CONVERSAS

Conversas de 1/2 minuto (1). Por José Paulo Cavalcanti Filho

CONVERSAS DE ½ MINUTO (1)

 JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

CONVERSAS

… decidi reproduzir algumas dessas conversas. Na esperança de que o amigo leitor sinta, quando ler, pelo menos um pouco do prazer que tive ao participar delas. Aqui vão as primeiras:

Estou escrevendo livro que vai ter esse título. Reunindo conversas que tive, pela vida, com todo tipo de gente. Ia dizer desde Presidentes da República até pessoas modestas. Mas logo percebi o erro. E já corrigi. Que muitos dos simples são personagens que valem a pena. E nem todos os Presidentes são grandes homens. Como palavras da abertura, fiz esses versinhos:

Tem conversa que é de pai/ Conversa pra um irmão/ Conversa de padre santo/ Conversa de assombração/ Conversa de paz e amor/ Conversa de confusão/ Conversa de prato caro/ Conversa café com pão/ Conversa de vida boa/ Conversa de solidão/ Conversa de amor a Deus/ Conversa na lei do cão/ É um bom, outro ruim/ Esse mundo é mesmo assim/ Viva tu e viva mim/ Viva Dom Sebastião.

E decidi reproduzir algumas dessas conversas. Na esperança de que o amigo leitor sinta, quando ler, pelo menos um pouco do prazer que tive ao participar delas. Aqui vão as primeiras:

Padre EDWALDO GOMES, de Casa Forte. Chegamos ao Hospital Memorial São José. No quarto, o padre Edwaldo parecia bem disposto. E fui logo dizendo:

– Maravilha, pastor. Imagino como deve estar contente.

– E por que?, José. Estou aqui cheio de fios…

– É o seguinte. O amigo passou a vida inteira sonhando em encontrar com o Pai Eterno. E agora, quando esse momento está tão próximo, deve ser o homem mais feliz do mundo.

– Vade retro, José. Pare com isso que não tenho pressa.

E se benzeu – Pai, Filho, Espírito Santo.

ELIAS SULTANUM, santeiro. Ligou para saber do Coronavírus.

– Como estão?

– Muito bem.

– Graças.

– Adeus.

 JOSUÉ DE CASTRO, autor de Geografia da Fome. Em seu apartamento de Paris, à beira do Sena. Ali, cumpria seu destino de exilado. Fim do jantar, começou a tomar comprimidos. Eram 12, escondidos entre os talheres de sobremesa (que ia pondo bem devagar, na boca; um comprimido, e um gole de água). Dava para contar, sem nem perceber. Então perguntei:

– Para que isso, Dr. Josué? O senhor está tão bem.

– Estou não, meu filho. Estou morrendo!

– De que?, Dr. Josué.

– De saudade.

Josué de Castro ia fenecendo, cada dia um pouco, por não poder voltar ao Brasil. Dois meses depois, como previu, acabou morrendo. Saudades.

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José Paulo Cavalcanti FilhoÉ advogado e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade. Vive no Recife.

jp@jpc.com.br

 

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