imunização coletiva

Imunização coletiva. Por José Horta Manzano

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Ano e meio depois do estouro da pandemia de covid, começam a aparecer estudos de larga escala, baseados na observação da evolução de grande número de casos num longo período. Um deles acaba de ser publicado na Suíça.

No Brasil, a busca pela vacinação tem ocultado aquela parte da população que se recusa a estender o braço. Por certo há, em nosso país também, um certo número de ‘antivax’ obstinados – o maior deles sendo justamente o presidente da República. Mas a massa dos que correm atrás da vacina ainda tem gritado mais alto.

Nos países europeus em que a campanha de vacinação está mais adiantada, os ‘antivax’ já começam a sobressair. Há os que, apesar de um bilhão de humanos já terem sido vacinados, ainda declaram ter receio de ser ‘cobaias’. Há os que, embora tomem alegremente vacina antimalárica quando viajam a um país africano, não querem saber da anticovídica. Há ainda os que simplesmente têm medo de injeção.

E há os piores, aqueles que são burros e egoístas ao mesmo tempo, e que esperam ser protegidos pelo resto da população. São como o capitão, que não perde ocasião de repetir que “será o último a ser vacinado”. Botam fé no conceito da imunização coletiva, ou “imunidade de rebanho”, como preferem. Em sua fantasia, imaginam que, assim que a maior parte dos habitantes estiver imunizada, os não vacinados vão acabar sendo “contaminados” pela vacina alheia, sem nem mesmo precisar estender o braço.

Estão iludidos. Não é assim que funciona. O estudo suíço comprova que as pessoas não vacinadas têm risco 80% maior de contrair a covid. Como exemplo, na região do país onde ele foi levado a cabo, nas 2 últimas semanas de julho foram declarados 1030 casos novos de covid. Dessas 1030 pessoas, só 9 haviam sido vacinadas – as 1021 restantes não tinham recebido nenhum imunizante. Em outros termos, de cada 100 novos infectados, 99 não tinham sido vacinados. Isso mostra também que os benefícios da vacinação da maioria não “contaminam” nem se propagam aos demais.

Constata-se que essas vacinas anticovid, embora recentes, têm eficácia excepcional. Mas fazer novena não basta: precisa estender o braço e receber a picada. As palavras do chefe da Brigada Científica Suíça Anticovid são categóricas:

“Se os que resistem a se vacinar estão contando com a imunização coletiva pra escapar, estão enganados. Mais cedo ou mais tarde, todos eles apanharão a covid.”

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JOSÉ HORTA MANZANO – Escritor, analista e cronista. Mantém o blog Brasil de Longe. Analisa as coisas de nosso país em diversos ângulos,  dependendo da inspiração do momento; pode tratar de política, línguas, história, música, geografia, atualidade e notícias do dia a dia. Colabora no caderno Opinião, do Correio Braziliense. Vive na Suíça, e há 45 anos mora no continente europeu. A comparação entre os fatos de lá e os daqui é uma de suas especialidades.

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1 thought on “Imunização coletiva. Por José Horta Manzano

  1. Confesso que não sou apaixonado pela ideia de tomar picada. Talvez por ter sido picado por um enxame de vespas quando criança (com direito a choque anafilático e tudo), ainda me sinto meio incomodado com a ideia de uma receber uma agulha. Por óbvio, no entanto, já que não sou parte do ‘rebanho’ dos zumbis que seguem o psicótico, tomei as duas doses daquela vacina britânica que, segundo os frequentadores do Cercadinho, deixa e gente em coma. Resultado: na 1ª dose, uma leve sensação de cansaço no dia seguinte, e só. Na 2º, absolutamente nada. Sequer uma dorzinha no braço.

    Tenho a impressão de que o que motiva a população que não quer vacina – muita gente, no mundo inteiro -, se deve a uma ideia ainda difusa, mal definida, do que venha a ser a vacina. É de se notar que, nesse grupo ‘antivax’, quase ninguém se nega a tomar um antibiótico, um antirretroviral ou um antiprotozoário, por exemplo. A presença de partes isoladas e inócuas de vírus, ou os próprios vírus, devidamente inativados e também inócuos, ainda deixa muita gente em dúvida. Cidadãos comuns ainda têm medo, e o medo se espalha, naturalmente.

    Só uma campanha de esclarecimento massiva, exaustiva, permanente, salvará de si mesmos esses ignorantes. Enquanto acreditarem em desinformações, continuarão a constituir um grupo de pessoas que porá a saúde pública em risco contínuo. Alguém dirá que tais campanhas informativas já existem, e que quem não aprendeu até agora, não aprenderá mais. E talvez seja verdade. Em todo caso, é conclusão que não pode guiar política pública em país nenhum. Assim, em nome da saúde pública, quem sabe deve oferecer conhecimento a quem não sabe. Ou isso, ou o ‘rebanho’ (tão heterogêneo quanto possa se, e é!) adiará ad aeternum o desfecho da pandemia. A imunização coletiva mais eficiente é contra a informação de má qualidade.

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