Escola sem Partido II. Por Meraldo Zisman

ESCOLA SEM PARTIDO II

Meraldo Zisman

Pulando o assunto, digo: nenhum adulto soube inspirar-lhes (aos jovens e crianças) uma moral adequada. Bastaria citar a tragédia dos crimes contra a humanidade que ocorreram do século XX, para não falar daqueles do passado mais remoto.

A polêmica sobre as escolas sem partido tem ou teve o mérito de deixar clara a defasagem do ensino nacional, apesar do aumento de vagas nas escolas públicas.

Para ensinar a alguém, quem quer que seja, é preciso conhecer esse alguém. Acho que o ser humano é um animal gregário, seja por imperativo existencial ou de sobrevivência. A nossa atual geração adulta é composta por filhos e netos da escrita, do livro e do quadro negro. Para as crianças mais novas, lembro que quadro negro é como se denominava a lousa, uma superfície lisa onde se escreve ou se faz desenhos, usando giz ou outros marcadores apagáveis.

Não habitamos mais o mesmo tempo, pois crianças e jovens vivem outra história. Bastaria lembrar que a Mídia abarcou também a função de ensino, excedendo muito ao que podem ensinar os educadores de hoje. Vivemos numa época cibernética, sob algoritmos que não ensinam “O que fazer?”, mas sim “Como fazer”.

Pulando o assunto, digo: nenhum adulto soube inspirar-lhes (aos jovens e crianças) uma moral adequada. Bastaria citar a tragédia dos crimes contra a humanidade que ocorreram do século XX, para não falar daqueles do passado mais remoto.

Caberia aos docentes de agora, não importa o nível de ensino em que atuam, aceitar que a instrução ainda está fundamentada num conjunto de concepções ultrapassadas.  E tem mais: as mudanças que ocorreram não agitam apenas o ensino mas também o trabalho nas empresas, a saúde, o direito e a política. Afetam, além disso, certas instituições que não passam de organismos que se baseiam em padrões de comportamento recorrentes, valorizados e estáveis e, contudo, não adequados ao mundo contemporâneo.

Quando você tem 7 a 10 anos, por exemplo, o seu cérebro é mais maleável comparado com o de um adulto de 50 anos. Compreendemos e aceitamos que as mudanças são muitas vezes  estressantes.  A maioria das pessoas simplesmente odeia mudanças. O desconhecido é quase sempre desconfortável.

Outro ponto que me sinto na obrigação de mencionar é a inutilidade de o professor/mestre/mestre-escola ser “porta-voz do saber registrado”,  a não ser que fale/transmita algo de original ou dito em sentido diverso do que se conhece. Em visão mais abrangente o mestre não mais poderá ser a pessoa que fala em nome de outra, isto é, não precisa mais ser um empregado do representado do saber.

A geração atual (muitas vezes), nem necessita de porta-vozes, pois tudo está armazenado nas “nuvens”. Acima de tudo, estamos sujeitos a morrer sufocados pela informação. Mesmo sabendo disso, a maioria das escolas continua ministrando assuntos desnecessários para a vida do “aqui e agora”.

Voltando à informação: hoje ela está disponível com um simples clique do computador, embora saibamos que quando a informação é complicada ou complexa o jovem e até os adultos caem na tentação de mudar sua atenção para vídeos engraçados, fofocas de celebridades ou pornografia.

Quando você tem 7 a 10 anos, por exemplo, o seu cérebro é mais maleável comparado com o de um adulto de 50 anos. Compreendemos e aceitamos que as mudanças são muitas vezes  estressantes.  A maioria das pessoas simplesmente odeia mudanças. O desconhecido é quase sempre desconfortável. Assim, o melhor conselho que se poderia oferecer a um jovem que frequenta uma escola desatualizada é dizer: — Não confie demais nos adultos, pois a maioria deles tem boas intenções, mas eles não compreendem o mundo de hoje… o mundo  de vocês.

No passado era relativamente seguro aceitar a orientação dos adultos, que conheciam bastante bem as coisas e o mundo, já que  as transformações eram mais lentas. Hoje, não saberia dizer em quem se pode confiar e não acredito que a tecnologia seja a solução para tudo.

Diante de tais fatos, você deverá confiar em si mesmo e nos lindos algoritmos que sabem o que você posta, o que você compra e que monitoram todos os seus passos. Mais uma coisa que  eu gostaria de dizer: não leve muita bagagem cultural consigo, pois ela é pesada demais. E, voltando à ideia da escola sem partido, é importante recordar que no início dos anos 30 do século passado, jornalistas e intelectuais louvavam Stalin na União Soviética e Hitler na Alemanha nazista.

Não somos capazes de investigar tudo sozinhos e aconselho que chequem – por favor – as suas fontes de informação. Os moços deveriam ser ensinados a saber como desconfiar da honestidade da informação. Lembrem-se de que ilusões podem ter consequências dramáticas e tenham cuidado com os filósofos atuais, que estão atados e presos à política e não percebem o contemporâneo avançando.  A criança, apesar de todos os avanços psicológicos, científicos, técnicos, mudanças presentes e futuros, continua a ser o pai do Homem.

Voltarei ao assunto.

(PARA LER ESCOLA SEM PARTIDO, O PRIMEIRO ARTIGO, CLIQUE AQUI)


Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

 

 

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