BOI

Boi bravo mas está na cerca. Coluna Carlos Brickmann

BOI BRAVO MAS ESTÁ NA CERCA

 COLUNA CARLOS BRICKMANN

boi

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 21 DE FEVEREIRO DE 2021

 Não se preocupe com o deputado Daniel Silveira: sua prisão não vai gerar crise nenhuma. Seus colegas parlamentares até se preocupam, porque ali não há muita gente isenta do medo de prisão, mas não vão entrar numa briga pesada por um deputado de quem ninguém gosta, por sua antipatia e falta de educação. O Supremo já mandou o recado a ele e ao pessoal do Gabinete do Ódio: bateu, levou. As Forças Armadas receberam o recado e, tirando um ou outro, não vão querer ficar lembrando a prepotência de três anos atrás – aliás, o general Fernando Azevedo, ministro da Defesa, já conversou com Toffoli, de quem foi assessor no Supremo. As linhas de poder se entrelaçam, sempre. É aquilo que os ingleses chamam de “establishment”.

E Daniel Silveira? Não estão nem aí com ele, não. O tratamento que recebeu ao ser preso foi vip: ninguém o mandou calar-se quando destratou a policial civil que lhe exigiu a colocação de máscara, prenderam-no numa sala e não numa cela. Mas entrou em cana, o que não esperava. Ao abrir sua caixa de insultos, estava no lugar errado, na hora errada: foi vítima de uma bala perdida quando o STF respondia a antiga provocação do general Villas Boas. Ele imaginava que seria defendido por Bolsonaro. Quem acredita em mitos não é bem defendido. Hércules, o herói grego, era filho de Zeus, o deus dos deuses, o Mito Supremo. Mas ficou ao sol e ao sereno, sem ajuda do Mito, e teve até de limpar estrebarias. Em política, Daniel Silveira está cancelado.

 Fumaça nos olhos

Para Bolsonaro, o destempero mal educado de Daniel Silveira foi um presente: a irritação com a falta de vacinas é grande e Bolsonaro está sendo responsabilizado por isso (e não adianta tentar dividir a culpa com o general Pesadelo porque foi ele que o nomeou e sustenta). Quem acha que a vacina está demorando sabe quem é que não tomou as providências para comprá-la. E os que já foram vacinados sabem que tomaram a CoronaVac, a “vachina”, e não as que o Governo Federal diz que encomendou.

As discussões sobre Daniel Pereira e a legalidade de sua prisão desviam o foco da falta de vacinas. E, como o Gabinete do Ódio vai martelar o assunto, fica mais fácil fugir do que é importante. De qualquer forma, Bolsonaro enfrenta problemas: está descobrindo que o Centrão o apoia, mas só vota com ele depois de negociar caso a caso. Haja milhões de argumentos para convencer Suas Excelências!

 Os reis da estrada

As lideranças dos caminhoneiros, irritadas com o quarto aumento do óleo diesel neste ano, ameaçam parar e bloquear as estradas. Bolsonaro zerou o imposto federal que incide sobre o diesel para agradar os caminhoneiros. Mas sabe que é pouco: o preço mundial do petróleo está subindo (em grande parte pelo forte inverno americano, que exige petróleo para aquecimento), o real despencou, e o resultado são os aumentos. Bolsonaro diz que “vai acontecer alguma coisa” na Petrobras. OK: pode dar um jeito de pedir que o presidente da empresa, Roberto Castello Branco, vá embora. E daí? Quem assumir enfrentará o mesmo problema: petróleo subindo, real caindo. Como segurar o preço na bomba? E coisas como pneus, por que vão cair de preço?

 Mundo novo

O fato é que os grandes países se preparam para aposentar o caminhão a diesel. Em pouco mais de dez anos, os caminhões deverão ter emissão zero, movidos a hidrogênio, álcool, eletricidade. Baixar artificialmente o preço do diesel vai retardar a opção por outros meios de transporte. O que precisa ser feito é um plano que envolva a sobrevivência dos caminhoneiros, e que os liberte dos financiamentos a longo prazo que os sufocam. E de preferência sem projetos tipo BR do Mar, de estímulo à navegação de cabotagem: parece ótimo, mas o plano é dar todo o transporte naval de porto a porto a navios estrangeiros, sem deixar lugar aos nacionais e sem abrir aos caminhoneiros a possibilidade de atuar em percursos menores sem morrer de fome.

 Onde está o dinheiro?

Com a saída da Ford, autoridades de diversos Estados iniciaram o cerco a outras empresas automobilísticas, para manter a arrecadação e evitar que milhares de operários do setor fiquem desempregados. Boa parte dos esforços é para atrair a CAOA, de Carlos Alberto de Oliveira Andrade, que produz veículos projetados na China. Andrade deu sinal verde a algumas das negociações, mas deixando claro que precisará de ajuda para se instalar.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas o Grupo CAOA é o maior devedor da Massa Falida do Banco Santos – a soma dos bens do banco, administrados pela Justiça, usados para pagar os credores. Em ótima reportagem, a Record mostrou que a CAOA deve, há 15 anos (época da falência do banco), o valor de R$ 1.685.931.000,00 – total informado pelo administrador judicial da Massa Falida, Vânio Aguiar. Em primeira instância e no Tribunal de Justiça de São Paulo, Andrade e esposa foram condenados, com bens penhorados. Recorrem ao STJ, em Brasília.

Mais ajuda? E pagar a dívida antiga, nada?

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2 thoughts on “Boi bravo mas está na cerca. Coluna Carlos Brickmann

  1. Há um outro boi bravo que usa e abusa da prerrogativa que lhe confere o máximo cargo para avançar sobre tudo o que considera ser contra ele.
    Resfola, ameaça, baba, avança para logo depois se retrair e alegar que colocam na sua boca o que disse, mas finge não se lembrar do feito – e até sugere que fez exatamente o contrário do que vídeos insistem em expor e desmentir.
    Até agora não sei se tal comportamento é tática espertamente estudada ou se indício de algum tipo de insanidade.
    O que pressinto é que caminhamos a passos largos para um abismo já vivido antes.
    Gostaria muito de estar errada.

  2. A situação dos escombros deixados pela Ford, e o envolvimento da CAOA na sua reutilização, ainda vão revelar o real tamanho do Estado brasileiro. De joelhos, abdicando de arrecadação, oferecendo perdão e benefícios a perder de vista, e tudo isso para preservar uns milhares de empregos neste país de zilhões de desempregados, o Estado brasileiro vai apenas confirmar a falência do conceito de Estado-nação e a onipotência do Deus do Grande Capital (nacional e transnacional) na elaboração e implementação das políticas ditas “públicas”. Reclama-se muito de que Jair não permite a Paulo a implementação de seus “programas de privatização”. Francamente, precisa mais? A fabricação das políticas de interesse público já está privatizada mesmo! Quem define a Selic, afinal, vão me dizer que não é a FIESP…? Ah, vai, fala sério… E depois não querem que a inflação faça a gasolina e o resto subirem aos céus para ficar à direita do Deus Pai… Tem gente que ainda não entendeu que tudo isso é um fenômeno só.

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