KING RICHARD

King Richard: Filhas de rei, rainhas são. Por Wladimir Weltman

KING RICHARD

Acho esporte, qualquer esporte, um saco! Não quer dizer que não jogasse uma pelada com os amigos de vez em quando. Na juventude cheguei a tentar jogar vôlei, ping-pong, judô, natação e water polo, tudo com resultados deploráveis. O único esporte em que me dei bem, talvez porque seja um esporte zen, foi boliche… Mas o que realmente detesto é assistir esportes. Nunca tive paciência nem prazer nisso. Só assistia a jogo de futebol quando era jogo da seleção brasileira. Isso antes do 7 a 1 da Alemanha contra os canarinhos. Agora, nem isso.

A única coisa que gosto menos do que assistir a eventos esportivos, é ver ou ouvir comentários ou debates esportivos na TV. Depois que Nelson Rodrigues, João Saldanha e Sandro Moreira saíram de campo, nunca mais assisti ou li nada a respeito.

Por isso quando me chamam pra assistir e falar de algum filme com temática esportiva, o faço por força da obrigação profissional. Como em geral o assunto são dramas humanos e o esporte é só pano de fundo, dá pra aguentar.

Felizmente, nos últimos tempos, tive que cobrir o lançamentos de apenas dois filmes esportivos. Foram duas obras cujo tema eram o tênis. O primeiro foi A BATALHA DOS SEXOS, um filme sobre a histórica partida de tênis entre a campeã mundial feminina Billie Jean King e o ex-campeão masculino Bobby Riggs. O jogo fez o mundo parar. Noventa milhões de telespectadores assistiram Billie Jean vencer Riggs mostrando que as mulheres são capazes de jogar de igual para igual com os homens. O filme de 2017 contou com os atores Emma Stone e Steve Carell nos papeis principais.

Há poucos dias fui novamente convidado a assistir outro filme sobre o mundo do tênis. Tratava-se de KING RICHARD, um filme sobre a vida e a carreira das tenistas Vênus e Serena Williams e sua família.

Aqui vale a pena uma pausa nesse relato para informar que as origens do tênis remontam ao séculos 12 na França, quando era chamado de chamado “jeu de paume” (jogo de palma). Assim chamado pois era jogado sem raquetes, com os participantes acertando a bola com a palma da mão.

Na Inglaterra de Henrique VIII o jogo se tornou popular entre a nobreza, pois o rei era grande admirador do esporte. Daquela época ainda existem na Grã-Bretanha muitas quadras de tênis originais em Oxford, Cambridge, Hampton Court Palace e no Falkland Palace em Fife, onde Mary Stuart Rainha da Escócia jogava regularmente.KING RICHARD

Na França o esporte caiu em desgraça durante a Revolução Francesa por ser considerado um esporte essencialmente aristocrático. Algo que até hoje parece ser verdade. Tanto que um dos aspectos interessantes do filme KING RICHARD tem a ver com o fato de que, até hoje, para alguém se destacar nesse esporte, é preciso ter dinheiro. Jovens pobres raramente se tornam tenista profissionais. Ainda assim duas meninas negras ousaram sonhar com um futuro de sucesso nas quadras mundiais desse esporte “real”. Vênus e Serena Williams vieram do bairro de Compton em Los Angeles, uma área de população essencialmente negra, de baixa renda e sujeita a presença constante de gangues. O filme mostra como elas conseguiram superar tudo isso.

O rei do título refere-se ao pai delas, Richard Williams. Um sujeito simples, de origem humilde, mas com um obstinado plano na cabeça: fazer das filhas campeãs na vida. Essa história edificante foi que cativou uma das estrelas de Hollywood a abraçar o projeto. Numa conferência de imprensa via Zoom, Will Smith explicou que ao ver uma antiga entrevista de um repórter branco tentando pressionar negativamente Vênus Williams, na época com 14 anos de idade, ela é salva por seu pai, que interrompe a entrevista e coloca o repórter no seu lugar. Will nos disse: “Eu queria interpretar esse pai protegendo sua filha dessa maneira”.

Will também contou que a maneira como Richard e a esposa educaram as filhas, fez com que repensasse a forma como ele educa seus filhos. Will explicou que seu pai era um militar e o educou na base do “faça o que eu digo, porque sou adulto” enquanto Richard Williams tinha um método mais democrático e colaborativo, bastante inspirado e de sucesso garantido, como o filme apresenta.

Sem apelar para o melodrama, o diretor Reinaldo Marcus Green e o roteirista Zach Baylin, contam como Richard e sua esposa planejaram e realizaram um projeto de sucesso para as meninas. A história é real, inspiradora e extremamente interessante. E contou com o apoio da família durante as filmagens, incluindo aí as próprias Serena e Vênus.KING RICHARD

O diretor contou aos jornalistas que ele também nada entendia de tênis: “Eu sou ligado mesmo é em futebol (americano). Mas na hora de fazer o filme, eu me propus a rodar uma história que minha mãe pudesse assistir. Ela nunca viu um jogo de tênis, mas ela entende o que é ganhar ou perder; o que é lutar; o que é uma família; o que é o amor. Eu queria que ela e as outras pessoas que vissem o filme, gostassem e entendessem o que estava acontecendo, sem se perder nos as aspectos técnicos do esporte”.

Confesso que realmente gostei do filme, que assisti no teatro dos estúdios da Warner Bros. ao lado do meu filho Francisco. Ao fim da apresentação, um coquetel nos esperava do lado de fora, em meio a cidade cenográfica do estúdio. Os garçons perambulavam entre os convidados numa rua de Nova York falsa. Fiquei feliz de assistir ao filme com Francisco e de poder compartilhar com ele essa oportunidade única de bebericar um refrigerante e saborear canapés politicamente corretos e vegetarianos em meio a cenários que estiveram em filmes como BLADE RUNNER, TO BE OR NOT TO BE e a CORRIDA DO SÉCULO. E me questionei se havia sido um bom pai até então. Será que realmente ajudei meu filho a crescer e se tornar um campeão neste nosso mundo tão competitivo e cruel?

Talvez tivesse gostado de conhecer a saga de Richard Williams e suas filhas anos atrás para me inspirar.

ESTREIA DO KING RICHARD – Na companhia de Francisco Weltman

 __________________________________________________________________

WLADIMIR WELTMAN – é jornalista, roteirista de cinema e TV e diretor de TV. Cobre Hollywood, de onde informa tudo para o Chumbo Gordo

__________________________________________________________________________

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine a nossa newsletter