Anita Novinsky -

ANITA NOVINSKY, por Carlos Alberto Lozza

Anita Novinsky, a judia polonesa que redescobriu o Brasil. Por Antonio Silvio Lefèvre

Anita revelou que a mãe do Padre Anchieta era judia, “cristã nova”, ou seja, convertida à força ao catolicismo, e que um tataravô seu, fervoroso judaizante, foi queimado pela Inquisição e um avô foi também perseguido.

Anita Novinsky -

O falecimento, em 20 de julho último, aos 98 anos, da minha sogra, a historiadora Anita Novinsky, teve grande repercussão na comunidade acadêmica de todo o Brasil e em especial na nossa comunidade judaica. Isto porque, em sua longa carreira, Anita foi a primeira a descobrir e revelar a origem judaica de grande parte dos portugueses que vieram para o Brasil a partir de meados do Século XVI, para escapar do Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição, instituição da Igreja Católica que perseguia, julgava e punia os judeus de Portugal. Em especial aqueles que se converteram em “cristãos novos” para tentar disfarçar o judaísmo que tinham no sangue e que praticavam secretamente.

Sobre o legado de Anita muito já se escreveu nos últimos dias e não pretendo me estender. O obituário publicado na Folha de S. Paulo é sintético, mas expressivo. E recomendo a leitura do artigo O legado de Anita Novinsky, de autoria de uma de suas primeiras alunas, Maria Luisa Tucci Carneiro, publicado no Jornal da USP.

Anita era muito ligada aos intelectuais da “Geração Clima” que, nos anos 1940, revolucionaram a cultura no Brasil. Como Antonio Cândido, Paulo Emílio Salles Gomes, Alfredo Mesquita, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e também meu pai, Antonio Branco Lefèvre, o “médico entre os chato-boys” , como eram chamados por Oswald de Andrade.

Quando Anita ainda estava nos bancos da Faculdade de Filosofia da USP, foi Lourival quem lhe deu a missão de pesquisar sobre algo de que pouco se falava porque pouco se sabia, mas muito se desconfiava, que era o papel da Inquisição na História do Brasil.

Em função da amizade de Anita com meu pai e também com minha mãe, Dorothy Fineberg, sua colega na USP nos anos 40, acabei conhecendo Sonia Novinsky, a filha de Anita, com a qual me casei  muitos anos depois, em1975. Mas dez anos antes, em 1965, quando eu estava no exílio e estudava em Paris, mantive intenso contato com Anita, incentivado por dois “climáticos” então morando lá: Antonio Cândido, com quem morei por um ano, e Lourival, seu inspirador e então diretor cultural da UNESCO, que acompanhava passo a passo as pesquisas de Anita nos arquivos da Inquisição na Torre do Tombo, em Lisboa.

Anita se dividia então entre Lisboa, onde pesquisava, e Paris, onde se aperfeiçoava em seus estudos com os mestres franceses. E em alguns históricos almoços parisienses, eu fui então testemunha de seus primeiros relatos sobre o que a Igreja escondera e ela descobrira. “A Igreja católica foi então uma precursora de Auschwitz”, comentei eu, então, estupefato diante dos relatos de judeus queimados pela Inquisição.

Anita foi a mestra e inspiradora de um grande número de historiadores que identificaram as origens judaicas de vários outros personagens da nossa história e revelaram fatos até então desconhecidos, como por exemplo, a saga dos judeus de Recife que de lá fugiram dos inquisidores e estiveram entre os fundadores de New York…

Essas descobertas todas foram aos poucos sendo objeto de livros de Anita, desde o primeiro, “Cristãos Novos na Bahia”, até os  mais recentes, como “Viver nos tempos da Inquisição”, e o de maior repercussão, “Os judeus que construíram o Brasil”, escrito em parceria com suas alunas Daniela Levy, Eneida Ribeiro e Lina Gorenstein.

Leitor ávido de toda sua obra, nos últimos anos eu estimulei Anita a escrever artigos que pudessem dar conhecimento de suas descobertas ao público mais amplo, que não necessariamente teria acesso a seus livros. Fomos escolhendo juntos os temas que teriam mais impacto, ela escrevendo, eu dando formato mais jornalístico e levando à Folha de S. Paulo, através de meu amigo Marcelo Coelho, então membro do Conselho Editorial e brilhante articulista do jornal.

O mais impactante de todos foi Padre Anchieta, cristão ou judeu? (Folha, 24/01/2014), revelando como até um religioso, como José de Anchieta, que foi fundador de São Paulo, em 1554, e chegou a Provincial da Companhia  de Jesus no Brasil, teve sua própria família penitenciada. Anita revelou que sua mãe era judia, “cristã nova”, ou seja, convertida à força ao catolicismo, e que um tataravô seu, fervoroso judaizante, foi queimado pela Inquisição e um avô foi também perseguido. Ele próprio sofreu, pois tendo nascido nas Ilhas Canárias, então sob domínio espanhol, quis entrar para um seminário na Espanha, mas foi recusado como “cristão novo”, só sendo aceito em Portugal, onde a Inquisição começou mais tarde e ainda era mais branda.

Essa revelação de Anita foi tão impactante que, duas semanas depois, gerou uma “resposta” de Dom Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, no Estadão. Onde, numa tentativa negacionista da Inquisição, como é ainda a de muitos jesuítas, publicou uma biografia do Padre Anchieta, então candidato à beatificação pelo Papa Francisco, omitindo qualquer referência à sua origem judaica. Eu mesmo escrevi então um artigo Padre Anchieta: ‘limpando’ o seu currículo” comentando essa polêmica, publicado então em seu blog pelo futuro editor do Chumbo Gordo, Carlos Brickmann. Felizmente que Francisco, muito amigo dos judeus, deve ter lido o artigo de Anita e, apesar de Dom Odilo… com isso ter reforçado sua decisão de, em abril deste mesmo ano de 2014, ter tornado o padre Anchieta oficialmente São José de Anchieta.

Outro artigo de Anita, também na Folha e de enorme repercussão, foi O judeu Raposo Tavares e os jesuítas.  No qual Anita relata que Raposo foi criado pela madrasta, Maria da Costa, em uma casa onde se praticavam as cerimônias e festas judaicas clandestinamente. Maria foi presa pela Inquisição, juntamente com vários membros da família, e confessou, sob tortura, o seu judaísmo secreto.  Em 1647, Raposo Tavares partiu para a maior expedição de descobrimento de todo o mundo. Um dos seus mais surpreendentes resultados foi conhecer, pela primeira vez, a extensão da América do Sul. Raposo Tavares dilatou o Brasil e foi o descobridor de um continente. Júlio de Mesquita Filho, do Estadão,  o caracterizou como “o herói de uma das mais famosas façanhas de que guarda memória a história da humanidade”.

Anita Novinsky foi a motivadora para que milhares de famílias de brasileiros, passassem a fazer buscas das suas origens judaicas. Todo um movimento se formou, o dos “Bnei Anussim”, que é o termo empregado na literatura rabínica para designar os judeus convertidos, à força, ao Cristianismo ou ao Islã.

Em seu livro “Os judeus que construíram o Brasil”, Anita contaria mais tarde, em detalhes, a  história dos bandeirantes que, em sua maioria, eram de origem judaica e por isso lutavam contra as Missões dos Jesuítas, identificados que eles eram com a Inquisição de Lima, então a algoz dos “cristãos novos” no Brasil. Até o fim de seus dias, Anita defendeu ardorosamente os bandeirantes que, mais do que algozes de índios e padres, como está na moda acusá-los, eram perseguidos pela Inquisição devido a seu “sangue israelita”. Anita deu uma brilhante entrevista a respeito dos bandeirantes para o ex-ministro Aldo Rebelo, que pode ser assistida no seu site Bonifacio.

Aliás, a propósito da família de Julio de Mesquita Filho, Anita foi a primeira, através do amigo Alfredo, irmão de Julio, a fazê-los se reconhecerem como de origem Judaica. “Basta ver os nomes das irmãs deles, Esther e Lia, típicos nomes judaicos, para ver com o que se identificam”, dizia Anita. E o mesmo raciocínio ela fez ao me permitir assegurar a Cleo, bisneta de Monteiro Lobato, que, sem dúvida alguma, toda a família de Lobato é de cristãos-novos, portanto judeus convertidos. Já numa simples análise das últimas gerações lobatianas, observou que José Bento Monteiro Lobato tinha duas irmãs com prenomes tipicamente judaicos: Esther e Judith. E ele mesmo deu nomes judaicos para suas duas filhas: Ruth e Martha. “Ora, é sabido que esses nomes não vêm por acaso, sendo evidente que tanto o pai de Lobato, como ele mesmo, os tinham no seu inconsciente cultural.”. Sobre  os ancestrais cristãos-novos de Lobato e as revelações de Anita eu mesmo escrevi um artigo neste Chumbo Gordo.

Anita Novinsky foi a motivadora para que milhares de famílias de brasileiros, passassem a fazer buscas das suas origens judaicas. Todo um movimento se formou, o dos “Bnei Anussim”, que é o termo empregado na literatura rabínica para designar os judeus convertidos, à força, ao Cristianismo ou ao Islã. Anita escreveu um detalhado artigo sobre eles, como prefácio de um livro sobre o tema, de autoria do Rabino Ventura, que pode ser lido nesta página.

E Anita foi a mestra e inspiradora de um grande número de historiadores que identificaram as origens judaicas de vários outros personagens da nossa história e revelaram fatos até então desconhecidos, como por exemplo, a saga dos judeus de Recife que de lá fugiram dos inquisidores e estiveram entre os fundadores de New York, relatada por sua aluna Daniela Levy no livro “De Recife para Manhattan”.

Um novo livro de Anita Novinsky está no prelo, sobre a saga do Padre Antonio Vieira, o jesuíta que se pôs em defesa dos judeus, contra a Inquisição. Uma pequena prévia do conteúdo pode ser lida neste outro artigo de Anita para a Folha: A mensagem do padre Antonio Vieira.

Por toda essa descoberta de Anita Novinsky sobre o papel fundamental dos judeus na História do Brasil, antes dela praticamente desconhecido ou propositalmente ignorado ou escondido, é que podemos dizer que, certa forma, essa intelectual judia, nascida na Polônia, redescobriu o país para onde veio com 2 anos de idade, o Brasil.

O prestígio de Anita foi enorme, não apenas nos meios acadêmicos do Brasil e de todo o mundo, mas também nos meios políticos. Quando Mario Soares assumiu como Primeiro Ministro e depois Presidente em Portugal, ele foi um entusiasta do trabalho de Anita e lhe deu todo apoio para ter acesso a documentos ainda reservados.  E chegou a hospedá-la no palácio presidencial em Lisboa. Os primeiros-ministros de Israel, em especial Shimon Peres e depois Benjamin “Bibi” Netanyahu, também  foram admiradores do seu trabalho e lhe deram todo apoio.

No Brasil, ela teve a admiração declarada do Presidente Lula que, depois de uma fala na Congregação Israelita Paulista, pediu a Anita que lhe mandasse seus livros, que não conhecia, e depois a convidou a viajar com ele para Israel, no avião presidencial. O que só não ocorreu porque, segundo Anita, “estava muito em cima da hora e não ia dar tempo de arrumar meu cabelo e comprar umas roupinhas”.

 Anita era muito vaidosa e, cá entre nós, com razão, como demonstra a sua imagem que ilustra esse artigo, de autoria do meu falecido amigo Carlos Alberto Lozza, diretor de arte no grupo Abril e que também era grande admirador dela. Como de meu pai Antonio Branco Lefèvre, do qual também pintou a imagem de artigo meu neste Chumbo Gordo.

Quanto a Fernando Henrique, sei que respeitava e admirava muito Anita, desde os tempos em que foram colegas de faculdade. E ele, tenho certeza que  conhecia e que leu os seus livros…

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ANTONIO SILVIO LEFÈVRE é sociólogo (Université de Paris), editor e livreiro. Interpretou Pedrinho na 1ª adaptação do “Sítio do Picapau Amarelo” para a TV, em 1954. Veja no Museu da TV.

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4 thoughts on “Anita Novinsky, a judia polonesa que redescobriu o Brasil. Por Antonio Silvio Lefèvre

  1. Tive a oportunidade de de conhecela pessoalmente junto com o meu PAI amado que me deixou à 2 ANOS ATRÁS.. uma senhora cheia de cultura e sabedoria sem ninguém a sua altura, ela esteve em PORTO ALEGRE CAPITAL RIO GRANDE DO SUL em uma conferência que durou 3 dias.
    Uma mulher incrível!
    Educada gentil CORTEZ com todos … nos contou toda A HISTÓRIA da nossa família RODRIGUES aqui no BRASIL é desde à saída da ESPANHA a 500 ANOS ATRÁS. Uma enciclopédia de conhecimento ting E’LA… .
    Phd em inquisição e TODA HISTÓRIA judaica no BRASIL.
    Descanse em paz DONA. Anita
    E obrigado à DEUS por tê-la conhecido junto com o meu PAI e termos alguns minutos de uma CONVERSA muito rica e respeitosa.
    Uma eleita de Deus a Sra. É E cheia de SABEDORIA.
    SHALOM

  2. O artigo/homenagem de Silvio Lefèvre à agora saudosa professora AWN impõe comentá-lo. Silvio traz a nossa reavivada memória gente cuja forma o divino perdeu. Sim, alguns podem ser objeto de polêmicas disputas, mas isso de modo geral, por quem os descontextualize.
    Em seu artigo, Silvio beneficia, enriquece o leitor desavisado: nossa identidade brasileira vê-se acrescida de uma raiz desconsiderada, em geral em vista do desprezo habitual a um conhecimento minimamente aprofundado da história de nossa nação. Restou-nos, de hábito, um culto um tanto positivista, ultraconservador, ultranacionalismo, chauvinista, elitista (mentalidade colonial sob forma de país autônomo) de uma identidade que deixa de reconhecer suas raízes indígenas, negras, e por fim, também judaicas. Quanta falsificação se pratica, por exemplo usando e abusando de signos e símbolos judaicos, enquanto se conduz o país a caminhos que fatalmente tendem a desembocar em antissemitismo! E o que não deixar de dizer acerca do genocídio indígena? E a cínica pretensão a ser um país não-racista! Onde negros, pobres, mulheres seguem obviamente sendo discriminados e genocidados (perdoe-me o neologismo proposto pelo real).
    Nossa dívida para com Anita será devidamente tratada pelo conhecimento que o artigo de Silvio nos estimula a buscar, por meio, inicialmente, do conhecimento das fontes das informações trazidas neste artigo, a partir da obra dela.
    Obrigado Anita, parabéns Silvio, da Miriam Oelsner e do Rubens Bergel. E felicitações ao Carlinhos pela publicação.

  3. Sou um cristão – novo – Meus antepassados, vieram de Portugal no início do século XVII – Sobrenome Feitosa- radicaram-se no Rio São Francisco – Dois de seus filhos foram para o Sertão dos Inhamuns no Ceará. Em 1700/20, criaram o sobrenome Ferreira Ferro, como era comum entre os judeus cristãos – novos, para despistar os inquisidores, pois esses Feitosa do ceará eram muito ricos. Em 1800, pouco antes, pouco depois, três irmãos saíram do Ceará e radicaram-se em Pernambuco ( hoje Alagoas) onde hoje há a cidade de Minador do Negrão, dando origem à família Ferreira Ferro do |Minador do Negrão. Tenho um esboço de genealogia desde um desses irmãos, até meu pai e a mim mesmo. Venho acompanhando a obra de Anita Novinsky há anos. Tanto eu como minha filha mais velha, fomos estudantes da US, e venho pesquisando sobre judeus,cristãos – novos e inquisição, há uns 25 anos.

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