poderia aparecer um anjo da guarda, porém nada. Súbito, pinta um carro. Que para e salta um homem. Exatamente o mesmo de minutos antes.
— Olha – ele diz – dei a volta no quarteirão para você ter tempo de pensar.
— Pensar em que?
— Na forma do pagamento por meu serviço. Este lugar aqui é deserto, a noite está densa, sua vida pode correr perigo.
— Será que o perigo não é você? – Ela rosna.
— Não – ele dá um sorriso de ótimos dentes – em mim você pode confiar. Eu quero algo em troca do meu trabalho. Porém algo dado.
Justamente aí a bonita, cheirosa e gostosa arquiteta o plano: concordaria com o camarada, porém, assim que o pneu estivesse trocado, entraria com agilidade no Volvo e arrancaria.
— Tudo bem – ela murmura – topo.
Bastou que ela pronunciasse a palavra mágica para o sujeito meter mãos à obra. Enfiou o macaco sob o veículo, bateu aqui, desatarraxou ali e, em minutos, termina. No instante em que a dona ia se atirar para a fuga, ele suspira:
— Olha, o macaco acho que você sabe tirar. Enquanto você faz isso vou a um boteco que tem muito ali adiante para lavar as mãos que estão imundas, com graxa.
Saiu andando com calma, enquanto, também com calma, a acidentada se curvou para baixar o carro. Isto posto, gemeu, decidida:
— Afinal, se eu não esperar a volta dele, de que adianta ser bonita, cheirosa e gostosa?
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ANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

Final feliz pra ambos ?