rir

O que dá pra rir dá para chorar. Por Wladimir Weltman

“Você não deveria ter ficado velho antes de ficar sábio”

William Shakespeare, “Rei Lear”, cena 5 do primeiro ato

 

O que dá pra rir dá para chorarDentre as muitas peças de Shakespeare a que menos gosto é “Rei Lear”. Mas há nela uma frase que me parece uma das melhores lições de vida que qualquer um deve seguir. É a cena em que o bobo da corte diz a Lear que ele deveria ter se tornado sábio, antes de se tornar velho. Isso vale para todos nós. Nada mais patético do que um velho idiota. Infelizmente conheço muita gente que não se preocupou com isso e hoje encontra-se nessa triste categoria. Outra lição que muito cedo aprendi desta cena é que só o humor nos dá espaço para criticar contundentemente os poderosos.

Ao longo da presidência de Donald Trump as únicas análises possíveis e inteligentes de seu “desgoverno” saiam da boca dos “bobos da corte”, ou seja dos comediantes da TV ou da imprensa. Só alguém com a capacidade cirúrgica de dissecar as camadas de papo furado e mentiras que envolvem nossos políticos para evidenciar o quanto estão pelados em praça pública.

Já se falou muito de DON’T LOOK UP, mas creio que vale a pena usá-lo como exemplo de como o humor pode ser um poderoso instrumento de crítica e conscientização das pessoas dos problemas sócio-políticos que afetam a todos nós.

Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos é O GRANDE DITADOR de Charles Chaplin. Ele é um maravilhoso exemplo de como um comediante pode através do humor, enviar a todos um alarmante aviso de um perigo eminente. Chaplin escreveu, produziu, dirigiu e atuou no filme que foi lançado em 1940, um ano antes dos EUA entrarem na guerra. Sendo que a ideia do projeto surgiu muito antes, em 1937, quando Hitler – o objeto de sua sátira – já estava botando as manguinhas de fora, mas o mundo recusava-se a ver.o grande ditador - O que dá pra rir dá para chorar

Encontrei recentemente um artigo de Jessica Singer, produtora e escritora da Associated Broadcast Consultants, Inc., empresa de produção especializada em documentários curtos, publicado no site www.brattleblog.brattlefilm.org em setembro de 2007.

Jessica conta o quanto O GRANDE DITADOR foi ousado e premonitório na época: ”Durante a pré-produção, a maioria dos americanos ainda não se importavam muito com o que estava acontecendo na Europa”, nem queriam cutucar Hitler com vara curta. Em pesquisa de 1939, 96% dos americanos se opunham a entrar na guerra. Nem Hollywood estava disposta a produzir filmes que se opusessem à Alemanha nazista. Mesmo assim Chaplin seguiu em frente.

Infelizmente O GRANDE DITADOR não evitou os horrores da Segunda Guerra, nem as atrocidades nazistas, mas certamente fortaleceu a disposição dos aliados de lutar e deve ter mexido com a convicção de muitos que não queriam se envolver no conflito.

O que dá pra rir dá para chorarAssisti DON’T LOOK UP na première da classe artística ainda em novembro. Ri muito durante a sessão. Risos provocados pelo humor do diretor/roteirista Adam McKay e também risos de nervoso. Dois dias depois ainda estava pensando no filme e no amargo que a história deixou na minha boca. Apesar de ser ficção, as possibilidades reais de que algo assim aconteça são extremamente desconfortáveis, principalmente depois de conviver com Trump, Bolsonaro, pandemia, etc, etc. Ou seja, apesar de divertido, o tema do filme não tem a menor graça. Ele demanda questionamento sério. De todos aqueles que acham que votar em idiotas é aceitável e sem perigos. Como em 2022 ainda há débeis mentais que questionam a ciência?

Ao fim da projeção o elenco veio a frente do público para falar com os presentes. Estavam lá Meryl Strip, Jennifer Lawrence, Leonardo de Caprio e o diretor Adam McKay. Entre outras coisas menos importantes que foram faladas, McKay confessou ter esperança de que “uma pequena porcentagem do público se reoriente” com o filme. Em seguida a pessoa que estava comandando a palestra perguntou a DiCaprio, um ativista ambiental de carteirinha, se ele via com algum otimismo a crise climática, principalmente depois de trabalhar no filme, ao que ele respondeu: “Não muito”.

Além do público que está assistindo o filme via Netflix com avidez, a Critics Choice Association indicou DON’T LOOK UP para premiação em várias categorias, ainda sem data para acontecer por culpa do Ômicron. DON’T LOOK UP concorre como Melhor Filme e também como Melhor Comédia; Melhor Conjunto de Atuação, Melhor Roteiro Original (Adam McKay, David Sirota), Melhor Canção (“Just Look Up”) e Melhor Trilha Sonora (Nicholas Britell).

Quem ainda não viu, aproveite a dica.

O que dá pra rir dá para chorar

__________________________________________________________________

WLADIMIR WELTMAN – é jornalista, roteirista de cinema e TV e diretor de TV. Cobre Hollywood, de onde informa tudo para o Chumbo Gordo

__________________________________________________________________________

1 thought on “O que dá pra rir dá para chorar. Por Wladimir Weltman

  1. Vavá, não é só na direita tipo Trump que Don´t look up mete o pau mas principalmente na mídia e na nossa civilização tão doente. Abração Daniel Fresnot

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine a nossa newsletter