Cego em tiroteio. Por Edmilson Siqueira

CEGO EM TIROTEIO

EDMILSON SIQUEIRA

… Já expliquei a um monte de amigos que meu voto no capitão foi para impedir a continuidade – nefasta por supuesto – da turma chefiada pelo Nove Dedos. O que, obviamente, me deixa à vontade para dizer que, jamais, desde que acompanho a vida política do Brasil – e lá se vai mais de meio século – assisti a uma presidência mais perdida que essa. Nem Jânio de pileque…

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O título poderia ser também “cachorro que caiu do caminhão de mudança”. Ambos dizem a mesma coisa e fazem jus à atuação do presidente Jair Bolsonaro no cargo para o qual foi eleito, com meu voto inclusive. Já expliquei a um monte de amigos que meu voto no capitão foi para impedir a continuidade – nefasta por supuesto – da turma chefiada pelo Nove Dedos. O que, obviamente, me deixa à vontade para dizer que, jamais, desde que acompanho a vida política do Brasil – e lá se vai mais de meio século – assisti a uma presidência mais perdida que essa. Nem Jânio de pileque.

O governo do capitão começou bem, como começam todos os governos que surgem como uma ruptura ao degradante estado anterior. A passagem meia-boca de Michel Temer após a desgraceira petista serviu para mostrar que havia um caminho a seguir e, não fosse a corrupção do velho mordomo de filme de vampiro, ele teria conseguido entregar o bastão com meio caminho andado para o país retomar o círculo virtuoso do desenvolvimento. Lembram da reforma da Previdência prontinha para ser aprovada? Não fosse o papo obscuro gravado à sorrelfa na calada da noite, a reforma seria aprovada e pouparia ao capitão o enorme desgaste para acabar com a farra das aposentadorias. E deixaria escondida por mais tempo a gigantesca incapacidade do capitão de governar qualquer coisa que tenha mais do que três pessoas.

Desvendada a total inabilidade e descoberta as neuroses todas da família – que começa por uma espécie de complexo de inferioridade perante todos que precisa ser disfarçado pela arrogância e violência no trato com quem quer que dela se aproxime – a turma das casas de tolerância legislativa brasileiras perceberam um prato cheio a ser explorado, visando tanto uma graninha a mais como um cargo a mais e, claro, mais poder. O Centrão, uma espécie de Godfather do Congresso, logo se organizou novamente e passou a ditar as regras. Nenhum projeto do governo foi aprovado sem um senhor pedágio e uma senhora desidratação. O pedágio foi pago em cargos – já são mais de dez mil distribuídos, todos de segundo ou terceiro escalão pra não dar na vista – e a desidratação para que ele, deputados e senadores, não aprovem algo que, num futuro bem próximo, se volte contra eles mesmos, principalmente no campo da ética, da honestidade, da roubalheira mesmo.

Resultado de imagem para CEGO EM TIROTEIOPara confirmar que caiu mesmo de um caminhão de mudança, o presidente, em seu passeio pelos EUA, não só continuou incentivando a manifestação, como continuou atacando a imprensa e (juro!!!) disse que a crise provocada pelo corona vírus – declarada pandemia hoje pela Organização Mundial de Saúde e que está derretendo as bolsas de valores do mundo – é mais fantasia que realidade.

Ok, ali no Congresso ninguém é santo. Mas há maneiras e maneiras de tratar com a turma. Uma delas é conversando educadamente e distribuindo o que pode e deve ser distribuído. E à luz do dia. Junte-se a um comportamento sério e civilizado por parte do Executivo o apoio popular a diversas e necessárias medidas, apoio esse que poderia ser exibido nas redes sociais, e teríamos a receita ideal para que o governo conseguisse cumprir as promessas de campanhas. Diga-se, a bem da verdade, que esse plano todo, que não é de difícil execução, implicaria num sonoro pé na bunda daquele autointitulado filósofo e ex-astrólogo que mora nos EUA e, na viagem que fez para lá não percebeu que a terra não é plana.

Mas o que vemos hoje no Brasil? Uma luta constante de um governo contra fantasmas e a criação de um inimigo por dia para que a luta continue e o séquito hipnotizado por falsos gurus prossiga adorando e defendendo o “eleito”. Claro que esse filme é velho, mas é assim que se sustenta no poder um governo inábil, desprovido de inteligência e dotado de uma enorme capacidade de piorar sempre tudo aquilo que não poderia ser piorado.

A crise orçamentária atual é o melhor exemplo. O governo mandou o Orçamento ao Congresso que o aprovou com emendas que, diante de outro treco estranho aprovado – o Orçamento impositivo – deram a um deputado relator o poder de distribuir 30 bilhões de reais a seu bel prazer e num ano eleitoral. Um absurdo, claro, que foi vetado pelo presidente.

Pois vejam só: para que o Congresso não derrubasse o veto foi costurado um acordo que dividia a grana pelo meio.  Aí, no meio desse acordo e antes que se votasse pela manutenção do veto, o presidente e um general com cargo no governo metem a boca no Congresso, chamando todos de chantagistas. O acordo que estava sendo costurado por outros membros do governo, melou.

Sem acordo, o governo recorreu, primeiro, à descabida, no momento, pressão das ruas e convocou suas tropas virtuais para uma “gigantesca” manifestação para amedrontar deputados e senadores. Para espanto maior, enquanto incentivava a manifestação, o capitão deixou que outro acordo fosse sendo costurado.

Tá confuso? Vai piorar, e muito.

Esse novo acordo, agora sendo tratado sob ameaça da “gigantesca” manifestação, aumenta de 15 bi para pouco mais de 20 bi a parte que pode caber ao Congresso. Sim, é isso mesmo: esse acordo é melhor ainda para os políticos do que aquele que já estava pronto e foi chamado de chantagem.

O novo acordo se concretizou através de três PLNs que Bolsonaro assinou e enviou ao Congresso. Só que antes de ser votado, um deles (o que dá efetivamente os mais de 20 bi para os deputados e senadores) começou a receber críticas de todo mundo e de parte dos partidos aliados. Resultado: até o filho de presidente que é senador, assinou uma carta pedindo para que Bolsonaro retire esse PLN da pauta. E o próprio Bolsonaro começou a dizer que seria melhor que ele não fosse aprovado.

Para confirmar que caiu mesmo de um caminhão de mudança, o presidente, em seu passeio pelos EUA, não só continuou incentivando a manifestação, como continuou atacando a imprensa e (juro!!!) disse que a crise provocada pelo corona vírus – declarada pandemia hoje pela Organização Mundial de Saúde e que está derretendo as bolsas de valores do mundo – é mais fantasia que realidade.

Enquanto isso, uma turma mais consciente de deputados e senadores, faz de tudo para impedir a aprovação do PLN, conseguindo adiar a votação. Ou seja, faz o trabalho que a base do governo – caso existisse – teria que fazer. Já Bolsonaro continua negando, para espanto até dos seus inimigos, que tenha feito qualquer acordo. Sim, ele nega um acordo que resultou nos PLNs que ele assinou e enviou ao Congresso. Só falta dizer que não foi ele que assinou…

Tá perdido ou não tá?

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Edmilson Siqueira é jornalista

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