JK

Pedalando sem direção. Por Aylê-Salassiê Quintão

– JK, um paradigma perdido: pedala-se sem plano de futuro –

JK

Décadas perdidas e ausência de um projeto de futuro. Desde JK, o brasileiro vive distopicamente, em condições alternadas de abundância e privação, acreditando-se todo o tempo um ser abençoado por Deus. No fundo não entende e nem sabe o que fazer do Brasil. Alguns tem dúvida até do que estão fazendo por aqui.  Convive-se passivamente com uma sucessão de governos incompetentes e corruptos, sem preocupação com o desenvolvimento e com o futuro.

No Executivo só se fala em metas não cumpridas e ajustes na economia. Tudo casuístico. Dinheiro para investimento não existe. O crescimento que se anuncia, se existe, vem se fazendo sozinho e, por causa disso, gerando demagogia, desajustes e casuísmos. No Judiciário torna-se rotina tergiversar entre as disposições constitucionais e a opinião pública, mesmo a configurada em pesquisas dirigidas. Divertem-se e ganham dinheiro os advogados   com o prolongamento das causas. Não se apresenta nenhuma solução para o País. Ali não se preocupa sequer com a destruição criativa.

Brigando junto com as minorias na rua contra uma segregação generalizada, os sociólogos fazem emergir, a cada dia, novos problemas, despreocupados com a governabilidade.  Para eles, a Nação vive em estado de “apartheid”.  Conclusões como essa pegam fogo no jornalismo. Se tem chance, jogam mais lenha na fogueira. A imprensa curte o “bad news, good news“. Assim, ela definha ante o empoderamento das redes sociais, que também nada oferecem ao futuro.

Puxando as cordas do cenário, estão os gestores das corporações, dos bancos, da política e, hoje, nem tantos mais, os sonhadores acadêmicos.  Um grupo insiste em defender a gastança, como se o Tesouro fosse uma lâmpada de Aladim. Outro prega” ajustes” na demanda, sem qualquer resultado na inflação; e ajuste na oferta, sem qualquer efeito nos preços. Perde-se o trem da história escondendo-se na pandemia.

O brasileiro se afoga em casuísmos. Os liberais (a direita) não tem preocupação sequer com a lisura dos negócios: querem liberdade para ganhar e gastar; a esquerda (os chamados comunistas), insiste em, como dizia Roberto Campos, distribuir o dinheiro dos outros.  Lá no fundo está o Centrão, aqueles que, em cima do muro, defendem para si o que pertence à comunidade nacional. São intransigentes na defesa das “emendas secretas” (R$ 5,7 bilhões), tema que ainda pode ser um problemão no momento em que o dinheiro começar a ser derramado.

Conduzido por castas sem história, nem pedigree, o  homem comum, inclusive os mais conscientes,  engole fácil  a retórica da democracia cidadã, apregoada por uma oligarquia  que nunca se extingue, um conjunto de pessoas identificadas como partes  de uma  “famíglia  distópica”, cujos desentendimentos internos lhes dão corpo e forma exclusiva. Naquelas esferas o cidadão desaparece entre o eleitorado, como povão ou insignificantemente como massas.  Deglute, inerte, as sobras debaixo da mesa, como Lázaros.

Encarregados da segurança, os militares assistem de longe, cada vez mais aquartelados, a esse imbroglio de injustiças e incoerências, que nada tem a ver com as políticas e a gestão da coisa pública e que, ao contrário, constitui em uma ameaça à segurança futura.

Os brasileiros transitam pelo tempo sem eira nem beira. Sem rumo, sem qualquer indicação clara do que terão pela frente seus filhos e netos. Os ajustes dos economistas indicam um excesso de presenteísmo. Não indicam diretrizes e crenças capazes de assegurar a sobrevivência das gerações que estão vindo por aí. As projeções de futuro não merecem a confiança. Só conversa fiada.

Assim, em 2022, entra-se em mais um exercício sem perspectivas de futuro…, nem de presente. Como diz o nosso brilhante amigo Carlos Brickmann, o cenário promete (ou blefa-se) a opção eleitoral entre um incompetente ou um corrupto. O ex-juiz Moro está aí. Uma alternativa. Mas, no campo da política e do Judiciário, todos querem esquecê-lo, desqualificá-lo, ou fazer de conta que ele não existe.  Fala-se da moralidade, deste comportamento distópico que toma conta, cada vez mais, do pensamento e da cultura brasileira. Os ideólogos e partidos consideram um atraso de vida   priorizar, no destino do País, o combate à corrupção.  JK é um paradigma perdido, invejosamente esquecido.

O desenvolvimento deixou de existir. O País não investe porque não tem dinheiro e o empresariado não o faz com medo de atravessar o Rubicão. Nesse cenário, o brasileiro estaria condenado a viver eternamente de ajustes, de   pedaladas. Já deu até impeachment, sem que seus agentes se incomodassem, entretanto. Ao contrário, continuam a desfrutar das mordomias de Estado e a caminhar em direções desconhecidas.

Vive-se, há tempos, sob a égide do anátema de Chacrinha, “…, vim para confundir”. Os cidadãos sempre se divertiram com o bordão. Não devia dar mais para brincar com 230 milhões de cidadãos. É um vacilo da História. O País reclama por um plano de desenvolvimento e, como um Banco Central sério, também a restauração da credibilidade e autonomia do IPEA – Instituto de Pesquisas Aplicadas. Omite-se e diverte-se, enquanto nossos planejadores de futuro definham. Depois, nos assustamos com projeções e planos de futuro para o Brasil feitos por estrangeiros.

Pelo jeito, existem muitos.

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Aylê-Salassié F. Quintão – Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília. Autor de “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018

 E autor de Lanternas Flutuantes:

Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
Tailandês – Loi Kathong (ลอยกระทง) .

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