DE MAL A PIOR

De mal a pior. Por Edmilson Siqueira

DE MAL A PIOR

EDMILSON SIQUEIRA

…Haverá festas em várias casas à beira do lago Paranoá em Brasília, bem como em algumas mansões e coberturas espalhadas pelo Brasil. Corruptos de colarinho branco e traficantes comandantes de bandos assassinos, brindarão juntos na noite do fim total da punição aos poderosos…

DE MAL A PIOR

O fim da Operação Lava Jato como a conhecíamos é apenas mais um capítulo na formidável transmutação pela qual vem passando o governo Bolsonaro. Mas não o presidente, pois hoje é mais que notório que a transformação que ele sofreu foi aquela ocorrida quando ele percebeu que tinha chances de se eleger com um discurso anti-PT, anticorrupção e liberal. Esse figurino que ele vestiu enganou uma boa parte do eleitorado ávida por um líder que fosse radical ao ponto de pregar a extinção da esquerda tal como ela se apresentava no Brasil: corrupta e incompetente. Em apenas dois anos, o velho, ignorante e corrupto Bolsonaro ressurgiu.

A transformação da operação que mais desbaratou e prendeu corruptos na história – e não só do Brasil – num grupo de combate à corrupção cujo centro de comando estará nas mãos do PGR Augusto Aras, é mais um cumprimento de promessa feita pelo PGR a Bolsonaro, para que esse o nomeasse para o cargo. E Bolsonaro não quis o fim da Lava Jato, apenas. Exigiu que toda e qualquer investigação sobre sua família e alguns aliados não prosperasse. Para tanto, cooptou alguns ministros do STF, além do PGR, do comando da PF, da AGU, da ABIN e de toda e qualquer instituição que ele pudesse alcançar com sua BIC azul. O Coaf, ameaçado de “investigação” por um capanga bolsonarista, é só mais um episódio nesse circo de horrores.

Assim, sobrou pouca coisa para os bravos procuradores de Curitiba continuarem a odisseia de combate à corrupção. Se continuassem, seriam engolidos facilmente por todo o sistema de proteção aos corruptos que os próprios corruptos, com apoio do governo federal, montaram rapidinho para continuar outra odisseia: aquela em direção aos cargos e aos cofres públicos.

Só que há ainda outra desgraça que, em breve, será consumada: a anulação de todos os processos contra o maior corrupto da história, o ex-presidente Lula, para que ele possa não só jamais voltar à cadeia, como, quem sabe, concorrer novamente à presidência, já perto dos 80 anos. Essa desgraça possivelmente se completará com  acusações contra o juiz Sergio Moro e o ex-chefe da operação, Deltan Dallagnol, de conspiração pra prender Lula e muitos outros, só para aparecer, ganhar dinheiro em palestras e notoriedade suficiente para tentar ser presidente do Brasil. Essas acusações poderão, em processo rápido do STF, levar ambos à cadeia, naquela que será a vingança completa dos que foram presos, acusados ou simplesmente temeram que suas roubalheiras fossem as próximas a serem descobertas.

Haverá festas em várias casas à beira do lago Paranoá em Brasília, bem como em algumas mansões e coberturas espalhadas pelo Brasil. Corruptos de colarinho branco e traficantes comandantes de bandos assassinos, brindarão juntos na noite do fim total da punição aos poderosos.

… A estupidez exacerbada de Bolsonaro e a delinquência que beira a selvageria de seus fanáticos seguidores é um exemplo cuspido e escarrado do que os anos de total devassidão política destes séculos produziram.

Na política, a reeleição de Bolsonaro – ou uma nova eleição de Lula, pois estamos vendo que tanto faz – será o coroamento de uma epopeia perversa que se iniciou pouco depois de 1500, num país que pouco soube o que é viver na dignidade, que teve um ou dois governos que tentaram combater a corrupção ou que se voltaram a realmente usar o dinheiro dos impostos em prol daqueles que os pagam.

Hoje, com o fim da Lava Jato, o domínio do Centrão no Congresso de modo mais aviltante do que era até aqui, a aliança entre a podridão dos políticos e a lama do Planalto, há pouquíssima esperança de que o Brasil retome, ainda nesta década que se inicia, qualquer forma de condução honesta das suas contas, de participante do concerto mundial das nações civilizadas, da Justiça para todos, da liberdade econômica e do crescimento sustentável.

Quando a pressão mundial perceber que nada pode fazer contra as queimadas liberadas na Amazônia, contra a discriminação solta contra negros, indígenas e pobres em geral, contra a devastação moral alastrante, os países insultados e indignados com o Brasil o abandonarão como se abandona um cão sarnento no meio da madrugada, transformando o Brasil  num pária mundial, entregue ao seu próprio e sombrio destino.

A estupidez exacerbada de Bolsonaro e a delinquência que beira a selvageria de seus fanáticos seguidores é um exemplo cuspido e escarrado do que os anos de total devassidão política destes séculos produziram. Os 14 anos petistas – eivados de corrupção e caminhos errados na economia – foram o ápice do processo de escárnio com a coisa pública e só podiam mesmo produzir um monstro insano que se materializou num segundo tenente do Exército que despiu a farda que desonrava pelo terno e gravata dos políticos desonestos. E convenceu a população já desalentada que seria a solução para tanta desgraça.

Bolsonaro, resultado dos anos de podridão política do Brasil, está mostrando que nos levará, obviamente, a mais podridão ainda. É o que ele sabe fazer. É só isso que ele sabe fazer.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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