agulhas de março

As agulhas de março. Marli Gonçalves

AS AGULHAS DE MARÇO

MARLI GONÇALVES

 É tanta vontade de ser vacinada que até já sinto a penetração daquela agulha fina e enooorme – que diuturnamente vemos furando especialmente braços de velhinhos, mostrada nos noticiários – em meu braço esquerdo. Já até pensei em desenhar com caneta um alvo ali. Mas, março chegando e a confusão instalada me deixa apenas tamborilando os dedos à espera da vez, e essa vez toda hora muda.

Pois bem, março chegando, e já um ano dessa pandemia que desorganizou mundialmente nossas vidas, planos, instalando o medo da loteria macabra que atingiu – e isso só contando oficialmente, veja bem – mais de dez milhões de brasileiros, e se aproximando de 250 mil vidas perdidas. O estranho é que ainda fica a sensação de que, para quem é dado agir o mais rapidamente possível, parece que quem morreu não importa em nada; e que quem morrerá até que se consiga algum controle, e são milhares, não importará. “Eles” vão continuar com as suas brigas, turras, negações, politicagem, ignorância, apostas vis, desrespeito e ações criminosas.

Querem mais sacanagem do que as criminosas vacinas de vento, quando as agulhas furam e nada inoculam? Que obriga a que as simpáticas fotos e filmagens que estavam sendo feitas dos idosos felizes agora sejam mais atentas e foquem especificamente as seringas, documentando se nelas há o líquido tão aguardado? Querem mais sacanagem do que deixar velhinhos ao Sol em longas filas durante horas para lhes dizerem na porta dos postos que a vacinação foi paralisada porque acabaram?  Querem mais sacanagem do que ainda aturarmos um ministério e um ministro incompetente, as mentiras, a falta de organização, as mudanças no plano de imunização, e as filas de prioridades sendo diariamente furadas, com várias pessoas e “categorias” entrando na frente, vindas pelo acostamento? Calendários divulgados em um dia e jogados fora em outros.

As agulhas de março nos trazem águas de muitas lágrimas. À esta altura, pouco mais de 3% da população imunizada,  com a primeira dose, e ainda apenas com duas opções, a CoronaVac, do Butantan e a vacina AstraZeneca,  da Fiocruz, que reeditam a velha guerra entre São Paulo e Rio de Janeiro, e que nos fazem esperar chegar nos aeroportos aviões vindos de muito longe trazendo seus pedaços para que sejam aqui fabricadas, além de alguns pacotes com poucas doses prontas. Ainda por cima convivendo com as dúvidas que vem sendo interpostas sobre suas capacidades de conter as violentas novas cepas, e sobre suas eficácias em determinados grupos.

Nossos passos estão sendo, não sobre agulhas, mas sobre alfinetes pontiagudos, porque é cada vez maior a sensação de impotência, de tomar tapas no rosto, sem ter nem mais para que outro lado virar, fatos sobrepujando outros fatos. E ter de ver os rostos dos culpados, os mesmos, acrescidos ainda de outros piores, que ainda ameaçam nosso maior bem, a liberdade, como se a eles fosse dado esse direito, e tirados todos os deveres que um dia juraram cumprir.

Nas ruas, a miséria, o poço das classes sociais sendo cavado mais rápido e fortemente do que as covas rasas onde atônitos enterramos nossos amigos, parentes, sonhos, amores e esperanças. As espetadas atingem nossos sentimentos.

Agulhas são usadas para costurar, unir, penetrar nos tecidos para a criação de novas coisas, remendos de coisas mais antigas, costurar buracos.

As agulhas das vacinas perfuram nossos corpos com a esperança de volta de alguma normalidade. Mas esta volta – assim como o surgimento de um líder de verdade – está sendo como procurar agulhas no palheiro.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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5 thoughts on “As agulhas de março. Marli Gonçalves

  1. Cara Marli. Entendo o que você quer dizer, mas o surgimento de um líder “de verdade” é coisa pra discutir muito, se não mesmo para temer. Basta lembrar que, há três anos, esse líder de “verdade”, de uma hora para outra revelado ao mundo, assombrando-o até hoje, foi esfaqueado em praça pública e… bem, você já sabe que “verdade” aquilo representa. A história do Fascismo na Europa da primeira metade do Séc. XX, em todas as suas vertentes político-partidárias e em todos os países em que surgiu, demonstra que esse líder “de verdade” realmente não deveria “surgir”. Deveria, digamos, “ser surgido”. Surgido “de nós”, não “para nós”, mas mesmo isso não diz muito por estas bandas. Note que Lula, por exemplo, realmente surgiu do povo, não das “elites” econômicas, e veja no que deu. De minha parte, acho que deveríamos deixar de lado essas utopias de lideranças que um dia nos levarão a um país decente. Isso simplesmente não vai ocorrer, não será obra de um governo – mas, imaginando que ocorra, vale lembrar a máxima, lusitana, que vem desde o Brasil Colônia: “Depois de mim, virá aquele me fará grande!” Em suma, minha cara, prudência com 2022. Tem tudo para fazer de 2023 o início de uma grande, quadrienal, penitência coletiva. (Embora, convenhamos, muito dificilmente alguém consiga fazer Jair parecer grande…)

  2. Muito interessante a imagem criada por você para as agulhas que cosem para unir, mas que no presente caso nacional só separam.
    Obs: se me permite, na frase
    “”Ainda por cima convivendo com as dúvidas que vem sendo interpostas (…)”” o vêm nesse caso tem circunflexo. Tenho certeza de que foi distração da sua parte.
    Um abraço.

  3. Enquanto houver doutrinados travestidos de jornalistas feito a Sra, nada vai mudar.
    Uma retórica de palanque não muda em nada o destino de um país
    Se recusar a aceitar um presidente eleito democraticamente e querer uma volta ao passado, custe o que custar; em nada engrandece a panfletagem ridícula dos que perderam uma eleição.
    Oposição consciente é saudável e contribui muito para um bom governo mas a idiotização de uma ideologia falida em nada fortalece os caminhos e as propostas que se perdem ao vento por conta da surdez insensata da arrogância ideológica.
    A solução é simples demais.
    Lance um candidato com suas propostas, mostre o quanto ele é melhor e ganhe nas urnas.
    Pronto.
    O poder aguarda.

    1. A senhora já tomou vacina? Contra a raiva, inclusive? E “travestida de jornalista”, “doutrinada (kkk), nem deveria responder, mas não sou de me calar diante de arrogantes como você. Tenho 43 orgulhos anos de profissão. Você, mesmo, é, quem?…___________________________
      Esse ser horroroso eleito “democraticamente” nada mais é que um bandalho ignorante, velho conhecido da mais velha ainda política.
      Se liga enquanto é tempo. Depois vai ficar feio.
      E quando escrever para alguém, seja educada, especialmente no início.
      Marli

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