casa setembro

         … É necessário ter uma casa em setembro para, entre suas paredes, poder caminhar em passos lentos rumo à amplidão de braços muito amados. Só em setembro sai da cozinha o aroma de um assado competente no almoço, e de sopa de cálida textura no jantar.

casa setembro

         Ele começou me dizendo que todas as pessoas, em algum momento de suas vidas, deveriam ter uma casa, em setembro. Não necessariamente de forma perene, eterna, mas por algum tempo que fosse; suficiente para levá-lo a poder contar, para quem se interessar pudesse, que teve uma casa, em setembro. O mês, para ele, fez questão de acentuar, traz noções de Primavera; porém, seria mágico mesmo sem ela. Pois os dias de pequenas chuvas e grandes sois se alternam; e uma garoa, em tempos assim, tem algo de ameno significado. Ele havia lido, não sabia quando, num livro de Érico Veríssimo, não lembrava qual, que as chuvas exalam propriedade casta e sedativa; mas, sobretudo, certa humildade cristã. Entretanto, para meu amigo, somente em setembro…

         Pode parecer esquisito falar disso agora, todavia, há um setembro escondido dentro de nós em qualquer época do ano, tantos quantos a vida nos der. Para ele ficou o daquela casa com telhado de duas águas, jardim pequeno no qual brotavam rosas escandalosamente vermelhas, propício corredor externo para brisas que catavam notas musicais nos galhos de uma sibipiruna logo ao lado; e um flamejante flamboyant amplamente derramado como devem ser todos os flamboyants.

         As casas, em setembro, insistiu, teriam que ter uma sala que nem precisaria ser ampla, porém sim sobriamente decorada para bem emoldurar cada nota de cada Sonata pra piano de Mozart; e, isso, aquela que teve possuía. O ambiente fora feito para a contenção das tardes, para a resolução dos silêncios e para o escapar, lento e doce, da luz tomada pelo crepúsculo. Era uma sala formulada para a meiga cadência dos gestos das pessoas. Para o quase ciciar de palavras simples e para a certeza de que, abrindo as janelas em noites claras, se poderia ver no céu a constância resoluta das estrelas. Com as cortinas balançando levemente ao receber as brisas que antes haviam passado por árvores e jardins; tranquilamente, então, definitivamente impregnadas pelo perfume do encantamento.

         É necessário ter uma casa em setembro para, entre suas paredes, poder caminhar em passos lentos rumo à amplidão de braços muito amados. Só em setembro sai da cozinha o aroma de um assado competente no almoço, e de sopa de cálida textura no jantar.

         Numa casa, em setembro, há mais do que som, há luz, nos sorrisos. Há no ar versos de canções antigas, letras que falam de amores plácidos ou dilacerados, coisas como espelhos de mágoas ou olhos em que a lua pudesse se iluminar. Os amores numa casa, em setembro, me garantiu o amigo, são eternos porque, mesmo acabando, ficam em algum lugar, como aquele eternizado no soneto famoso. Ficam marcas absolutamente azuis em paredes, forros, móveis, em arranjos de flores esquecidos a um canto, em lençóis desarrumados pela dança sutil dos corpos em desejos docemente saciados.

         Há sortilégios, jurou, subitamente revelados no abrir de portas ou janelas das casas, em setembro. Por aquelas chegam os presentes da solidariedade e as mensagens do amanhã sem perspectivas de espantos; por estas vem mais do que o canto do passarinho que embriaga de melodias as manhãs – vem também o ruflar e a cadência do seu voo impregnado de infinito. Vem a cor plácida e o cheiro dos troncos cobertos de musgos que se abrigam no quintal, onde a hera dos muros é o verde lençol da proteção e da essência.

          Nos quartos há que se achar recordações nas gavetas. Retratos que em setembro têm realces que não teriam em outubro ou que se finariam nos calores de janeiro. Em setembro renascem imagens de senhoras gravadas em papéis amarelecidos, damas com camafeu de madrepérola sobre o decote discreto. Desatam-se coques de mulheres ancestrais para deixar cair, sobre ombros muito brancos, cabelos infinitamente negros em curvas perfeitas para solfejo de canções. Que ficam subitamente eternizados em tela de cores tênues, mas precisas, entronizada sobre aparador tão antigo quanto as memórias a que conduz.

         Tudo isso ele me contou hoje, ao recordar de certa manhã. A moça havia feito o convite e ele pensou em desistir da estrada tão longa. Não sabia direito o que viria, ou como viria. E se pintasse uma bifurcação, que rumo deveria tomar? Mas, afinal, acabou dizendo que iria. Sem saber caminhos e sem saber destinos, ainda teve forças para perguntar:

         — Estou indo para onde mesmo?

         — Você está indo para uma casa, em setembro…

         E assim passou a me jurar que é pelos milagres de tais dias que certas vivências eternas, mesmo se tornando subitamente finitas, pela bênção da beleza acabam gravadas ali, no fundo, bem no fundo do coração. Complicado?, ele perguntou, e respondeu: nem tanto. Quer ver experimente uma casa, em setembro. Confesso que gostaria de experimentar, respondi. Até porque tempo haveria, uma vez que batemos este papo quando setembro está logo ali, com seus encantamentos…

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Antonio ContenteANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

1 thought on “Uma casa, em setembro. Por Antonio Contente

  1. Linda crônica , não poderia ser melhor , querido Antônio . Da para sentir e ver a casa , gentilmente descrita e justificada nos prazeres da vida .
    Queria ter uma , mas não tenho . Tive e fiquei sem ela . Essa crônica é de uma elegância incrível e me traz lembranças de uma fase que se foi . Parabéns… amei demais …

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