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A CPI da Covid entra em cena. Edmilson Siqueira

Só que esse pequeno movimento causou a ira de Bolsonaro e nem poderia ser de outra maneira. Tudo que o enviesado presidente não quer é uma CPI nos calcanhares fazendo perguntas difíceis aos seus incompetentes auxiliares e aos competentes ex-auxiliares.

CPI - bolsonaro mentiroso
CHARGE – 

 

Nando Motta, músico e ilustrador

Você pode não acreditar, mas estamos na iminência de, em pouquíssimo tempo, considerar Renan Calheiros um herói nacional. Como ele é o relator da CPI da Covid 19, terá um longo tempo para inquirir os investigados e testemunhas convocados pela comissão. Seu papel é, de longe, o mais importante, já que, além de ter um enorme tempo para fazer perguntas, poderá interferir em qualquer depoimento, pedindo maiores esclarecimentos de quem quer que seja. Claro que o presidente da comissão também é importante e tem poder, mas se a oposição tiver maioria entre os membros – e tudo indica que terá – ele nada poderá fazer a não ser obedecer à vontade da maioria.

Como já se escreveu à farta por aí, CPIs podem sair do controle de qualquer uma das partes a qualquer momento. Essa, então, nem se fale, pois já começou rebelde. Primeiro que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, não queria instaurá-la – aliás, ele não quer instaurar nenhuma, já que deve favores a Bolsonaro e espera receber muita coisa ainda do governo – mas foi obrigado pelo STF, que apenas determinou-lhe a abertura já que os requisitos todos estavam presentes. Ou seja, a CPI já existia antes mesmo da ordem do STF. Cabia a Pacheco a obrigação de abri-la, no que foi alertado pelo STF. E, claro, cumpriu o que já deveria ter cumprido antes da manifestação jurídica.

Só que esse pequeno movimento causou a ira de Bolsonaro e nem poderia ser de outra maneira. Tudo que o enviesado presidente não quer é uma CPI nos calcanhares fazendo perguntas difíceis aos seus incompetentes auxiliares e aos competentes ex-auxiliares. Bem que ele tentou ficar com maioria, indicar o relator e o presidente da comissão. Perdeu em todas, ficando com o prêmio de consolação de ter um presidente que não é totalmente oposição a ele. Proclama-se independente o senador Omar Aziz (PSD). Só que ele é do Amazonas, o estado mais atingido pela covid e o que passou por mais apertos ainda devido às interferências totalmente erradas do governo federal. Além da falta de leitos, houve a crise da falta de oxigênio e muita gente morreu sufocada, pois ao invés dos cilindros que poderia salvá-las, o governo federal mandou para lá o general da saúde carregando centenas de milhares de comprimidos de cloroquina e ivermectina, que, provavelmente, ajudaram muitos pacientes a morrer de complicações no fígado e nos rins. Evidentemente, o presidente da CPI vai ser cobrado por sua base e não vai querer ser cúmplice do genocídio ocorrido em seu estado.

De resto, o imortal Renan Calheiros, invicto em condenações apesar de inúmeros processos de todos os tipos que sofreu e vem sofrendo ainda, será o relator e pode-se esperar tudo dessa figura, inclusive uma atuação digna de um grande político. Talento ele tem, embora seja corrupto até a alma. E tem telhado de vidro: seu filho é governador de Alagoas e está envolvido em investigações várias, entre elas algumas sobre o uso de verbas que recebeu para combater a pandemia. Ou seja: a atuação do senador como relator se, a princípio, será de oposição, pode decepcionar a todos, o que não será surpresa. O que se pode dizer com certeza é que os verdadeiros oposicionistas da CPI não podem depositar em Renan Calheiros todas as suas fichas em uma atuação vigorosa na relatoria do experiente senador.

A expectativa maior dessa CPI é que ela acuse tanto o presidente quanto seus mais diretos auxiliares de inúmeros e gravíssimos crimes de responsabilidade. A matéria de capa da revista Crusoé, listou cinco situações em que o Bolsonaro cometeu crimes que nem precisam de outras provas, já que foram cometidos em público, em lives, nas redes sociais e em manifestações de rua, com ele cercado por aquele pobre bando de crentes que o consideram um mito. Reproduzo aqui os cinco notórios crimes cometidos por Bolsonaro: 1) A negligência com as vacinas; 2) O discurso negacionista; 3) O boicote às medidas preventivas; 4) A sabotagem às máscaras de proteção e, 5) As omissões na crise do Amazonas.

E a tudo isso acrescente-se a tentativa de intimidar o STF com chantagem, como ficou explícito na conversa entre Bolsonaro e o senador Jorge Kajuru, gravada e publicada nas redes sociais pelo senador que jurou que o presidente sabia que estava sendo gravado e que a conversa iria ser publicada. Bolsonaro diz que foi traído. E além da tentativa de chantagem, Bolsonaro também criou mais um impasse, ao xingar um senador, Randolfe Rodrigues (Rede) que não apenas lhe faz ferrenha oposição, mas é membro da CPI e dela será o vice-presidente.  Ou seja, em toda sessão da dita cuja que por algum motivo o presidente não puder comparecer, Rodrigues assumirá o papel de presidente. Bolsonaro, na conversa com Kajuru, no seu estilo de estrebaria, chamou o senador de “bosta” e disse que ia “sair na porrada com ele”.

Enfim, o Brasil terá muito mais assuntos a partir de quinta-feira, quando se instala oficialmente a CPI da Covid 19,  além do que listar diariamente o número de casos, de mortos, de poucas vacinas e de comportamentos ignorantes dos políticos e do povo na tragédia que nos abate com muito mais força do que na grande maioria dos países, sejam eles mais ou menos desenvolvidos que nós. Teremos uma CPI para, pelo menos, lavar a roupa mais do que suja que esse governo genocida vem oferecendo ao povo.

Se essa comissão conseguir cumprir o seu dever, deverá pedir que se abra imediatamente um processo de impeachment do presidente e que ele seja conduzido preso assim que for apeado do cargo. Durante os governos petistas, um refrão tomou conta da oposição. Dizia: “Lugar de ladrão é na cadeia”, se referindo ao mar de lama da corrupção que aqueles governos produziram.

Pois dá pra repetir o refrão agora, com mudança de uma só palavra: “Lugar de assassino é na cadeia!”

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Edmilson Siqueira é jornalista

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