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Fanáticos pelo fracasso. Por Edmilson Siqueira

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Pelo que envolveu de organização e dinheiro, as manifestações para referendar o “mito” foram um fracasso. E os discursos destrambelhados de Jair Bolsonaro comprovaram: muitos políticos de partidos aliados perceberam que Bolsonaro só fala e age para seu curral eleitoral e que esse vem diminuindo cada vez mais, tanto que o público presente às manifestações não chegou nem perto de um terço do esperado. Mas tinha bastante gente, sim, e isso se explica facilmente.

Bolsonaro ainda é apoiado por cerca de 25% dos eleitores, como revelam as pesquisas. Esse percentual significa que cerca de 36 milhões votariam nele hoje. Ora, se 10% desse eleitorado comparecesse às manifestações, teríamos mais de 3,6 milhões de pessoas nas ruas no feriado de terça-feira. E esse número ficou bem longe do que se viu, mesmo porque, muita gente fez protesto matutino no interior de São Paulo e depois correu até a capital. Sem contar as famílias que levaram crianças para ouvir um discurso que, aliás, deveria ser proibido para menores…

Assim, a única consequência do máximo que bolsonaristas conseguem fazer em matéria de manifestação, foi isolar ainda mais o genocida em sua aventura de instalar no Brasil uma ditadura, objetivo que ele tenta disfarçar adotando uma espécie de “novilíngua” orwelliana ao rechear seus discursos com a palavra “liberdade” e expressões futebolísticas como “as quatro linhas da Constituição”.

O fanatismo do público presente ontem às manifestações é tão grande que uma pesquisa detectou que o inimigo maior dos bolsonaristas mudou nos últimos meses. Já havia mudado antes, pois “combater a corrupção” praticamente desapareceu do vocabulário dos seguidores, depois que perceberam que a família Bolsonaro viveu – talvez ainda viva – dentro de uma espécie de franquia de rachadinhas: todos os funcionários por ele nomeados para trabalhar nos gabinetes de deputados bolsonaros deixavam quase todo o salário para seus chefes. Muitos nem compareciam ao trabalho, deixando cartões e senhas com o tal do Queiroz ou, antes, com a ex-patroa do chefe. Uma notícia perdida no meio do noticiário sobre esse assunto revelou que, enquanto foram casados, Bolsonaro e Ana Cristina Vale compraram sete apartamentos, sendo três deles com dinheiro vivo. Ninguém compra apartamento com dinheiro vivo quando esse dinheiro é legal.

Sem poder berrar contra a corrupção, os bolsonaristas agora abraçam causas ao sabor dos delírios do falso mito que criaram. A pesquisa revelou que 29% dos presentes estavam ali para defender o impeachment dos ministros do STF, 28% por liberdade de expressão e 24% por uma ação de ruptura do presidente (ou seja, um golpe que o perpetue no poder).

As bandeiras bolsonaristas aparentam outra curiosidade: elas vão crescendo de objetivos com o passar do tempo numa razão inversamente proporcional à queda de Bolsonaro nas pesquisas. A conclusão desse fato é que o presidente genocida só está conseguindo manter como eleitor os fanáticos que o seguirão até o inferno e que estão dispostos a empunhar qualquer bandeira que seu ídolo mandar. À bandeira genérica da corrupção – uma promessa de campanha que se esfacelou com a saída de Sergio Moro do governo – passou-se a atacar com mais veemência o “comunismo”, passando a ser fiel seguidor de Marx, Lenin, Stálin ou Mao todo aquele que ousasse contestar as “sábias” palavras do ex-capitão.

Essa fase foi abandonada não por descobrirem o ridículo nela contido, mas simplesmente porque tanto fez o moleque presidencial que caiu nas garras da Justiça, tendo seu mandato ameaçado por cometer crimes e mais crimes antes e durante a pandemia. O alvo dos fanáticos passou a ser a Justiça, mais precisamente o STF e, mais precisamente ainda, dois ministros encarregados dos seus casos. Sobre a farra que Gilmar Mendes e Lewandowski comandam na Segunda Turma – agora acrescida do cordeirinho Kassio Marques, nomeado por Bolsonaro – absolvendo políticos famosos, ricos e corruptos, nenhuma palavra.

A tal da liberdade de expressão, defendida por significativo percentual dos manifestantes, e também palavra fácil na boca de Bolsonaro, não é bem a liberdade de expressão no seu significado mais nobre. O que Bolsonaro pretende é dar liberdade para que as redes sociais possam publicar todas as mentiras possíveis e enganar leitores incautos sobre a realidade. E não só as redes sociais: há todo um plano para favorecer órgãos de imprensa com dinheiro público desde que sejam favoráveis ao governo e defendam suas absurdas teses.

A liberdade para mentir existe sim, mas os responsáveis devem responder pela mentira, bem como os donos das redes sociais podem fiscalizar campanhas baseadas em falsas alegações e prenhes de ódio de qualquer tipo. O processo chefiado por Alexandre de Moraes no STF pode ser criticado por vários aspectos, principalmente por não ser esse o caminho para se punir eventuais excessos contra o estado democrático de direito, mas o crime existe e abunda nas redes sociais e em muitas publicações impressas por aí. A liberdade que os bolsonaristas querem é de continuar propagando o ódio e a mentira para conquistar o poder.

Já a ruptura, outro sonho vão da moçada, só faz Bolsonaro se isolar mais ainda. Embora o número de milicos que estão se lambuzando no poder com salários dobrados e até triplicados seja maior do que se esperava, eles não são maioria dentro do generalato das Forças Armadas. E não há qualquer indício de que as Armas brasileiras estejam dispostas a seguir um genocida ex-capitão numa aventura venezuelana que isolaria o Brasil de vez perante o mundo.

Enfim, as manifestações, que muita gente andou temendo, tiveram efeito contrário. Já se fala abertamente em impeachment, inclusive em partidos importantes do Centrão; os tribunais superiores arrecadaram mais provas do comportamento insano de Bolsonaro e a presença nas ruas provou que seu público, que já foi bem maior, pode cair mais ainda diante dos descalabros todos cometidos e ele pode amargar um terceiro ou quarto lugar numa eleição, caso consiga chegar no poder até lá.

E pra encerrar, nota destoante de tudo isso continua sendo dada pelo PT: o partido vê em Bolsonaro um adversário que pode bater num segundo turno e não quer apoiar seu impeachment.

Ao invés de pensar no país, o PT só olha no próprio umbigo.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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